Aula Magna: 25 de Novembro a 22

Ontem tivemos que assistir ao triste espectáculo da esquerda parlamentar levantar-se a aplaudir alguns dos responsáveis directos, com funções governativas de topo, do estado a que chegámos. Foi uma espécie de simbólico 25 de Novembro, realizado a 22, com os que o fizeram em 1975 e com os que não lhe resistiram. A ausência de criação de quadros à esquerda até se reflecte na idade – os líderes desta imensa frente patriótica têm em média 70 anos ou mais. Não é pela idade (tantas vezes fonte de confiança e sabedoria e também por isso devemos-lhe respeito). É porque ela reflecte uma juventude ausente e sobretudo que continuamos a ter as mesmas velhas soluções para uma história que é totalmente nova.

Quem não quer atravessar pontes, apoiado na força incontrolável das populações, tem um fantasma educado, ou seja, a saída eleitoral e o TC, para que a burguesia portuguesa mais ligada ao consumo interno recupere capacidade de voltar a acumular capital. Este medir de forças entre a burguesia, aplaudido entusiasticamente pela esquerda parlamentar – ao abrigo da ideia de «frentes populares, patrióticas» – mostra como os trabalhadores estão totalmente órfãos de partido ou organização, programa ou ideias. Dir-me-ão que o problema é que o povo é brando, fraco, e que a esquerda faz o que pode – ainda bem que na mesma hora, ali para os lados do Parlamento, se via em directo um cheirinho do 25 de abril (e saberemos em breve certamente que apoio das direcções sindicais teve aquela invasão ou se ela foi provocada pelos manifestantes). É sempre chato levar os manifestantes para a rua e depois ver que eles invadem as escadarias do Parlamento, ou levá-los para a Ponte forçando a (i)legalidade do Governo. É sempre mais seguro deixá-los a ver a Aula Magna em directo.

Se os trabalhadores portugueses confiarem neste imenso bluff temos então, aí sim, razões para emigrar e desistir. Tenho dúvidas que este cenário pessimista avance, mas ele é possível. É verdade que os trabalhadores não sabem que na Aula Magna não se está a discutir o salário ou a reforma deles mas está-se a disputar os capitais retirados ao trabalho, um gigante combate sobre se o salário deve ir para a dívida pública ou para isenções ficais a empresas «produtivas» que «criam emprego» a 432 euros líquidos. Continuo a acreditar porém no sentido prático de quem vive do trabalho. E que sem perceber nada sobre acumulação de capital, e o combate de morte que se trava entre o sector da burguesia mais ligado às exportações e o outro mais dependente do consumo interno, sabe, como provavelmente aqueles polícias, que com o que ganha não consegue ir ao médico, alimentar decentemente os filhos, chegar ao fim do mês. Há, por razões objectivas (queda real da taxa de lucro o que impossibilita a aplicação de um programa social-democrata reformista clássico, vulgo, manutenção da exploração mediada, com direitos sociais), perspectivas optimistas, e tudo indica que o realismo se vai impor a este jogo de espelhos que é a aliança entre a burocracia enquistada no Estado e o Estado que gere esta distribuição cuidadosa de rendas e misérias.

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21 Responses to Aula Magna: 25 de Novembro a 22

  1. Nuno Cardoso da Silva says:

    Raquel,
    Não sei se estiveste ontem na Aula Magna. Eu estive. Não me apetecia ir mas fui, para ver como era. Duas mil pessoas na assistência – com o ar mais classe média com alguma educação, que se possa imaginar – e onze bonzos atrás de uma mesa no palco, dos quais só me merece consideração Alfredo Bruto da Costa.

    Dos discursos, nem vale a pena falar. Banalidades, lugares comuns, irrelevâncias, tudo com ar de quem estava a descobrir a pólvora. Era assim como um “compact” dos comentadores da SIC a dizer as mesmas coisas com o mesmo ar de quem julga que é inteligente. E a civilizada assistência aplaudia muito, por vezes com assobios à mistura, quando se falava do “Presidente” – o Cavaco, entenda-se.

