A dimensão nacional-fascista das políticas europeias

A mesma Merkel que acha que os países do Sul têm férias a mais, acaba de decidir baixar a idade de reforma na Alemanha para os 63 anos. Se é verdade que é o capital financeiro, transnacional, que determina e lucra com grande parte da selvajaria que hoje assistimos na Europa do Sul, também é verdade que existe um nacional-fascismo emergente.
Merkel tudo fará para que se trabalhe mais e pior em Portugal do que na Alemanha, e não hesita em transformar os governos do Sul em oberkapos da miséria dos seus povos. Mais, estas não podem ser lidas como políticas nacionais mas europeias, e é bom que se diga isto a todos os que continuam a esconder-se desta discussão, da esquerda à direita, atrás da frase “mais Europa, melhor Europa”.
Neste momento, o governo da Alemanha tem cada vez mais interesse que, em países como Portugal, aumente o desemprego, diminua a produção e aumente a dependência. Provocar o desequilíbrio é uma política europeia.
As vantagens para Merkel são óbvias. Em primeiro lugar porque tem empresas suas bem posicionadas a disputar as sobras (veja-se o exemplo do Lidl, que sem o instrumento do euro nunca teria conseguido entrar e permanecer em Portugal) em segundo lugar porque lhe permite, a baixo custo, importar o que lhe for sendo mais útil (até pessoas).
Sempre fui cauteloso em comparar o presente com os fascismos do séc. XX. Não acho que vivamos, ainda, nas condições de outrora mas creio que já existem sinais mais do que preocupantes. Se é certo que o grande beneficiado desta crise não será o povo alemão, importa mantê-lo sereno e estimular o seu ódio para com os outros povos.
Não discutir a dimensão nacional fascista deste crise leva-nos a continuar a patinar na maionese do europeísmo de alguns.

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10 Responses to A dimensão nacional-fascista das políticas europeias

  1. JgMenos says:

    Como sempre o disparate é inimigo da eficácia da mensagem.
    É evidente que quem é eficiente e tem contas prudentes tem interesse em baixar a idade da reforma e deve fazê-lo.
    Uma parte da mensagem é correcta: as ‘conquistas’ de uns são normalmente a ‘penalização’ de outros.
    Assim no presente pagamos as conquistas do passado!

    • Maria says:

      Não percebeu mesmo, ou não quer mesmo … no presente, pagamos as conquistas dos outros. Sejam os BPNs, sejam da redução para 63 anos dos alemães, seja porque na Alemanha existem empresas bem posicionadas para apanhar as sobras dos portugueses como diz o texto, seja por andarmos a pagar swaps, and the list goes on.
      Essa conversa que andamos a pagar “as conquistas do passado” já faz impressão por toda a gente saber que é um conjunto de falsidades

      • JgMenos says:

        Falsidades ou não, entram nas contas.
        Mas lembro-lhe só a conquista da lei das rendas que causou a miséria que por aí vai…

      • De says:

        Falsidades?
        Entram nas contas?
        Porque motivo temos que pagar as contas dos amigos e dos torcionários que Menos defende?
        Porque motivo temos que pagar os efeitos da governação da canalhada de direita e de extrema-direita, serva fiel dos seus interesses? Dos donos de portugal que se perpetuaram desde o fascismo?

        Rendas? As rendas de que Menos fala são as rendas de que o sujeito vive?

    • De says:

      A preocupação de Menos com a eficácia da mensagem é absolutamente comovedora.
      A hipocrisia tem destas coisas.Serve-se desta aparente falta de verticalidade para tentar fazer passar de facto a mensagem que Menos quer de facto passar.Já la vamos.

      De uma penada Menos tenta absolver o capitalismo germânico e as suas alianças multinacionais.
      “Esquece-se” que a troika teve um capacho (mas também um bom aliado) nas hostes da direta e da extrema-direita portuguesa.”Esquece-se” que as conquistas de que fala são as conquistas do capital e que este não tem pátria.”Esquece-se que também o povo alemão tem sido explorado e que os grandes beneficiários com a presente situação são os mais ricos e os mais poderosos.
      Mas “esquece-se” ou quer-nos fazer esquecer outra coisa:
      É que esta medida resulta dum pacto entre a direita e a “social-democracia” alemã.É a moeda de troca da primeira face à segunda.”Como o recente acordo político entre a direita e a social-democracia na Alemanha (que inclui questões concretas em torno de assuntos europeus) indicia, os responsáveis pelo processo de integração capitalista estão de acordo em, não só manter este rumo – que é em si factor de desenvolvimento de novos episódios de crise – como, em o aprofundar, por via de novas medidas de concentração e centralização do poder económico e político, de carácter profundamente anti-democrático e anti-social.”

      Eis o busilis.Menos mascara o real significado de tal facto por parte de merkel.Enquanto retoma a sua palavra de ordem trauliteira e extremista de estarmos a pagar “as conquistas do passado”.
      Repare-se que o 25 de Abril foi há quase 40 anos.A governação de esquerda resumiu-se a cerca de ano e meio.Pois repare-se no ódio troglodita de Menos aos “abrileiros” (como gosta de dizer) e a sua tentativa de esconder a responsabilidade da governação da direita no nosso país..Mais o seu propósito de tentar apagar os anos do fascismo concreto em Portugal.

      Mais só uma nota.Menos dirá que “as ‘conquistas’ de uns são normalmente a ‘penalização’ de outros.”
      Pois este é exactamente o mesmo fulano que aqui há dias se regozijava com o facto de 85 pessoas terem exactamente o mesmo que a metade mais pobre de toda a humanidade.Aqui o princípio dos vasos comunicantes não funcionava

    • De says:

      Cara Maria:
      Colocou o dedo na ferida.
      A “eficiência e as contas prudentes” de Menos são também um conjunto de falsidades com que este tenta esconder os métodos de trabalho do capital.

