A guerra de posição e a FCT

Os concursos FCT mostram, de forma microscópica, um dado cada vez mais claro: à esquerda, estamos a perder a guerra de posição. Estamos à defesa e continuaremos à defesa. O desinvestimento na ciência tem pouco de cego: o colectivo intelectual neoliberal procura, como estratégia única na guerra de posição, minar todas as formações passíveis de criar atrito e conflito pela legitimidade política e hegemonia cultural. As declarações de Bruno Maçães na Grécia mostram bem que o colectivo intelectual neoliberal não é vazio de ideologia e as suas fontes intelectuais e institucionais são claras. Um dia, o papel da Universidade Católica e do Instituto de Estudos Políticos será mais claro; por ora, só podemos aludir à impressão de que o posicionamento estratégico de intelectuais hegemónicos advém do posicionamento de instituições produturas de conhecimento específicas, como o IEP, o ISEG e a NOVA – SBE, que destruíram a pluralidade em instituições como o gabinete de estudos económicos do Banco de Portugal e usam a sua posição hegemónica para pressionar outras instituições, mais resistentes à hegemonia, à conformização com o paradigma do capitalismo cognitivo e da ciência mercadorizada.

Os concursos FCT mostram uma nova forma de combater: agora, além de se precarizar a produção de ciência, procura determinar-se o tipo de conhecimento produzido. Estes concursos mostram que o aparato estatal repressivo está a entrar numa fase posterior àquela que ainda vamos tentando observar.

A solução parece clara: recusar a cultura do teste e da avaliação de desempenho; constituir uma frente de contestação que congregue catedráticas, associados, pós-docs, bolseiros de investigação, etc. em torno de uma agenda progressista para a universidade, que recuse a empresarialização da FCT, da universidade e dos departamentos; exigir a democratização das estruturas de gestão da universidade e da vida universitária.

 

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14 Responses to A guerra de posição e a FCT

  1. JgMenos says:

    Bons tempos em que os Estados, a par de bobos da corte, tinham lugar para os Merlin deste mundo!
    Pois não querem ver que o candidato a cientista ou a sábio já não é livre de conduzir seus experimentos e locubrações e vão antecipadamente querer-lhe que faça prova sua utilidade social do seu projecto, ou até se «procura determinar-se o tipo de conhecimento produzido»?
    Pior, é imposto « o paradigma do capitalismo cognitivo e da ciência mercadorizada»! Por este caminho acabam por impedir que longamente se elabore sobre a sociedade futura, socialista sem dúvida, comunista desejávelmente.
    Como aceitar tal coisa?
    Será só o orçamento? Ou sendo a sociedade capitalista, só sobre ela querem investir?
    Interrogações dramáticas…

    • Luís Bernardo says:

      “experimentos e locubrações”? Experimente escrever em português.

    • Gambino says:

      Provavelmente não faz a mínima ideia da quantidade de objectos e ferramentas do quotidiano que habitaram durante décadas as catacumbas das universidades e só numa fase bastante avançada entraram na economia capitalista.
      Uma delas é precisamente a Internet, que é o fruto de diversas teorias, técnicas e ferramentas desenvolvidas no âmbito da Academia e só lateralmente aplicadas a sistemas de defesa. O computador pessoal só entrou verdadeiramente na economia capitalista em finais dos anos 70.
      O problema dos liberais portugueses não é serem liberais ou sequer idiotas. É o facto de serem absolutamente ignorantes.

    • Haverá certamente pessoas que – se calhar – já se contentavam com que os governantes do Estado capitalista tivessem a honestidade intelectual de não dificultar (para não dizer interditar…) a investigação sobre a lógica e os mecanismos do seu próprio funcionamento.

      • JgMenos says:

        Estou de acordo que isso é um grave mal.
        Pior, há até uma tendência para que muita gente superiormente inteligente prefira dedicar-se a reciclar sistemas falidos por lhes advinharem futuros radiosos, no que julgo convergirem dois males:
        horror ao experimento e gosto pela elucubração

    • Carlos Carapeto says:

      Resumindo; concluimos pela raiva que o Menorzinho mostra por a coisa publica , os trabalhadores sem exceção são uma cambada de parasitas que não produzem a não ser debaixo do chicote. E nada ao contrário?

      Explicando melhor, o homem não é motivado realmente por nada além dos seus interesses individuais, é esse desejo de poder que regula as relações entre individuo e sociedade. E os que não se regem por estes principios são uns inaptos.
      As outras ambições “cultura, familia, lazer, etc” portanto são as suas consequências, e que apenas devem estar ao alcance dos mais “capacitados”..

      E porque razão não se põe ele ao nivel de Einstein?

      Conhecemos perfeitamente os resultados dessa ideologia.

      Essa ideologia faz com que 1/6 dos Americanos vivam no limiar da pobreza, 36 milhões se alimentem com cartões de racionamente, 12/15 milhões de imigrantes trabalhem sem quaisquer direitos, 50% de Bulgaros e Romenos vivam na miséria, Mais de 30 milhões de Russos ganhem menos de 2€ por dia, excluidos de qualquer assistencia social, e metade da população Moldava tivesse que emigrar.

      Essa politica altamente benéfica para uma minoria (- 1%) e desastrosa para quem trabalha e produz riqueza tem mostrado nos ultimos anos que interesses que serve.