    Para quem tivesse ilusões, aquilo não era um encontro de potenciais revolucionários, era uma agremiação de burgueses chateados com a perda de algumas benesses. E quem esperasse que dali pudesse sair alguma coisa, rapidamente pode esquecer. Aquele era o eleitorado dos que, desde sempre, nos exploram e nos lixam a vida. São os que vão pôr o Seguro no lugar do Passos Coelho e depois, na próxima vez, vão pôr o (????????), do PSD, no lugar do Seguro.

    Para terminar, e para mostrar que era tudo gente bem comportada e avessa a qualquer suspeita de violência, não cantaram a Grândola Vila Morena e optaram por cantar o Hino, com música enlatada, muito ao género encontro da selecção nacional. Faltaram os cachecois. Saiu afinadinho, prova de que muitos frequentaram escolas onde tinham aulas de música, a par das aulas de boas maneiras e de Organização Política e Administrativa da Nação.

    Fui rapidamente para casa, mas quase com vontade de ir para a Nova Zelândia (que me dizem ser o país mais distante de Portugal…).

    • Raquel Varela says:

      Parece o cenário do apocalipse, com hino e tudo rsrsr viva a Nova Zelândia ou as escadarias do Parlamento 🙂

    • Victor Nogueira says:

      Fico sem saber que “esquerda parlamentar” ou “paralamentar” lá esteve a aplaudir e qual o “mandato” de quem a representaria.

      Quanto ao “cheirinho a 25 de Abril” que teria havido para as bandas da Assembleia da República, todos não somos demais mas é bom não esquecer qual é o papel destinado às forças de “segurança” no Estado Capitalista

      Não me parece que haja qualquer semelhança entre 1974 – antes e post 25 de Abril, com a guerra colonial – e 2013 – antes e post 25 de Novembro. – Aliás, houve vários 25 de Abril que se confrontaram uns com os outros, incluindo no MFA – e vários 25 de Novembro, no mínimo desde Jaime Neves, Galvão de Melo e Spínola passando por Melo Antunes, Vasco Lourenço e Salgueiro Maia, todos intérpretes da “pureza” do 25 de Abril.

      O mesmo “Povo” que saíu para a rua em Lisboa contra o fascismo foi em parte o mesmo – acrescido – que apoiou Mário Soares e o PS mai-la “Liberdade” e o “Socialismo em Liberdade” na Alameda e no Norte pôs tudo a ferro e fogo pra “esmagar” aquilo a que Soares chamavam “aristocracia operária” e a “Comuna de Lisboa” (e Setúbal) e contra os “roubos” na Zona da Reforma Agrária.

      No comboio da Revolução, conforme o estado da atmosfera, nos apeadeiros e nas estações intermédias entra e sai muita gente. O que não quer dizer que todos tenham o mesmo objectivo. Se o comboio chegará ao final ou se os passageiros se entenderão quanto ao objectivo final para além dos intermédios, isso já é outra conversa.

      Uma andorinha só não faz a Primavera e não é por morrer uma andorinha que – nos climas temperados – acaba a “Primavera”.

  2. Júlio says:

    Claro como a água, a chatice é mesmo o “povo ser fraco” e não vejo volta a dar, para grande tristeza minha. Viva a resistência.

  3. JgMenos says:

    Ontem viu-se povo nas escadas da Assembleia da República – irreverente mas que se dá ao respeito!
    Na Aula Magna estava a escumalha burguesa, a que a si mesma se nega enquanto abre a bolsa ao saque!

  4. Bento says:

    • Respondendo aos blanquistas, afirma Engels: “Os comunistas alemães são comunistas porque, através de todas as etapas intermediárias e de todos os compromissos criados não por eles, mas pela marcha da evolução histórica, vêem com clareza e perseguem constantemente seu objetivo final.”. Estes imaginam que “basta o seu desejo de saltar etapas intermediárias e os compromissos para que a coisa esteja feita (…) Que pueril ingenuidade a de apresentar a própria impaciência como argumento teórico!”.

