Idolatria

8291778213_7c194b5548_z

Para o debate há caminho, para o resto não. É mais fácil homenagear o Senhor discutindo o Evangelho. Se não foi nem fez o que os hereges o acusam, é elevar mais alto os seus milagres, confiar no fulgor das suas virtudes e na grandeza da obra. Há quem saiba como. Quando a luz é muita até de olhos fechados se presente. O assomo iluminista é materialista-dialéctico, sem nenhuma hesitação. Diz que o problema da esquerda é debater-se, dividir-se, questionar-se. Nada mais errado. O problema é o sabastianismo, qual peronismo lusitano, que toca até nos corações mais patrióticos. Da minha parte, é o que irei continuar a fazer, qualquer que seja a foz desta viagem. Sobre Cunhal, porém, reafirmo tudo o que disse: “sério”, “honesto”, “um dos mais importantes líderes do comunismo alinhado”, “comprometido”, “perspicaz”, “dirigente astuto” e “um esteta com significado”. Quem acha que cada um destes traços de carácter esteve ao serviço da revolução socialista, tem bom caminho. É escrever. E até há quem o consiga com engenho. Quem acha o contrário também.

João Abel Manta .arte_facto hereges perversões 14

Ilustração de João Abel Manta.

Advertisements

About zenuno

http://despauterio.net
This entry was posted in 5dias. Bookmark the permalink.

11 Responses to Idolatria

  1. João. says:

    Este homem está a jogar uma cartada qualquer. Por mim, é deixá-lo jogar a cartada dele a ver onde leva? (suspeito que não leva a lado nenhum, uma vez que vive das respostas dos comunistas, sem estas, este gajo é só mais um anti-comunista como outro qualquer).

  2. Filipe Moura says:

    Renato, repara só nisto: o título deste blogue é por si só uma homenagem ao Álvaro Cunhal. Uma homenagem implícita e subtil, mas não deixa de ser uma homenagem.
    Nunca tinhas reparado nisto?
    Deverias pensar nisto.

  3. Argala says:

    O problema ainda é muito mais grave do que se podia antever. Agora não estranho que os ratos fujam ao confronto de classe, porquanto nem um debate aguentam sem desertar.

    A tese em discussão, a de que Álvaro Cunhal é uma figura do reformismo, parece-me complicada de rebater. O Renato cometeu algumas imprecisões históricas, já corrigidas, mas laterais à discussão. Não apareceu ninguém com nada de convincente para contrapor.

    Dois desertam, outro põe-nos a viajar pelos jardins de Veneza e convoca o Pablo Neruda. Um outro, mais assertivo, traz sentença – Cunhal é mau? Façam melhor -, o que confirma portanto que Cunhal é mesmo mau e que a estratégia má (o reformismo) se justifica com a ausência de alternativa (o que até é mentira). Temos que apresentar melhor? Mas isso era exactamente o que eu queria ler. Proposta: como seres racionais que somos, não vamos continuar a tentar abrir um buraco no betão com colheres de pau, porque já fizemos a experiência repetidamente e observámos que não resulta. Vamos tentar tentar usar instrumentos que a experiência histórica diz que resultam.

    Reparem. Eu não quero melindar, nem rebaixar, nem apoucar o esforço, dedicação e militância de todos os que tentaram abrir buracos na parede de betão com colheres de pau. Vamos precisar de todos eles, mas com instrumentos próprios para a empreitada. E Cunhal representa a colher de pau porque foi ele que a escolheu, era ele o mestre de obras. E enterrar a colher de pau, que eram as ideias dele, não implica ignorar outros méritos da pessoa. Só isso.

    • Nuno Rodrigues says:

      É. No meio disto esquecemos 11 anos de prisão. Pormenores do “reformista”. Com um bocado de jeito, deu de fuga arriscando a vida por ser brando. Adorava ver-vos na cadeira. Depois era ver os ratos.

      • Renato says:

        Houve muito reformista preso.

      • Argala says:

        Reformista é a estratégia de Cunhal, não a sua coragem física. Isso é indigno de trazer a debate. Quantos reformistas não estão presos?!
        Cunhal é reformista, porque reformismo é o nome a que se convenciou chamar à estratégia de superação do capitalismo através de sucessivas reformas, numa lógica evolucionária. E Cunhal defendeu sempre essa posição. Mais, Cunhal defendeu essa posição durante um período de crise revolucionária, isto é, quando as condições objectivas estavam reunidas.

        Eu proponho uma estratégia diferente, que é a preparação das condições subjectivas para a Revolução.

      • A referência a Cunhal como «reformista» (tal como Argala define «reformismo») não me choca. Mas a referência (feita por outros) a Cunhal como sendoi «contra-revolucionário» (ou seja, «contra a revolução») isso espanta-me.
        E espanta-me sobretudo porque quem assim defina Cunhal tem uma noção muito peculiar (e nada marxista, diga-se de passagem) do que seja «REVOLUÇÃO».
        Marx fala em «era de revolução social», num contexto similar ao da leitura de Lewis Morgan sobre as sociedade primitivas (e da sua muito lenta transformção) e de Darwin sobre a evolução das espécies.
        A «transição de fase» (de que falam os físicos para designar a Engelsiana «segunda lei da dialéctica»…) NUNCA acontece instantâneamente.
        Dependendo das características de cada processo de transformação a «coisa» tanto pode durar segundos (explosões químicas), como minutos ou horas (transformações de sóldiso em liquidos…) como milénios (como na erosão de montanhas e na deriva dos continentes).
        No caso das sociedade humanas, a «coisa» pode ser acelerada MAS DENTRO DE LIMITES objectivos.
        Por outro lado, Portugal (ou qualquer outro país) está inserido numa rede mundial de interacções económicas que não podem deixar de ser levadas em linha de conta, quando se pensa em «Revolução num só país»…
        Mas nada disso deverá ser impeditivo, BEM ANTES PELO CONTRÁRIO, de que todos os activistas persistam em continuar na luta pela tal «criação das condições subjectivas».

  4. Posso meter a colherada?… A modos que a brincar com coisas sérias?…
    «”When I use a word,” Humpty Dumpty said, in rather a scornful tone, “it means just what I choose it to mean—neither more nor less.”»
    Ou, em jargão lusitano,
    ««Quando eu uso uma palavra”, disse Humpty Dumpty com ar de muito desdém, “ela quer dizer exactamente aquilo que eu escolho – nem mais nem menos”»
    Lewis Carrol – Do Outro Lado do Espelho

  5. Pingback: Auto da Autocrítica | cinco dias

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s