Sobre o Empreendedorismo Blogosférico

A blogosfera reaccionária, pródiga no parir de estimáveis figuras do comentarismo, de grandes (e já agora gordos – bem gordos) deputados da actual maioria parlamentar, divulgadora esmerada e incansável das receitas económicas e financeiras que trazem Portugal arrastado e subjugado, sítio que de tão democrático já defendeu a invasão do Iraque em nome da democracia, as arremetidas sionistas contra o povo palestiniano a bem da liberdade, os bombardeamentos humanitários na Líba (e aguarda os da Síria) em defesa da paz e da concórdia, que já se bateu em defesa do carácter de «causa natural» do aquecimento global e já deslindou os mistérios da Constituição hondurenha para sustentar o golpe de Estado contra o presidente eleito Manuel Zelaya – essa blogosfera que, em suma, conta no seu activo um sem-fim de grandes serviços à liberdade, à igualdade, e à fraternidade, citou um texto de que sou autor, pelo punho de um certo Vítor Cunha, arremetendo contra o Cinco Dias.

Modesto escriba recém-chegado, não mereço honras de ser citado por gente eminente, mas caramba!, tampouco sou merecedor da má sorte de me ver referido em tão mal frequentadas paragens. Os meus pais e amigos lêem isto, se me sabem citado no Blasfémias telefonam preocupados no segundo seguinte, temendo-me em más companhias.

Reportando-me ao pedaço de prosa mal amanhada que o meu indesejado «linkador» produziu, não fico espantado com a reacção. O autor, para escrever onde escreve, faz como é suposto fazer-se entre os da sua laia: perante a desgraça, maior ou menor, esfrega as mãos. É um costume. Se há cortes de salários, esfrega as mãos porque sobejou lucro nalguma empresa que pode ser investido em novos postos de trabalho com salários ainda mais pequenos. Se há cortes de prestações sociais, esfrega as mãos porque surgiu uma oportunidade de negócio. Se um piquete de greve leva umas bastonadas, esfrega as mãos porque assim a produção não pára. E como quem é mesquinho em coisas grandes é mesquinhíssimo em coisas ínfimas, perante um desaguisado num blogue, de novo esfrega as mãos, decerto antevendo, salivante, numa troca de galhardetes mais acre, o antegosto da fragmentação dos sindicatos, do esboroar dos movimentos de utentes, da ruína dos partidos progressistas, da resistência das populações e da luta de massas como um todo.

É contudo de se lhe recordar que já vem depois de muitos que antes dele anunciaram precisamente o mesmo. E que se o 5 Dias é, nos termos dele, uma cooperativa, então não funciona como o mundo empresarial e financeiro (peço desculpa: como «os mercados») que o pobre diabo certamente incensa tendem a comportar-se: aqui não encontrará OPAs hostis, Ricciardis a esfaquear Salgados pelas costas, tráfico de influências, gente que se vende por tudo ou até por nada, que corrompe quem, a troco de umas voltinhas num carro de boa gama ou de um fatinho Armani para pavonear nos cafés da moda entregava o próprio couro, e se preciso o da mãe. Há uma notória falta daquilo a que agora se chama «empreendedorismo» no 5 Dias, reconhecer-se-á. Assim não vamos, como o Cunha que é Vítor certamente irá um destes dias, a deputado, ministro, secretário de Estado ou autarca. Mas tampouco desapareceremos. Só desaparecemos nos sonhos dele, para reaparecermos nos pesadelos em que os pobres, massa sebosa que tem mais é que obedecer calada quanto a ele, beneficiam de escolas públicas, cuidados de saúde gratuitos, subsídio de desemprego, e, pasme-se!, nem do patrão precisam.

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7 Responses to Sobre o Empreendedorismo Blogosférico

  1. m. says:

    Muito obrigada pelo seu texto. Fica ao seu critério editar ou não este meu comentário. Não me é tão importante assim.

    Permita-me dizer um coisa. O entretenimento político, penso que já o temos nos meios da comunicação social: a mim, já me chega e é uma verdadeira lástima. Agora, ser apontada diariamente como sendo analfabeta política e sofrendo de anomia, causa-me algum «inquietação»: isso tem acontecido na blogosfera, na comunicação social, então, aí nem se fala… um insulto aos portugueses diário dado o seu analfabetismo político.Aqui não senti isso, neste blogue, sinceramente, se não não teria escrito uma linha, ou se porventura logo que tivesse dado conta, largava.

    Como disse inicialmente quando entrei neste blogue porque o descobri – ando à procura de respostas, tentar compreender, mas não é uma «experiência de laboratório» com outras pessoas, não faço isso – só tinha escrito num blogue, e este foi o segundo. E não estou a usar uma rectórica discursiva ambígua porque não sinto que preciso de o fazer e também é-me difícil fazê-lo. Penso que é desonesto, fartei-me de estudar isso e ver como é construído o Conhecimento no Ocidente. Nem falo de epistemologia. Encontrei aqui um espaço para me confrontar com a minha própria ignorância e tenho aprendido imenso.

    A minha natureza é de descontrução pessoal constante: ou seja, pôr-me em cheque e isso tem-me custado a pele, mas tem valido a pena ao longo da minha vida fazê-lo. Repito: é a minha natureza. Mas quando o faço, faço-o sozinha, não arrasto comigo absolutamente ninguém. Esse é o meu ponto de honra.

    A meu ver, não se arrastam «colectivos», ou seja, outros que não nós próprios em processos «sem rede» e em cenas de «empreendorismo» seja de que natureza forem. Para isso avançamos e arriscamos sozinhos. Esse é o meu ponto de honra. Todavia, podemos avançar, mas, em útlima análise, podemos dar as voltas que quisermos, só com «colectivos« é que avançamos porque a troca de experiências, «impartir» como diz a minha mãe que é espanhola, é uma «mais-valia» (a Teoria do Valor, dependendo do contexto como é óbvio), adquirida em conjunto. Não tenho nenhumas dúvidas sobre isso.

    Espero ter sido clara e não ter soado «moralista». E agradeço o seu texto. Fantástico e esclarecedor. Muitíssimo obrigada.

    P.S. Blogosferas reaccionárias? Nem tinha dado conta que existiam! Imagine!!! Nem ligo!!!

  2. JgMenos says:

    Um longo post para um mesquinho pensamento!

    • João Vilela says:

      Um minúsculo comentário, obra de um minúsculo comentador. Há quem nem no tamanho dos textos que produz consegue ser grande.

  3. fms says:

    Less is more. Vá para o caralho.

  4. Pingback: Ainda sobre o livro de Raquel Varela « Fala Ferreira

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