      Por exemplo ficámos a saber da insuspeita Bloomberg que as vigarices da banca de merkel vão ainda mais longe do que suspeitávamos.De acordo com os resultados da sua investigação , o Deutsche Bank tinha escondido 395.500.000.000 € de empréstimos que não aparecem no balanço , o que representaria 19% do valor dos ativos que estão matriculados .
      http://foicebook.blogspot.pt/2014/01/o-deutsch-bank-da-merkel.html#links

      É o capitalismo.E andamos nós a pagar e a cobrir as negociatas destes criminosos.Enquanto os seus serventuários defendem que,falsidades ou não,entram nas contas.

      Até quando?

  2. miguel serras pereira says:

    Ora bem, Tiago, o que se passa é que uma integração orçamental, fiscal e política da Europa impediria as disparidades do tipo apontado neste post. Claro, que essa integração não é pensável nem praticável sem “transferências de soberania” à custa do “Estado-nação”. Mas não parece que este seja mais viável, ou sobretudo abra mais perspectivas de democratização (conquista de direitos de participação governante, políticas de igualização dos rendimentos, avanços no plano da gestão democrática das empresas e do trabalho, etc.), do que o eventual reforço das diferentes soberanias actuais, quadro que é condição justamente da supremacia de certos Estados-nação à custa das periferias. Isto, deixando de parte o fundamental: só será possível avançar na democratização efectiva das sociedades europeias, quando se compreender e praticar que, nessa perspectiva, os interesses comuns dos diferentes cidadãos comuns da Europa prevalecem sobre os interesses nacionais.

    msp

    • Tiago Mota Saraiva says:

      Miguel, convenhamos que esse não é o caminho dos federalistas e/ou defensores do euro. Ou seja, eu gostava muito de ter os meus livros organizados, mas não espero que seja o sapateiro da minha rua que o faça. Seria bom, poupava-me tempo e trabalho, mas não me parece que possa suceder.

      • miguel serras pereira says:

        Tiago,
        estou muito longe de algumas posições de Balibar, e tenho uma visão da actual UE talvez ainda mais desencantada do que a dele. No entanto, para a questão que este post aborda e sobre as respostas às ameaças que assinala, creio que estas declarações do referido autor, entrevistado pelo Nuno Ramos de Almeida são esclarecedoras:

        “[NRA] Uma coisa que parece clara nesta crise é que não temos sequer uma democracia regional europeia, temos espaços democráticos nacionais e espaços de decisão à escala da União Europeia que não são democráticos. Há quem diga que é necessário regressar à soberania popular e democrática e que isso só é possível no quadro do Estado-nação.

        [EB] Eu estou entre aqueles, e posso até estar enganado, que pensam que as condições de exercício da soberania popular hoje em dia como poder real não existem nos Estados-nação. Não existe porque o problema da democracia é em primeiro lugar um problema de contrapoder, controlo efectivo pelo povo e pelos seus representantes dos poderes que condicionam a nossa vida. Esses poderes são políticos e económicos. Desse ponto de vista a União Europeia é muito representativa disto, em que há cada vez menos separação real entre o poder político e o poder económico. Se queremos controlar de uma forma eficaz os poderes políticos e económicos dos quais dependemos: financeiro, monetário, etc., é necessário que o povo se exprima ao nível a que esses poderes existem, e eu não penso que eles actuem no quadro da nação.

        [NRA] Não é mais fácil fazer regressar ao quadro nacional os instrumentos de controlo da economia do que conseguir que a democracia se alargue ao espaço europeu?

        [EB] Não estou de acordo, acho que as nações europeias em termos individuais, não só a Grécia e Portugal mas mesmo a Itália e a França, serão várias vezes mais fracas perante os mercados financeiros globais do que é a própria UE. O problema é que estamos na merda e numa situação impossível: a UE não funciona como meio de controlo, de resistência ou de contrapoder aos mercados financeiros. Pelo contrário, ela fixou como objectivo eliminar todos os obstáculos ao reino desses mesmos mercados. Desse ponto de vista não serve para nada às classes populares, porque colabora nessa mesma rapina. Mas não esqueçamos, por outro lado, que foi também desta maneira que os Estados-nação funcionaram no passado. A equivalência entra soberania popular e Estado-nação é uma questão muito conjuntural, não tenho nenhuma confiança no Estado-nação para ser defensor da democracia em face do capitalismo financeiro, em comparação com o que é hoje em dia o papel da própria União Europeia” (http://www.ionline.pt/artigos/liv/balibar-se-europa-continua-assim-explode).

        Em suma (concluo eu): se desmantelar o Estado-nação não é necessariamente fazer avançar a democratização, ele é, contudo, um obstáculo e um travão para a tarefa de impormos relações de poder alternativas na organização política e económica (a começar pelas formas de acção nesses campos), ao mesmo tempo que a “soberania nacional” é uma nuvem de fumo tóxico, que começa por não nos deixar ver claro e acaba, se lho consentirmos, por impedir de respiração e movimento a afirmação igualitária da liberdade.

        msp

        msp

  3. Não se podem comparar os fascismos do século XX, pois não são de todo iguais. E só era mais visível as mortes, miséria e tudo mais porque tinham uma crueldade visível, para além disso houve a 2ª Guerra Mundial. Há coisas que não são comparáveis. Sabes quantas pessoas morrem esquecidas em casa por falta de dinheiro para comida, pessoas que morrem por falta de assistência média, suicídios? Os número não devem ser assim tão baixos. Estão é escondidos.

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