    • Existem compromissos e compromissos. “Todo proletariado conhece greves, conhece “compromissos” com os odiados opressores e exploradores, depois dos quais os operários tiveram de voltar ao trabalho sem haver conseguido nada ou contentando-se com a satisfação parcial de suas reivindicações. Todo operário (…) percebe a diferença existente entre um compromisso imposto por condições objetivas (…) que nada diminui (…) a disposição de continuar a luta dos operários que o assumiram – e um compromisso de traidores …”.

    • Na política, onde as coisas são mais complexas, nem sempre é fácil estabelecer quais são os compromissos justos e necessários e quais são os compromissos que acarretam prejuízos para o desenvolvimento do processo revolucionário.

    • Por isso é necessário a existência de uma organização partidária com quadros experimentados que “além dos conhecimentos e da experiência”, tenham “sagacidade para resolver bem e rapidamente as questões políticas complexas”.

    • Ao contrário do que imaginam os esquerdistas “a história do bolchevismo, antes e depois da Revolução de Outubro, está cheia de casos de manobras, de acordos e compromissos com outros partidos, inclusive os partidos burgueses.”

    Por vezes a doença infantil do comunismo torna-se uma doença crônica.

    • Raquel Varela says:

      Estou a imaginar Engels ao lado de Mário Soares pedindo a demissão do PR…

      • Luis Filipe says:

        De certeza absoluta que estaria … Até apoiaria, o Norte contra o Sul na Guerra dos EUA … E Lenine a seguir a ter feito a Revolução criticava os comunista ingleses por não apoiarem o trabalhistas nas eleições …

      • Victor Nogueira says:

        LOL Seria um pouco difícil, salvo se qualquer deles tivesse a máquina do tempo do Calvin, de Bill Watterson,

      • Vitor Campos says:

        E com karl Marx a seu lado a dizer: “não esqueçam de pedirem tb a demissão de Cavaco”.

      • Bento says:

        Não tenho tanta imaginação mas pude ouvir a intervenção do Rubem de Carvalho ao lado de Mário Soares a dizerPôr fim ao Pacto de Agressão e aos seus resultados dramáticos para o povo e para o país
        Sexta 22 de Novembro de 2013
        Camaradas, companheiros, amigos

        Este acto de cidadania insere-se no objectivo de defender a Constituição da República que dá forma ao país que os Portugueses edificaram, defender a democracia que os portugueses conquistaram e as funções sociais do Estado que os trabalhadores e o povo construíram. Objectivo que a situação do País torna urgente e a situação do povo português torna imperiosa.

        Os motivos que justificam que hoje aqui nos reunamos, os motivos que tornam indispensável que consciências e vontades intervenham com propósitos claros para aquele objectivo, não se limitam ao que a dura realidade hoje já revela. Ganham mais actualidade com aquilo que, no dia a dia, se avoluma de forma intolerável.

        A Constituição que existe para ser cumprida e respeitada é atacada diariamente. Das formas mais ínvias às mais directas, pretende-se a revisão que a transfigure numa realidade inerme, inútil para constituir o bastião para que foi edificada. Rejeitamos as violações grosseiras à Lei Fundamental, a conivência do Presidente da República com essas violações, a chantagem e ingerência em curso, com o aplauso do FMI, da União Europeia e dos seus agentes.

        Traz-nos aqui o intolerável agravamento de todas as desgraças que a governação do País lhe impõe.

        Não desistimos, não aceitamos. Pelo contrário, continuaremos a reforçar esforços, continuaremos a luta, absolutamente convictos que só a ruptura com a política de direita responsável por este caminho de tragédia e com uma nova política patriótica e de esquerda poderá apontar a perspectiva de uma real alternativa.

