Cunhalúnias

Abstenho-me de discutir o PCP na Revolução dos Cravos e o papel de Cunhal neste blogue porque era o mesmo que eu ser criacionista e querer discutir com um físico teoria quântica. Publico posts mas deixo as discussões para a academia, sem qualquer pedantismo. Quem sabe de História sabe que aqui tem-se uma versão da história do PCP mais ou menos idêntica ao capítulo especial de Estaline sobre a Verdadeira História do Partido – não há qualquer fundo de realidade mas uma devoção que não permite qualquer discussão séria.

Assim de rajada – e porque fui a única pessoa que publicou um trabalho de investigação (os outros são ou jornalísticos ou de memórias ou dizem respeito a sectores específicos), em Portugal sobre a história do PCP na Revolução dos Cravos  -poderia falar da proibição de Santos Júnior falar no 1º de Maio; na militarizarão da greve dos CTT, da TAP, do Jornal do Comércio; na tentativa de proibição com armas, em, vão, da Manifestação da Lisnave, da Interempresas; da constituição de brigadas físicas com uso de violência para furar greves (como no sindicato dos químicos em Abril de 75); da tentativa de militarizar toda a força de trabalho com o Documento Guia Povo-MFA (esta até o próprio Cunhal  admitirá publicamente 1 ano depois que foi longe demais); na oposição do PCP ao cerco à AR em Novembro de 1975 (apoiando a manif distribuindo no local um panfleto contra o cerco). Nos 3 primeiros meses de revolução – 3 – todos os comunicados do PCP do comité central, exceptuando um sobre a ida de Marcelo para a Madeira – são «contra as greves», consideradas «desordeiras, provocadores, feitas por agentes da CIA», etc.

A literatura histórica diz que há várias formas de revolução e várias formas de contra-revolução. Há a contra revolução chilena, com botas de ditadura militar, mas há a contra revolução democrática, a instituição de um Estado democrático com amplos direitos laborais contra os organismos de duplo poder e a democracia de base. Tudo isto é, bem entendido, discutível. Eu costumo discutir, até com muitos intelectuais do PCP (que jamais questionaram a documentação e a conclusão do meu livro de que Cunhal lutava por um capitalismo regulado em Portugal, muitos deles em conferências públicas!) se poderia ter sido de outra forma: uns argumentam que não havia forças para mais; outros com a estrutura de classes e propriedade do país; outros que era uma etapa; outros a pressão da URSS e de Yalta. Tudo está em cima da mesa e as discussões merecem as horas que lhes dedicamos porque são dúvidas legítimas e que remetem, por isso são tão acesas, para as propostas teóricas de hoje sobre o futuro da sociedade.

Agora o que me impressiona – e fui obrigada a vir aqui – é o legado vivo do 1)pensamento único e da 2)calúnia.

O primeiro diz que  só existe unidade se pensas como eu  – Cunhal elaborou bastante sobre o tema. Ao repto da esquerda revolucionária (apelidada pelos comunistas pró soviéticos de extrema-esquerda) de que vamos juntos para as manifs e cada um leva o seu panfleto e o seu discurso e as bases/trabalhadores lêem, discutem e escolhem qual a política que querem apoiar, Cunhal respondeu, só vamos juntos se publicamente pensarmos o mesmo ou omitirmos as diferenças. Tenho sobre isso uma opinião – o pensamento único público não cria unidade, cria seitas e uma seita não se mede por ser grande ou pequena, uma seita pode ter 10 000 membros e 100 000 que contínua a ser uma seita. 

O segundo é o da calúnia – um método usado ad vomitum como se vê por aqui, a mesma calúnia que transforma um grevista contra o Governo em «agente da CIA», e um debate sobre Cunhal num debate sobre o Renato Teixeira e a moral do Renato.

Não há nada tão baixo como transformar uma discussão sobre as ideias de uma pessoa na discussão sobre essa pessoa. É o método da calúnia, do estalinismo que fez aquela coisa tão patética e triste (uma derrota que ainda hoje nos pesa a todos nos ombros) – e que contínua viva e tão viva como aqui se viu – que é matar todo o comité central em 36-38 não porque se opunha ao controlo operário, à colectivização forçada, ao que viria a ser o pacto germano soviético mas porque eram «trotskistas». A certa altura já ninguém sabia quem era Trotsky e a Zita Seabra gritava em 1975 contra os estudantes do Técnico que se opunham à realização de exames de «agentes da CIA e trotskistas». Será que eu sou uma Renatista?

Não fosse tudo isto sintoma da total incapacidade do BE e do PCP responderem à crise e seria até motivo de diversão.

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8 Responses to Cunhalúnias

  1. Nuno Cardoso da Silva says:

    Subscrevo. Mas a leitura atenta que faço de Trotsky não me faz querer substituir os ícones do marxismo-leninismo pelos do trotskismo… Mas percebo que, como historiadora, essas figuras te interessem e até te fascinem.

  2. Pingback: Em defesa de Álvaro Cunhal | cinco dias

  3. Luis J says:

    ” Não fosse tudo isto sintoma da total incapacidade do BE e do PCP responderem à crise e seria até motivo de diversão. ” Como acha que deviam esses partidos respoder à crise? Fiquei deveras curioso…

  4. Victor Cabral says:

    Quem, mesmo com mentiras, disser mal de Cunhal, dá nas vistas, mas não convence, quem contactou com ele …

  5. Pingback: O Auto da Autocrítica | cinco dias

  6. Pingback: Auto da Autocrítica | cinco dias

  7. Luis J says:

    Sobre os tais primeiros 3 meses, e que Cunhal lutava por um capitalismo regulado, ou mais direitos para as pessoas, a minha opinião sobre isso deu a Raquel no inicio do 3 parágrafo quando fala da contra revolução chilena. Antes de Pinochet subir ao poder, houve mesmo greves que se não foram feitas pela CIA, foram por primos deles. Isto hoje está muito documentado.
    Penso que Cunhal e outros, sabedores de certeza da história do Chile em 1973, tiveram medo de uma contra revolução, como aconteceu lá. Não sabiam bem como estavam as Forças Armadas, e tiveram receio de uma contra revolução, o que iria regressar tudo ao passado, e talvez ainda pior. Para mim pior porque Pinochet foi bastante pior que Salazar e Caetano.
    Cunhal e sem dúvida outros, preferiram guardar as conquistas democráticas, o voto, o fim da ditadura, que arriscar tudo numa incerteza.
    Já agora, digo-lhe que nãosou comunista quer acredite ou não, mas interesso-me muito pela democracia. Acho que o termo capitalismo regulado face a tudo isto, é um bocado chato.

  8. Pingback: É possível debater Álvaro Cunhal? | Sentidos Distintos

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