Duas leituras de Álvaro Cunhal sobre o 25 de Novembro

O PCP teve duas leituras opostas sobre o significado do golpe de 25 de Novembro, cujo aniversário assistimos ontem. Recordei num artigo que Cunhal, numa obra referenciada sua, considera, em 1999, o 25 de Novembro um «golpe contra-revolucionário» onde o PS teria um papel central, mas em 1975 e 1976 considera o mesmo golpe um «sublevação militar» precipitada por sectores da esquerda militar, que se teriam recusado a dialogar com o Grupo dos 9, sublevação que, ao ser derrotada, permitiria ao PCP refazer a relação de forças com o mesmo Grupo dos 9.

Não me é claro a razão da mudança radical de tal interpretação: Ângelo Novo considera que tal se deve à queda do Muro, outros sugerem as crises politicas dentro do Partido, a erosão da força dentro da concertação social. Cunhal justifica a interpretação de 99 com os «novos testemunhos» que vieram à baila. Fica aqui um artigo com a análise destes dois Novembros, em tempos de reflexão sobre revolução e democracia. Artigo completo aqui Cunhal 25 de Novembro

Publicado com nota, originalmente, aqui http://raquelcardeiravarela.wordpress.com/2013/11/26/duas-leituras-de-alvaro-cunhal-sobre-o-25-de-novembro/

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9 Responses to Duas leituras de Álvaro Cunhal sobre o 25 de Novembro

  1. Tiago says:

    Cara Raquel, hoje houve uma manifestação em Lisboa, 4 ministérios foram ocupados, e não há uma alma caridosa num blog de esquerda que fale sobre isso?

  2. um anarco-ciclista says:

    na madrugada do dia 25 de novembro, Otelo, o chefe da “esquerdamilitar”, comandante do COPCON foi para casa dormir…

  3. proletkult says:

    “em 1975 e 1976 considera o mesmo golpe um «sublevação militar» precipitada por sectores da esquerda militar, que se teriam recusado a dialogar com o Grupo dos 9, sublevação que, ao ser derrotada, permitiria ao PCP refazer a relação de forças com o mesmo Grupo dos 9.”

    Sempre os “esquerdistas”. Mas, trocando por miúdos, esta primeira posição de Cunhal acaba por ser uma de apoio ao golpe. O que não surpreende. E é pena que o teor da sua conversa com o Melo Antunes, dias antes, nunca tenha sido conhecido.

  4. um anarco-ciclista says:

    vocês têm uma fixação qualquer com o Cunhal e o tema do “esquerdismo”… Quando o chefe da “esquerda militar” vai para casa dormir na madrugada de 25 de Novembro, estamos mais do que conversados!

  5. João says:

    Raquel, talvez não conheça um blogue chamado “O tempo das cerejas 2”. Lá está escrito e aparentemente demonstrado, que muitas das suas afirmações sobre o papel do PCP e as suas posições no 25 de Novembro, carecem de qualquer apoio em factos, traduzindo-se antes em deduções abusivas (porque não suportadas em qualquer elemento) e em consequentes especulações. Fico, por sinal, curioso para ver as suas explicações. Até que elas surjam, vou manter-me de pé atrás em relação ao que diz e escreve sobre este tema.
    Ah! E já agora, se não publicar este comentário, também não deixarei de tirar conclusões desse facto.

  6. José Luís Moreira dos Santos says:

    Raquel,
    Independentemente das posições ideológicas de partida, importa salvaguardar que um partido que quer ter, ou defende ter tido – não é o mais importante para o efeito -, algo a dizer sobre o seu papel num dado momento de uma revolução, e foi esse o caso – e sabendo você tão melhor que eu, que por revolução se entende um período de luta acérrima entre forças opostas, pois, como já uma vez lhe disse, nunca houve, não há, nem nunca haverá revolução sem contra-revolução – haverá sempre que fazer uma avaliação à posteriori do que fez e disse a propósito. Para meu consolo, costumo ver nessa atitude uma expressão de vontade pelo maior rigor possível, o que só abona a favor de quem assim procede, mas por outras razões, vejo por aí algum grau de evolução, se positivista ou dialética, fica ao seu critério. Por isso, se passados mais de vinte anos uma análise aos factos redundasse numa repetição formal de argumentos, estaríamos diante de uma pretensiosa chachada. Erros, sejam os meus os mais imperdoáveis, e ter assistido, nesses tempos, a oratórias insultuosas por parte de um ou outro “esquerdista” em reuniões onde se discutia a vida de tantos, com paciência de CORNO, em nome de não sei bem o quê, é perdão que nem me atrevo a pedir a ninguém, mesmo a quem alguns aconselham como garantido.
    Mas também por isso, não perco pitada do que você diz e/ou faz, e que chegue ao meu conhecimento. O seu livro, é para ler e reler. Daí, às vezes, também pensar que o reescrevo enquanto o estudo.
    José Luís Moreira dos Santos

  7. Argala says:

    Vou escrever um pouco sobre o livro da Raquel, porque ainda há incrédulos.
    Eu terminei de ler o livro da Raquel há coisa de dois anos. O livro está extremamente bem documento, de fio a pavio.