        Tal como ensina a heróica persistência dos trabalhadores e operários portugueses, de Norte e a Sul e nos mais diversos sectores laborais, na ininterrupta luta pelos seus direitos, pelos seus empregos, pelos seus salários, afirmamos aqui que tudo faremos, não baixaremos braços nem vontades para corresponder à defesa dos seus direitos, até encontrarmos a indispensável e urgente alternativa política para a desastrosa situação nacional e para os seus responsáveis.

        É importante e necessário dar voz à denúncia e ao protesto, não calar a indignação. Tendo presente que é imprescindível ampliar a luta dos trabalhadores e do povo, ela mesma parte da luta em defesa da democracia e da Constituição — a mais eficaz forma de defender os direitos e o seu pleno e efectivo exercício.
        É indispensável termos a clara noção da urgência. O tempo não joga a favor do povo e do País.

        Insidiosamente, todos os dias o processo destrutivo dá mais um passo: uma escola ou um hospital que encerra, trabalhadores despedidos, serviços públicos vendidos a capitais estrangeiros, um texto soez ou embusteiro contra a Constituição, um acordo secreto assinado algures num gabinete europeu, um diploma legal que retira mais um direito social ou uma pedra do edifício do nosso regime democrático.

        É inteiramente legítimo colocar dúvidas sobre que condições objectivas e meios encontrarão um Governo que procure para o País a alternativa política, com vista ao desenvolvimento e à resolução dos problemas nacionais. É por isso urgente e inadiável travar este processo de sistemática destruição, de alienação de recursos e de liquidação de instrumentos indispensáveis à afirmação do desenvolvimento soberano, que nestes anos de política de direita, o capital e o imperialismo nos tem despojado.

        Todos os dias mais jovens abandonam o país, todos os dias famílias se vêm privadas de lar, todos dias se vende mais uma peça da património nacional e colectivo, todos os dias se favorece um argentário.

        Basta! É necessário e urgente romper com este rumo de declínio económico e retrocesso social.

        É precisa outra política e para outra política é preciso outro governo – e não só. Porque este governo só pode desenvolver a actividade destrutiva que o tem caracterizado porque encontra na Presidência da República toda a colaboração que requer.

        Atravessamos do ponto de vista ético e moral, tal como de dignidade, verticalidade e competência políticas, um período que será difícil encontrar paralelo na nossa História.

        A burla e o desfalque entraram no quotidiano do país, a impunidade do crime económico ou fiscal só é equiparável na obscena ausência de respeito pela verdade, na falta de rigor de informação, nas trocas e habilidades com números e estatísticas, nos erros sistemáticos e quase roçando o ridículo, se não fossem dramáticos, das previsões e cálculos. Temos agora «irrevogáveis» compromissos assumidos num dia para serem desmentidos no seguinte, a mediocridade do exercício da responsabilidade diplomática e política, comprometendo não apenas o respeito pela soberania nacional e os interesses do país, como desprezando a essencial função de apoio aos portugueses forçados a procurarem trabalho fora do país.
        Chegou-se à vergonha da utilização de recursos do Estado como os serviços de informação em benefício do eternos lucros privados. Exibiram-se humilhantes servilismos perante o estrangeiro.

        A política de austeridade tem raízes e objectivos.

        Raízes num memorando de entendimento ou programa de assistência que, subscrito há dois anos, tem sido a cartilha deste Governo;
        objectivos que, sob a capa da consolidação orçamental ou do monstro do défice visa aumentar a exploração dos trabalhadores, agravar injustiças, liquidar direitos, justificar a dependência, mutilar o regime democrático.

        Apesar do esforço mistificador, já hoje não é possível ocultar que a política do Governo PSD/CDS conduziu exactamente ao contrário de tudo quanto anunciou. Ao povo português têm sido exigidos sacrifícios brutais (sem qualquer correspondência com o que se passa com os mais ricos, os bancos ou a especulação): mas nem assim, pelo contrário, a situação nacional no tocante à dívida e ao défice melhoraram minimamente – pelo contrário. A inverosímil realidade é que os empréstimos em nada contribuíram para um desenvolvimento que apontasse outro futuro, antes caminhamos a sacrificar o país e as suas futuras gerações ao pagamento dos juros desses empréstimos.

