O negócio da fome

Nas Vinhas da Ira, em plena crise de 29, deitavam-se laranjas pela borda dos camiões que circulavam rodeados de famintos. No Brasil queimou-se café em locomotivas – tudo para garantir a rentabilidade do negócio então, deflaccionada pelas crises cíclicas que são a marca genética do capitalismo. São crises de excesso e não de escassez. Mas não são crises por falta de gente com fome, com vontade de comer, com vontade de trabalhar. Quem participou activamente na campanha contra a fome da Etiópia – we are the world… – não sabia, certamente, que estava a ajudar a criar um campanha de escoamento dos excedentes das grandes companhias de produção alimentar que, ao serem doados à Etiópia, significam a falência generalizada de agricultores locais, incapazes de concorrer com os preços subsidiados. Aconselho sobre o tema esta entrevista a Fernando Nobre, de que cito esta parte: «As instituições humanitárias muitas vezes estão armadilhadas, sobretudo quando beneficiam de financiamentos de grandes aglomerados internacionais – refiro-me à União Europeia. A União Europeia até há bem pouco tempo exigia que os alimentos que iam para as ajudas humanitárias fossem comprados no mercado europeu. Isso era uma maneira de escoarmos excedentes, fossem viaturas, fossem medicamentos».

Eu sei que o tema não é popular mas é grave, porque vontade de ajudar muitos de nós temos e ainda bem. A fome neste país tornou-se um problema que nos horroriza, mas nem tudo o que parece é.  Escrevemos sobre as razões da fome aqui. Quero porém hoje lembrar outro artigo, este excelente,  escrito por Paulo Pedroso sobre o Banco Alimentar. Escoar excedentes significa manter os preços dos alimentos altos, ou seja, estes alimentos são escoados sob a forma de solidariedade para evitar que o seu preço caia: «O que comanda a sua actividade (do Banco Alimentar) é a oferta (a disponibilidade) e não a procura (a necessidade) (…) Em 2011 as campanhas de recolha em supermercados contribuiram apenas com 10% do valor dos produtos recolhidos pelo Banco Alimentar de Lisboa. A indústria agro-alimentar, reciclando os seus excedentes, doou 43%. A reciclagem de excedentes da UE contribuiu com 22%. O Mercado Abastecedor da Região de Lisboa (de novo, os excedentes) doou  11%. As retiradas de fruta pelo IFAP (ainda os excedentes)  renderam 6%. Ou seja, ao todo, o escoamento de excedentes correspondeu a 82% do valor dos produtos distribuídos» (Paulo Pedroso).

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12 Responses to O negócio da fome

  1. Adélia says:

    Então significa que somos uns burros por ser-mos solidários, pois não estamos a ajudar os que realmente necessitam? Estamos sempre a tempo de abrir os olhos!

    • abel says:

      significa que precisamos de políticas de segurança social em vez de assistencialismo. significa que precisamos de RSI em vez de “sopas dos pobres”, significa que precisamos de dar dignidade às pessoas em vez de os deixar a mendigar excedentes.

  2. Num outro contexto – mas relacionado com estas coisas da «ajuda» – houve já um analista queniano que um dia, dirigindo-se aos governantes do «mundo ocidental», escreveu «por favor, deixem de nos ajudar»…

  3. Luis Moreira says:

    Quem tem fome está profundamente preocupado que os alimentos e com o seu preço. Aliás, o escoamento a que a Raquel se refere pode ser feito deitando os alimentos para o lixo. Ou o preço assim não se mantém alto?

  4. Fritz Jones says:

    Outra vez…
    Exemplo: num espaço de 1 m * 1 m semea-se um pé de batata cada 30 cm. Arredondamento de uma matriz de 9 pés, mais o menos. Os nutrientes utilizados para crescer esas plantas são INVARIAVELMENTE os NPK e outros micronutrientes. Os NPK têm duas origens. Orgânica e de minas. N(azoto) existe em abundância no ar, mas o P(fosforo) e K(potássio) são recursos “finitos” assim como outros nutrientes como magnésio, cálcio, etc. Ou seja, ou são mantidos no “topsoil” para evitar erosão e desertificação, ou o terreno não produz mais enquanto esses recursos não são repostos..
    Exportar e mandar estes recursos na forma de comida para cidades “parasitárias” ou enviar a milhares de Km cria INVARIAVELMENTE a exaustão IRREVERSÍVEL do solo. Este modelo só funciona enquanto há minas, e nos últimos dois séculos de Revolução Industrial o “topsoil” foi de 3 metros de espessor a uns escassos 20 cm.
    Os NPK perdem-se no mar num processo exactamente igual ao que criou petróleo á 100 milhões de anos. Grandes marés de algas visíveis do espaço.que depois de matar toda a fauna e flora marítima por hipoxia. Resultado: fome e extinção massiva ao estilo ilha de Pascoa.
    Exportar milhares de toneladas de alimentos ainda que ajude é como por um penso num desmembramento. A única solução é manter o mais estável o ciclo dos nutrientes. NPK.