      • JgMenos says:

        Carapeto, muito me impressiona esse arcar com os males do mundo com que se tortura!
        Se eu visse os adversários do capitalismo a lutar por uma cultura de frugalidade, a enaltecer os valores da família e do seu papel na educação dos filhos, a desacreditar novelas e reality shows de promoção da bestialidade e da sacanagem, ainda me comoveria.
        Mas só vejo falar dos males do capitalismo para lhe requerer meios para usufruir do que ele produz!
        Mas no caso nem disso se trata, é matéria de simples estupidez: Um país pobre e sem tecido económico modernizado, é aposta séria inundar de gente as catacumbas universitárias à espera de que produzam um qualquer milagre?
        Num ponto tem o Carapeto razão; fazer de tudo que são ambições e necessidades individuais matéria de Coisa Pública, tem o meu ódio – por ilegítimo, irracional e condenado ao fracasso.

      • Carlos Carapeto says:

        A diferença entre um palhaço e um demagogo.
        O palhaço exerce um profissão nobre, respeitável , as piadas que diz têm por fim divertir as pessoas em particular as crianças.
        O demagogo é um ser desprezível , insociável, que faz da mentira o seu modo de vida.
        Se os gracejos do Menos em vez de divertir, irritam, é certo que nada tem a ver com os palhaços.
        Por outro lado é useiro e vezeiro em fazer uso da demagogia para tentar impor os seus pontos de vista.

        Senão veja-se; “Se eu visse os adversários do capitalismo a lutar por uma cultura de frugalidade, a enaltecer os valores da família e do seu papel na educação dos filhos”.

        O que tem feito este governo nesse sentido? Destruir ! Não o incomoda?

        Em que parte do mundo o sistema politico que defende já implementou estes princípios tornando-os acessíveis à maioria dos cidadãos, a não ser num outro caso pontual?

        Houve quem os tivesse posto em prática gratuitamente, com excelentes resultados, mas não foi o sistema capitalista .

        “Um país pobre e sem tecido económico modernizado, é aposta séria inundar de gente as catacumbas universitárias à espera de que produzam um qualquer milagre”.

        Esta “pérola” merece o nobel da demagogia.

        1º—- Se o país é pobre, foi porque o empobreceram, mas não foi a esquerda e ainda muito menos os trabalhadores. E quais são as riquezas naturais que o Japão dispõe

        2º— Mas não diziam que a enxurrada de fundos da CEE se destinava a modernizar a economia para a tornar competitiva? Para onde foi esse dinheiro? Para os trabalhadores de certeza que não!

        3º—– Portanto é um erro o país apostar na educação dos jovens? A saúde, o desporto, a cultura, o lazer também são mariquices que só dão prejuízo !
        Salazar era da mesma opinião.

        Qual o país que conseguiu desenvolver-se com analfabetos ou profissionais pouco qualificados?

        Será que os países nórdicos estão mais desenvolvidos por a população ser na sua maioria dolicocéfala ?
        Ou será porque nos finais do século XIX a taxa de alfabetização já era superior a 90% enquanto em Portugal era precisamente o inverso?

        Deixe-se mas é de divagações e responda às questões sobre as misérias do capitalismo que lhe coloquei no comentário anterior.

        Não sou eu nem a minha classe que temos que arcar com a imoralidade do sistema capitalista,e a tortura que refere sentem-na as vitimas do sistema inumano com que se identifica.

        O Menos é que se devia envergonhar da miséria e exclusão resultantes da voragem de lucro do sacrossanto capitalismo, que flagela mais de 1/3 da humanidade.

        Morrem mais crianças anualmente vitimas da fome e suas causas que as mortes anuais provocadas por a guerra 1939/1945.

      • JgMenos says:

        Fica difícil argumentar seriamente quando o tema é tudo e mais alguma coisa.
        Como resistir a abrandar o rigor da análise da razão de ser «aposta séria inundar de gente as catacumbas universitárias » perante a visão de crianças esfomeadas na Etiópia, ou pela necessidade de integrar a análise do sec. XIX português e norte europeu?
        Mas tudo se clarifica, e cai o sossego sobre as almas simples, se tudo se reduzir à ecuménica abrangencia das “misérias do capitalismo”.
        E demagogia é isso; é tudo ser reduzido a pouco; é resolver um problema com outra questão qualquer; é misturar séculos, culturas e doutrinas num reducionismo oportunista que invalida qualquer argumento pelo facto de – fora das matérias da Fé com seus dogmas- inexistirem argumentos que tudo abrangam.
        Aparentemente propõe-me que discuta estatísticas? Não obrigado! São o resultado de inúmeros factores, outros tantos problemas; cada um por si pode interessar-me.
        Se quer discutir sistemas políticos, então parece-me bem que comece por comparar as respectivas estatísticas.

      • Luís Bernardo says:

        Fica difícil argumentar seriamente quando elucubra sobre tudo e mais alguma coisa. O Carlos Carapeto colocou-lhe questões relevantes, apesar de se ter referido a umas quaisquer catacumbas universitárias. Veja estas estatísticas e pense um pouco na expressão “catacumbas”: http://www.dgeec.mec.pt/np4/210/

        A ciência portuguesa é um dos poucos sectores de desenvolvimento exponencial a baixo custo – quase sempre à custa de mão-de-obra gratuita e precária.

        Como não pretende debater a ponta de um corno, continue para aí a elucubrar. Os dados explicam aquilo que não pretende debater.

  2. Gambino says:

    Infelizmente, a tendência da FCT para a hegemonia das metodologias da chamada Hard Science já não vem de agora e parece ser uma directiva europeia. O número de projectos apoiados no âmbito das artes é quase residual e as ciências humanas estão a ser obrigadas a aplicar metodologias quantitativas em temas em que estas são inúteis, irrelevantes ou mesmo perniciosas.
    É a lógica do financeiro e do engenheiro que está a prevalecer. Para eles, a ciência só faz sentido quando faz protótipos prontos a serem utilizados por empresas ou quando produz investigações que sustentem teses neoliberais.

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