        A defesa da Constituição, a defesa da democracia, a defesa das funções sociais do Estado passam por uma renegociação da dívida, defendendo os interesses portugueses e uma política de desenvolvimento soberano assente no aumento da produção nacional e no controlo pelo Estado dos sectores estratégicos. Uma renegociação que só será possível quando o povo português encontrar no seu governo a política patriótica e de esquerda que lhe garanta que é ele, o seu bem estar e o seu progresso, o objectivo principal da política desenvolvida. O que requer outra política. Outra política requer outro governo. Outro governo requer eleições antecipadas que estanquem o desastre e abram caminho às soluções.

        Diferentes, determinados, dispostos para salvar Portugal — dizemo-lo claramente aqui a 21 de Novembro de 2013 prosseguiremos em defesa da Constituição, da Democracia e dos valores de Abril no futuro de Portugal.

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    • Argala says:

      E está pronta a servir a “justificação teórica” para todas as traições. Passe por cordel essa sopa de letras, dirija-se à jotacêpê e boa sorte.

  5. Pingback: Sair do sofá | cinco dias

  6. João Medeiros says:

    Já não há “portugueses honrados”, Raquel!

  7. Tiago says:

    “Se os trabalhadores portugueses confiarem neste imenso bluff temos então, aí sim, razões para emigrar e desistir.”

    Um revolucionário nunca desiste.

  8. Haveria muito a escrever sobre este texto de Raquel Varela mas, por falta de tempo – e porque muitas «explicações» já estão em livros publicados – limito-me a referir a malfadada «queda real da taxa de lucro» a qual impossibilitaria «a aplicação de um programa social-democrata reformista clássico»… Só muito indirectamente.
    O que impossibilta a aplicação de um programa social-democrata reformista clássico, é a prolongada e sistematizad «evitação e evasão fiscal» por parte das multinacionais e detentores de grandes fortunas… Desde há mais de trinta anos a esta parte.
    Um «Estado reformista» – dada a dinâmica do processo histórico – não existe (nunca existiu, seria uma aberração – EM «ESTADO ESTACIONÁRIO».
    Como qualquer outra entidade histórica, um «Estado reformista» estará sempre a evoluir para outra coisa qualquer.
    Keynes tinha a esperença de «salvar o capitalismo – das asneiras, digo eu – dos próprios capitalistas»… Eles, os capitalistas, perceberam perfeitamente e, em devido tempo, financiaram todos os «think tanks» que promovessem o combate ideológico a Keynes (para eles Marx já estava mais do que enterrado…)… Ou seja, eles perceberam que se não impedissem o «Estado reformista» de seguir a sua evolução a «coisa» arriscava-se a descambar em «Estado socialista»…
    A «queda real da taxa de lucro» o que faz é outra coisa: o esgotamento progressivo de oportunidades de investimento. E não havendo «oportunidades de investimento» não há criação de emprego e etc., e tal, por aí fora.
    Cumprimentos.

    • Nuno Cardoso da Silva says:

      O que interessaria reter era o facto de que o capitalismo é intrinsecamente perverso e não tem defesa possível. Não há capitalismo moderado nem capitalismo de rosto humano. O capitalismo tem de ser destruído. O que eu não acredito é que um qualquer capitalismo de estado seja melhor do que o capitalismo privado. Nesse contexto, o “estado socialista” é tão mau como o “estado burguês”.

