Os nojentos de Washington

Há mais de um ano, sugeri que o FMI fosse dissolvido. Apesar de ser o elemento menos opaco e insidioso da troika – essa coroa está guardada para o BCE, o FMI é muito mais que um banco central. É um dos dois braços armados do neoliberalismo; o Banco Mundial parece mais distante porque o seu mandato obriga a um cuidado adicional no que respeita a tópicos do hemisfério norte. O pior é que se trata de um braço armado incapaz de articular estratégias ou posições. Mas tem, ao menos, uma candura que escapa ao BCE e à Comissão.

“O Fundo Monetário Internacional (FMI) admite que os erros nas previsões para o crescimento da economia “foram significativamente maiores” em Portugal que noutros países que receberam o apoio financeiro de programas apoiados pelo Fundo nos anos iniciais da crise. O capítulo que analisa a sustentabilidade da dívida pública portuguesa, no relatório sobre a oitava e nona avaliações, refere especificamente as previsões para a evolução do produto interno bruto (PIB) avançadas entre 2009 e 2012.”

Mas esta notícia não reflecte a divertidíssima conferência de imprensa ocorrida anteontem. Algumas pérolas:

QUESTIONER: Hello, good morning to you all in Washington. I have one simple question. Do you have any estimate for the fiscal multiplier implied by this forecast of 2014 — GDP forecast? Thank you.
MR. LALL: Thank you. On the question, obviously the GDP forecast you say you looked at takes into account the budget and the fiscal measures that are outlined in the staff report. However, you know, the fiscal multiplier, at least to me, seems like, you know — it’s in a way a concept that isolates one effect over all the others. So, we are looking at the overall impact and I don’t have the number for you what an implicit fiscal multiplier would be, but that would also be a bit misleading because many factors have to come together to get us to our forecast for next year. So, the short answer is, no, I don’t have a fiscal multiplier. Thank you.

Portanto, o sr. Subir Lall não sabe qual será o efeito do austeritarismo em 2014. Curiosa afirmação, tendo em conta que afirmara, pouco antes, o seguinte:

Looking ahead, there remains sizable fiscal consolidation to implement, so as to bring Portugal’s public finances on a sustainable footing. Following two years of substantial fiscal consolidation (of about 6-1/4 percent in structural primary terms), the pace of adjustment eased sharply in 2013—this year—to around half-percent, reflecting in part the need to adjust for the weaker macroeconomic environment. Looking ahead, an additional 2-1/2 percent of structural primary consolidation is needed over the next two years to reach the program’s targeted structural adjustment, and this is spread roughly evenly between 2014 and 2015. In this context, full implementation of the 2014 budget and underpinning expenditure reforms is particularly critical. At the same time, further efforts are needed to address underlying weaknesses in public finances, including a large public sector in relation to the private sector, and ensuring long-term sustainability of the pension system.

Portanto, é preciso continuar o programa de destruição social em curso, mesmo que não se conheçam ou consigam prever os efeitos de tal programa. Além disso, na página 13 do Relatório sobre as Oitava e Nona avaliações, está esta brilhante peça de vaudeville político (em tecnocratês, por quem sois):

20. The adjustment in 2014 will largely be achieved through a permanent reduction in expenditure. The authorities confirmed that the bulk of the adjustment measures would be drawn from the PER package identified at the time of the seventh review. A number of additional measures were identified during the mission.

É que o sr. Subir Lall não percebe perguntas perfeitamente claras:

[Pergunta:]On the fiscal targets you were talking about the credibility of Portugal achieving the targets. My question is, is it not more damaging for Portugal in the markets to keep failing those targets and they do keep failing those targets.

[Lall:]And then I’m not fully sure what exactly you implied by saying that the targets are repeatedly not being met. If anything, in fact, if you look at the staff report, the targets were met for the performance criteria and we reaffirmed the fiscal deficit target for next year. So I’m not entirely sure that you are fully accurate in the way you posed your question.

Portanto, as metas foram alcançadas porque foram revistas a meio do caminho e está tudo no relatório, sua besta, está tudo no relatório, não sabes ler, pá?

