Miró Porto de Lisboa

Esta fotografia é da Assembleia geral de trabalhadores portuários em Barcelona em apoio à greve dos estivadores portugueses. A Mota Engil – que é uma daquelas empresas que vive à sombra da protecção estatal em parcerias público-privadas, subvenções e outros negócios – conseguiu provocar esta imagem inesquecível. Nunca, desde 2008, na Europa, uma política realmente europeia tinha ido tão longe como com este movimento internacional de portuários.

Achar que é meramente simbólica uma greve de horas que pára os portos da Europa é não perceber nada do que é a história do movimento operário. Uma greve destas leva meses a ser preparada, exigiu meses de assembleias gerais de trabalhadores e assembleias internacionais, na sua preparação os trabalhadores discutiram as leis de trabalho europeias, a chantagem do trabalho barato do sul sobre o norte, a protecção estatal à flexibilização laboral; debateram o papel dos sindicatos que aderiram mas também o papel dos que não aderiram, falaram sobre a necessidade de ter uma política estratégica (hoje Portugal amanhã França, Dinamarca); os fundos de greve internacionais, a comunicação com outros sectores de trabalhadores; a cadeia produtiva (param os portos mas param também os camiões, os comboios que iam transportar o que se pára nos portos); param linhas de montagem dependentes de peças, por isso. Perguntaram estes portuários quem são estas empresas privadas – como a Mota Engil – a quem o Estado concessiona os portos garantindo todo o investimento aí feito com dinheiros públicos.

Numa palavra, esta greve abriu portas a que, ontem, milhares de trabalhadores na Europa, tenham paralisado a produção para discutirem entre si afinal como é que se produz, para quem se produz e em que condições se produz.
A venda dos quadros de Miró é, como tudo o que envolve estes governos, uma vergonha. Miró que nasceu justamente aqui, em Barcelona, em 1893. Mas que a comunicação social tenha subterrado esta greve com o pintor é revelador da total incapacidade de compreender o mundo que nos rodeia.

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One Response to Miró Porto de Lisboa

  1. Paulo says:

    Cara Raquel,
    Não acredito que a Raquel pense que a comunicação social não compreenda o mundo que a rodeia. A questão é essa mesmo: a comunicação social está rodeada, cercada e amordaçada pelos mesmos interesses económicos que levam a Raquel a escrever este texto. Os únicos órgãos de comunicação em que acredito são os meus olhos, os meus ouvidos e o que leio escrito por pensadores livres…o resto é palha!!!

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