  9. Pingback: Uma esquerda sobre outra esquerda | O Insurgente

  10. migspalexpl says:

    Raquel, o que é a “taxa de lucro”?
    (“Há, por razões objectivas (queda real da taxa de lucro o que impossibilita a aplicação de um programa social-democrata reformista clássico, vulgo, manutenção da exploração mediada, com direitos sociais)…”)

  11. Karl Marx, com todo o seu valor, viveu no século XIX e só conseguiu entender limitadamente (limitou a uma fase histórica limitada), que para a satisfação de necessidades sociais, para a criação de valor a partir do trabalho socialmente necessário, no âmbito de uma profunda divisão social do trabalho, a liderança, o risco assumido, a rendibilidade, a criatividade empresarial dos empresários era decisiva para o futuro desenvolvimento das sociedades, de forma alguma o proletariado (que Marx acreditava ser a solução dialéctica, erradamente). Se o trabalho não for bem orientado e liderado não se transforma em valor, na satisfação de necessidades sociais históricas, que são uma contínua interacção entre os produtos e serviços propostos e os desejos e necessidades das pessoas, com a sempre difícil conciliação entre a capacidade de produzir e a capacidade de comprar, com as evidentes oportunismos, especulações, materialismos, egoísmos históricos, que existem e predominam ainda até que hajam profundas transformações culturais e civilizacionais nos seres humanos, que vão continuar a demorar séculos a se desenvolverem. As instituições financeiras extremamente mal geridas e mal reguladas são pró-cíclicas e empoladoras dos caminhos fáceis e não sustentados para a geração de não valor, que se manifesta nas crises. Voltaremos a estes temas para os quais Raquel Varela tem na minha perspectiva, uma visão redutora e preconceituada, protegida na sua esfera académica paga pela Nação através do Estado e não compreende o que são os empresários e o seu trabalho determinante, que cria valor directa e indirectamente por via do trabalho dos seus colaboradores. A distribuição desse valor tanto pode estar errada pelos empresários serem explorados por trabalhadores cheios de direitos e sem deveres como vice versa. A questão é cultural e evolutiva. Quem está a prejudicar as pessoas que trabalham e a sua desvalorização, não são os empresários é sim um Estado e uma Sociedade Política parasitas, cheios de interesses e direitos a ele agarrados antes e depois de 25 de Abril. All bourgeois but the who? O conceito de burguesia, na minha opinião, não faz qualquer sentido ser aplicado na actual realidade histórica. Voltarei a este interessante tema, que dialecticamente lhe agradeço, o Valor, que me apaixona desde os tempos da faculdade em que li o «Das Kapital», mas também os «Grundrisse» e que o tenho estudado toda a minha vida! Marx é mais interessante e ao mesmo tempo mais limitado de como a Raquel o vê, na minha opinião. Por exemplo, o grande amigo de Gramsci o economista italiano Piero Sraffa, deu contributos importantes de aprofundamento, sinalizados por Umberto Cerroni …

    • Nuno Cardoso da Silva says:

      A liberdade, sozinha, é geradora de oportunidades mas é sobretudo geradora de desigualdades. Com as naturais diferenças de aptidão existentes em qualquer comunidade, e com bases de partida muito diferentes, a liberdade só pode gerar concentração crescente de riqueza. Quem dispõe de capital para investir, quem mantém uma estreita rede de relações financeiras e políticas, quem tem acesso privilegiado à informação, terá sempre mais sucesso económico do que quem não dispões dessas vantagens. Daí advêm a concentração de riqueza e de poder, e novas oportunidades para alargar o fosso entre os que têm e os que não têm. É evidente que a solução deste dilema não é a limitação da liberdade, é destruir os veículos de desigualdade que são as empresas capitalistas, substituindo-as por empresas cooperativas através das quais se anulará a exploração do trabalho pelo capital, e se criam condições mais equitativas para que os potenciais empreendedores – e não empresários – tenham acesso aos meios para investir e produzir. Uma economia cooperativa ainda é geradora de desigualdades, mas a um nível muito inferior ao que se observa na economia capitalista. Não têm os empresários culpa de viverem num ambiente que os privilegia? Certamente que nem todos são directamente culpados disso, mas o seu controlo real do poder político faz com que essa situação não só perdure como se agrave. Viver em oligarquia tem consequências particularmente nefastas, e a única via para uma solução é a de destruir a base do poder dessa oligarquia. O que terá custos a curto prazo, mas que permitirá criar um novo sistema de relações produtivas mais justo e menos agressivo.

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