Carta aos professores portugueses

Manif Professores Porto 3 

Caros colegas, sou professor de biologia e tenho 36 anos. Um mês depois de ter sido pai pela primeira vez (Setembro de 2012), fiquei desempregado – até agora. Como a maioria dos professores e educadores, já leccionei em vários concelhos do país (Montemor-o-Velho, Oliveira do Hospital, Serpa, Cascais, Lisboa e Oeiras). Em algumas das escolas foi apenas com horário incompleto, inclusivamente trabalhando a centenas de quilómetros de casa, a ganhar 363 euros… cheguei a ter que pedir ajuda aos meus pais para (imagine-se…) poder trabalhar!

Os meus pais também são professores e se a minha geração é varrida das escolas para o desemprego/precariedade, levando à emigração ou à depressão de muitos, a geração deles é obrigada a trabalhar cada vez mais anos, muitas vezes já em esforço após décadas de dedicação. Uma autêntica gestão criminosa de recursos humanos por parte do Ministério da Educação, desperdiçando a geração mais bem formada de sempre e sobrecarregando de trabalho a anterior.

A Escola Pública tem sido atacada por violentas políticas que nos últimos anos impuseram, por exemplo, reformas curriculares injustas, Mega-agrupamentos desumanizados (com milhares de alunos), aumento do número de alunos por turma e cada vez mais burocracia, que desvia as energias do que devia ser a prioridade de um bom professor: ensinar com qualidade os seus alunos. Neste momento vivemos momentos sem precedentes na Escola Pública e no nosso país, onde até já há falta de apoio condigno às crianças com necessidades educativas especiais.

O governo justifica a actual situação na Escola Pública e no país com a falta de recursos financeiros, mas isso contrasta com os milhões dados pelo Estado aos colégios privados ou com o assumir das dívidas de milhões de euros a “amigos”. Em contrapartida não assume refeições diárias condignas às nossas crianças, que cada vez mais chegam à escola com fome…

O ataque à Escola Pública não podia deixar de estar associado a uma tentativa de desvalorização da imagem social dos professores, culminando com a actual chamada prova de avaliação de conhecimentos e competências (PACC).

Hoje, o ministro Crato diz que esta (abjecta) prova é apenas para os professores contratados, mas se ele conseguir impor esta prova a uma parte da nossa classe, o que nos garante que (depois de divididos) não tentará aplicar prova semelhante aos professores do quadro? Sobretudo quando se sabe que um relatório do FMI de Janeiro de 2013 recomendou ao governo português uma prova semelhante para colocar 14 mil professores na mobilidade especial.

Neste momento o governo (e o seu Ministério da Educação) está completamente submisso aos ditames externos que nos impõem juros agiotas, para gáudio de grandes banqueiros, em contraste com a miséria crescente do nosso povo.

Neste 1º de dezembro, onde há 373 anos, conseguimos reconquistar a nossa independência face a Castela, apelo a que nos voltemos a erguer e a reconquistar a nossa dignidade de ser professores. Independentemente de ser professor do quadro, de ser contratado (com contrato ou desempregado, que se inscreveu ou não nesta prova) na próxima quinta-feira, dia 5 de Dezembro, irá a votação no Parlamento a PACC e tal não podemos tolerar sem uma demonstração inequívoca de força e combatividade! Há pré-aviso de greve para dia 5 e autocarros disponíveis pelos sindicatos (para sindicalizados e não sindicalizados). Se lá dentro (parlamento) se vai decidir sobre o futuro da nossa dignidade profissional, façamos um enorme cordão humano à volta do Parlamento contra esta prova e pela Escola Pública:

https://www.facebook.com/events/1411138615789943/1411138619123276/?notif_t=like

Perante ataques sem precedentes à Escola Pública não bastam as formas tradicionais de luta! ESTA QUINTA, TODOS RUMO A LISBOA!

Coimbra, 1 de Dezembro de 2013

André Pestana

Pré-aviso de greve e autocarros para 5 de Dezembro: http://www.fenprof.pt/?aba=27&mid=115&cat=284&doc=8031

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4 Responses to Carta aos professores portugueses

  1. EDUARDO says:

    POR ESTAS E POR OUTRAS E QUE OS PROFESSORES TEM QUE FAZER EXAMES: A SENHORA DIZ QUE OS JUROS SÃO AGIOTAS (OS JUROS DO EMPRESTIMO DE 78 MIL MILHÕES SÃO DE 1,5%, ISTO E AGIOTAGEM???????????) MAIS UMA IDEIA ERRADA E QUE EM 1640 HAVIA SO UM PAIS E NAO 2, TINHAM ISSO SIM O MESMO REI (ALEM DO MAIS A REVOLTA FOI FEITA POR BURGUESES QUE PERDERAM DIREITOS E IAM PAGAR MAIS IMPOSTOS….UMA PROFESSORA QUE ESCREVE E DA NOTICIAS ERRADAS O QUE NAO FARA NAS AULAS???

    • pestanandre says:

      Caro Eduardo, não apenas disse como reafirmo: os juros da dívida portuguesa são agiotas (como se pode ver neste artigo recente: http://www.jornaldenegocios.pt/mercados/detalhe/juros_da_divida_portuguesa_deslizam_e_fecham_nos_58.html). E são agiotas, porque o Banco Central Europeu empresta a cerca de 1% aos banqueiros privados que depois podem comprar dívida portuguesa (que rende 5% ou mais). Ou seja, sem trabalho nenhum os banqueiros ganham mais de 4% de juros sobre milhões de euros… Quem paga esses mega-lucros? Os nossos empregos, salários, direitos e a nossa Escola, Saúde e segurança social Pública. Sobre a questão de 1640, pareceu-me que defende que devíamos ter continuado sob o poder de Castela, certo? p.s André é um nome masculino 😉

  2. Maria Gabriela says:

    Este ministro incompetente ( como os outros todos…) acabou com a desgraçada prova para os contratados com 5 ou mais anos de serviço…. Tudo óptimo mas, será que ele ou os conselheiros do reino não tinham já chegado a essa conclusão???? Eu também fui e sou( nunca deixamos de o ser) Professora durante muitos anos. Estou reformado com uma pensão “miserável”, comparada com os descontos e o que outros colegas auferem, embora com menos tempo de serviço e de descontos, apenas porque “tinham mais idade”……
    Espero e desejo que todos os colegas encontrem colocação o mais brevemente possível.
    Um abraço solidário,
    Gabriela Soares

  3. Nós como leitores, também podemos e devemos discordar, dar as nossas opinões, e mesmo informar de erros ou de coisas que podem ficar melhores. Digo eu. Ora vejamos quando vossa excelência fala em Mega-agrupamentos desumanizados, assim que eles formaram os agrupamentos, foi logo para criar a balbúrdia, e os mega-agrupamentos e desumanizar, É por serem mega-agrupamentos, isso logo nunca iria funcionar, nem os agrupamentos, e a contretização disso foi e é pra destruir tudo da escola pública.

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