    Sem urgente preocupação de desmentir a tese central do livro, tive tempo de sobra para a debater com quem viveu esses tempos, incluindo pessoas da minha esfera familiar. Depois li e ouvi, de quem não apoiava a tese central do livro, insultos, choros e amuos, como os do comentador João. Procurei alguma substância nesses comentários, mas nada. O Vítor Dias não refutou absolutamente nada de nada. Mais, ele confirmou em certa medida a tese.

    Passaram dois anos, e se eu não encontro para ler uma réplica decente à tese do livro, é porque ela não existe. E é normal que não exista. Não há forma de negar que o PCP não tinha, nem queria, um projecto revolucionário para Portugal. Por projecto revolucionário entenda-se a expropriação da burguesia e implantação do socialismo. Para o provar, basta alguma paciência para documentar a actuação do PCP durante do PREC, com base nos seus próprios documentos. E tudo junto faz uma narrativa.

    Tem que se ler o livro para se perceber isso, uma passagem não chegaria, mas eu arrisco deixar duas. Uma do jornal Avante, 13 de Novembro de 1975, a propósito das comemorações da Revolução de Outubro, e que está no livro da Raquel na página 379:

    “Isto não significa que o único caminho para o socialismo será uma insurreição. Poderá não soar o tiro do nosso Aurora nem se verificar o assalto ao nosso Palácio de Inverno. Tudo faremos para tornar possível o caminho pacífico para o socialismo. Tudo faremos para que seja explorado ao máximo de profundidade o potencial revolucionário original revelado no processo da Revolução portuguesa. Outubro significa mais que insurreição. Significa mais que tal ou tal sistema de aliança e tal ou tal estrutura de Estado. Outubro significa o dobre de finados do capitalismo e, embora sem pressas, sem precipitações, sem a impaciência de queimar etapas, sabendo avançar e sabendo recuar, tudo faremos para que esse dobre de finados acabe por soar na nossa própria Pátria.”

    Outra, do mesmo jornal, e creio que da mesma data, mas que não está no livro:

    “A Revolução democrática portuguesa avançou tanto que, sem a destruição das liberdades, sem uma nova ditadura reaccionária, a reacção não conseguiria liquidar as conquistas revolucionárias alcançadas, anular as nacionalizações e forçar a recuperação das terras pelos agrários.

    A recuperação das posições do capitalismo não é possível existindo as liberdades, porque, exercendo as liberdades, o povo português não consentirá que lhe sejam roubadas as conquistas da Revolução, Só pela violência e o terror seria possível roubá-las.”

    Pronto, agora, feita a merda e passados quase 40 anos, já sabemos que a burguesia recupera as suas posições com as “liberdades”. Com menos 70 anos de história, Lenine já sabia isto.

    Cumprimentos

  8. Armando Cerqueira says:

    Cara Raquel,
    as minhas desculpas por não ter ainda terminado a leitura o seu livro – está em meio. Ando ocupado com o meu, e com leituras mais urgentes, para terminá-lo.
    Saúdo-a de novo pela coragem de tratar esse tema – o PCP é um objecto de conhecimento. E como ele sempre defendeu – desde 1963 pelo menos… – a liberdade de opinião, as suas opiniões sobre o assunto (quaisquer que sejam) devem ser respeitadas!
    Talvez fosse interessante a Raquel cotejar o Cap II, O comemorativismo de Abril, p. 27-48, do livro “Esta democracia filofascista”, (1999), desse destemido e indomável revolucionário que é o Coronel João Varela Gomes… A que conclusão chegará?
    Um abraço de quem a estima

    Armando Cerqueira

  9. Bento says:

    Duas leituras sobre o 25 de Novembro e o PCP

    Leitura da direita- o PCP e Alvaro cunhal tentaram em 25 de Novembro um golpe para impor um regime comunista em Portugal

    Leitura dos esquerdistas – o PCP nunca quis instalar um regime socialista em Portugal e por isso abandonou os militares de esquerda no 25 de Novembro

    Denominador comum e inimigo comum – o PCP e o seu secretario geral na altura

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