E, finalmente, a cereja no topo do bolo. Na página 54 do dito relatório:

6. A scenario with lower potential growth would also have important implications for the debt adjustment path in the medium term. Although Portugal’s forecast track record is
comparable to that of other countries with Fund-supported programs during the crisis period 2009-12, the growth forecast error tended to be significantly higher in earlier years. Staff estimates potential growth to reach nearly 2 percent by 2020, as structural reforms start bearing fruit and the economy successfully rebalances from the non-tradable to the tradable sectors. However, if potential growth were to turn out lower than currently projected from two to one percent in real terms, the rate of debt decline in the medium term would slow down, resulting by 2020 in a debt-to-GDP ratio of 118 percent, 7 points higher compared with the baseline.

Portanto, o sr. Subir Lall não sabe qual é o multiplicador fiscal para 2014, mas o staff do FMI acha que, baixando um ponto na variával mais importante do modelo usado para estimar o rácio dívida-PIB, esse rácio aumentará sete pontos. E até parece que o FMI fez mais merda em Portugal que noutros países. Dissolva-se, e já.

Qual será a desculpa das alimárias austeritárias, desta feita? Ou ainda acham que, neste blogue, só se fala do Cunhal?

 

 

 

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6 Responses to Os nojentos de Washington

  1. JgMenos says:

    Pergiuntas difíceis têm respostas difíceis.
    E se simplificasse?
    Para os credores importa sobretudo o saldo da Balança que responde muito simplesmente à pergunta: vai sobrar para nós?
    E se lhe disserem que sim, mas que não resolve o déficit do Estado, a resposta é: menos Estado.
    Onde estão os mais inteligentes protugueses nisto tudo?
    A desenhar políticas patrióticas de esquerda, contra a finança internacional, os juros usurários e a exploração capitalista!!!!
    São critérios…

    • Luís Bernardo says:

      está enganado. os credores não querem saber da balança externa por essa razão. querem a) a remuneração dos juros da dívida e b) reconfigurar a economia portuguesa de acordo com um projecto ideológico. veja as declarações de Olli Rehn, por exemplo. a sua questão também inverte os termos em que deve ser posta: o problema dos credores deve ser quanto sobra para eles. essa deve ser a postura de um governo legítimo.

      quanto à pergunta que faz, há pelo menos outra resposta: a solução é recuperar instrumentos de política cambial e industrial. a solução não é menos Estado, é mais e melhor. de resto, não percebo o que escreveu.

  2. André Carapinha says:

    Este comentário é só para que se diga que neste blogue se comenta algo mais que os posts do Cunhal.

  3. A aplicação de medidas sem ter em conta a especificidade do país é o que melhor caracteriza a receita económica dos agentes do fmi cujo programa não visa os interesses de uma economia particular mas a sua sbjugação de acordo com os interesses dos credores, ponto final.
    Só assim se explica que a deterioração da economia do país como um todo seja o resultado de programas que mais não fazem que prolongar no tempo a deterioração das condições de partida, através de um conjunto de políticas criminosas para as populações que assistem impotentes – e a isso são obrigados pelo governo à subjugação do país pela dívida de banqueiros corruptos.O austeritarismo combina a austeridade e o autoritarismo para a imposição de um programa criminoso que à custa de um povo entrega benefícios sob a forma de privatizações,encerramento de empresas,escolas,hospitais e juros a parcelas do capital especulativo enquanto a dívida do país se acumula sem qualquer benefício,antes pelo contrário, para a maioria da população.

    • JgMenos says:

      A especificidade nacional – viver da dívida – cria grandes dificuldades de entendimento ao FMI!
      Gente pouco dotada…

      • Luís Bernardo says:

        Mostre onde e quando a República viveu da dívida. Dados empíricos, se faz favor. O comentário blogueiro evita os dados,bem sei, mas fica a saber o seguinte: ou apresenta dados ou apago os seus comentários.

        Quanto ao resto, o sarcasmo fica-lhe mal ao tom de pele. Mais vale não usar.

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