  5. “Escoar excedentes significa manter os preços dos alimentos altos, ou seja, estes alimentos são escoados sob a forma de solidariedade para evitar que o seu preço caia”

    Esta afirmação não faz qualquer sentido porque os alimentos chegam a custo 0 a parte de dos consumidores, reduzindo assim a sua procura e o seu valor, e impedindo o aumento dos seus preços e respetivas margens de lucro. Dar o produto a consumidores (o que equivale a vendê-lo a preço 0) nunca aumenta o preço do produto. Caso isto não acontecesse, aí sim, estes consumidores ou as organizações que lhes fornecem alimentos teriam de os ir comprar, algo que beneficiaria a indústria da distribuição por aumento da procura e consequente aumento de preços.

    Talvez valesse a pena a Raquel Varela sair da frente do computador e ir ver o que se passa no Banco Alimentar e nas Instituições apoiadas por ele. Talvez, como eu, visse as caixas com centenas de ovos Kinder prestes a expirar que são entregues “para caridade” e percebesse que o que a grande distribuição faz é simplesmente pegar em produtos cujo valor comercial é quase nulo (porque são virtualmente impossíveis de vender) e, em vez de os destruir, entrega-os ao Banco Alimentar que rapidamente os distribuiu pela rede de Instituições que apoia. Não é nenhuma tentativa de inflacionar preços nem nenhum enorme gesto de caridade da indústria. Às vezes a realidade fica-se pelo meio, veja lá. As campanhas de recolha do Banco Alimentar nos supermercados destinam-se a angariar produtos com durabilidade longa, esses sim com valor comercial, que não são doados pela indústria da distribuição (ah pois, era bom era).

  6. José Luís Moreira dos Santos says:

    Este post coloca-me, sim à minha consciência, a mim, diante de tantas e tão complicadas interrogações que resolvi fazer uma coisa que detesto: ser pragmático. Podem todos fazer as analises e discursos que fizerem, mas só estou disposto a ouvir quem defenda que está no modo de produção capitalista a razão, única, desta podridão humana. Quem diz bonito e bem, quer dizer, com dados exatos, mas sem invocar a causa, a mim nada dirá. Porquê? Porque sobre um mal não se chora, melhor será cortar o mal pela raiz. Eh pá, não estou preparado para essa parte, costuma dizer um conhecido meu a propósito de outro assunto, mas de igual exigência.
    José Luís Moreira dos Santos

  7. MIGUEL LOPES says:

    BOM ARTIGO PARA DESPERTAR CONSCIÊNCIAS

  8. JgMenos says:

    «Escoar excedentes significa manter os preços dos alimentos altos»
    E se forem baixos não pagam salários e não mantêm as empresas a trabalhar…
    Os ajustamentos sempre ocorrem em qualquer sistema de produção o que significa que nenhum garante a perfeição.
    Mas fácil mesmo é enumerar defeitos sem ter que assegurar solução alguma!
    PS: os excedentes da CEE são maioritáriamente resultantes de se manterem ajudas à produção para satisfação de dois interesses: manter capacidade de produção em sectores com interesse estratégico (deixar de produzir leite é não ter vacas e consequentemente não ter carne de vaca ..nem de boi!); garantir rendimentos a algumas classes socio-profissionais,
    Esta última razão é a principal responsável pelos excedentes colocados na exportação e na ajuda externa, destruindo nos destinos a economia local (frangos, acúcar de beterraba,…).
    SÓ QUE, há sempre eleições para ganhar, empregos a manter, direitos adquiridos,….o costume, e SEMPRE se traduz na acção do ESTADO na economia. .

  9. Melo says:

    Solidariedade? A Tia terá que ser investigada para se saber de onde vem e para onde vai e qual os objetivos da sua caridade. Façam amanhã 2ª Feira uma visita á matinha um dos armazéns onde se aglomeram os donativos e vejam ao vivo para onde vai uma parte. Carros particular a encher o porta bagagem com os melhores produtos. e de manhã não dispensem uma ida a Alcântara para verem as carrinhas de lares que levam no mínimo 600 € para um idoso

  10. José Francisco Martinho says:

    Vale mais tarde que nunca;eu já sabia.

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