Para um citador, uma citação

Tornei-me autor do 5 Dias, disse-o na altura, a convite do Renato Teixeira. Conheci-o há uns dois anos, na sequência da Geração à Rasca, e já estive envolvido, com ele, na organização de uma manifestação pelo direito ao trabalho. Sei que discordo dele em muitos aspectos. Ele sabe que, em outros tantos, discordará de mim. Não haveria de ser por isso que deixava de ser possível partilharmos um espaço de opinião.

Sou militante do PCP. Aplico na minha intervenção enquanto tal – e é também nessa condição que escrevo no 5 Dias – um princípio de trabalho unitário consistente em nem disfarçar as minhas discordâncias, nem abalroar opiniões discordantes de pessoas com quem trabalho. Nem gosto, por princípio, de melindrar os que convido para um espaço meu, sobretudo se os convido ciente das discordâncias que nos separem. Faço por evitar a provocação. É uma forma de estar que não imponho aos demais, mas que não nego que me desconforta quando a usam comigo.

O Renato ataca um vulto da história do PCP, e aproveita para, a propósito de uma crítica a ele, atacar disposições e métodos de trabalho político definidos pelo colectivo partidário. Na incapacidade de redarguir ao Renato com resposta na mesma moeda, pela inexistência entre nós de qualquer vulto de medida similar na história do trotskismo ou do esquerdismo português, faço disso mesmo uma resposta: Cunhal é muito mau? Cunhal cometeu erros? Cunhal teve insuficiências? O Renato que faça, ou me apresente, melhor.

Polvilham o texto do Renato excertos de um dos livros mais brilhantes que Cunhal escreveu: o Radicalismo Pequeno-Burguês de Fachada Socialista. Noto que foi lido atentamente, mas faltou-lhe ter lido esta, que lhe assenta bem e com a qual por certo muito aprenderia: «gritam contra a ‘linha justa’ (a linha do PCP) mas absolutizam a sua. Gritam contra o dogmatismo mas avançam como verdades absolutas ideias que afirmam antidogmáticas. Gritam contra a mística do Partido enquanto não conseguem criar o seu. Gritam contra os aparelhos porque não foram capazes de criar um próprio». Fica à consideração do citado.

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16 Responses to Para um citador, uma citação

  1. De says:

    Não há mais nada a dizer a não ser elogiar o tom comedido das tuas palavras perante o que aqui se passou/passa.

    O teu segundo parágrafo é paradigmático do clima que devia reinar entre os autores do 5 Dias.
    Abstive-me de criticar ao longo de bastante tempo todas as intervenções à esquerda, mesmo que discordasse abertamente delas.Preferia o silêncio, assumindo o desgosto pelas “turras” do mesmo lado das barricadas.Sempre dirigi os meus comentários precisamente contra o outro lado,
    ( com excepções pontuais). Essa era a minha luta.Disse-o bastas vezes.

    Qualitativamente as coisas mudaram.Como que empurradas para um patamar outro que não encontro qualquer justificação para.
    No panorama actual, em que as coisas estão como estão, o que se oferece a um trabalho que devia ser unitário, com respeito pelas discordâncias e pelos espaços, é este espectáculo que, como diz o Tiago faz rejubilar a direita.E que me obrigou pessoalmente a intervir de outra forma.

    Não sei se tal faz parte de algum desespero perante uma situação tão difícil, se faz parte de outra coisa qualquer.
    Isto não são dores de crescimento.É outra coisa mais triste e feia.

    Mas também não é “isto” que vai sequer fazer vacilar a luta contra o verdadeiro inimigo que travo (travamos).
    A luta continua!

  2. Nuno Cardoso da Silva says:

    Essa de dizer que se critica o PCP por inveja, por se ter querido um PCPêzinho próprio com todos os seus tiques e não se ter conseguido, parece-me completamente delirante. Há muito quem critique o PCP exactamente pelo dogmatismo, pelo vanguardismo auto-assumido, pela incompreensão do que verdadeiramente significa a liberdade, e sem qualquer vontade de ter uma organização própria com esses mesmos defeitos. O PCP funciona num quadro de coacção ideológica, de imposição de fórmulas datadas, de um centralismo que de democrático só tem o nome, apoiado como está num sistema de controleiros que rapidamente matarão no ovo qualquer originalidade ou crítica aos oráculos dos seus profetas. Dizer que os críticos do PCP anseiam por clonar essa aberração só poderia mesmo sair da vossa cabeça…

    • João Vilela says:

      Oh Nuno, esclarece-me: tu já militaste no PCP? Conheces militantes do PCP? Tiras essas ideias de onde?

      • Nuno Cardoso da Silva says:

        Obviamente que nunca militei no PCP! Posso não ser um génio, mas não sou completamente desprovido de razão e de bom senso… Mas conheci e conheço bastantes militantes do PCP, e o que nunca vi foi a capacidade para discordar – senão em círculos muito privados – das políticas do PCP e das decisões dos seus dirigentes. Mesmo perante o disparate mais flagrante o que se vê é uma tentativa patética para justificar o injustificável, para fazer parecer bom o que é mau, tudo em nome da unidade e da disciplina. O apagamento total do indivíduo e da sua capacidade crítica em nome do colectivo, é degradante. Pactua-se com o que de pior há, para não dar instrumentos ao “inimigo de classe”. Não, João. Não é certamente por aí que resolveremos os problemas que derivam da opressão oligárquica. Nem me apetece substituir uma oligarquia por outra.

      • JP says:

        Epá isso não diz nada sobre o PCP.
        Diz é muito sobre os seus amigos…

      • João Vilela says:

        Ora nem mais.

  3. um anarco-ciclista says:

    Álvaro Cunhal foi um herói do nosso povo, caralho!
    Pra mim, a trindade são o Cristo, Cunhal e Joaquim Agostinho.
    Chamar delator da PIDE a quem esteve quase 15 anos preso nas masmorras do fascismo, resistindo à tortura e à desmoralização é simplesmente abjecto. Nem o Goebbles se atreveria a tanto…

  4. O camarada Álvaro Cunhal foi um dos heróis da luta marxista, mas mais do que isso, foi da luta anti-fascista. Da luta pela Revolução, e pelos sonhos e pelo projecto da Revolução de Abril. Muita gente cospe no prato onde come, e neste caso o Renato faz isso mesmo. Embora os direitos, e tudo o que se conquistou vê-se por um canudo, exactamente porque muita gente cospe no prato onde come, e fala mal de quem lutou para que essa gente que fala mal, hoje exista, e que pudesse ter uma vida com dignidade.
    Álvaro Cunhal foi o Homem Revolucionário do Século XX, um Homem de Luta, Cultura, Um estudioso, e Portugal e o Mundo só o devem aproveitar e agradecer tudo o que ele fez pelo progresso.

  5. JgMenos says:

    Se eu fosse comunista seria do PCP e veneraria o Cunhal.
    Para um inimigo tão presente em todo o lado, só a organização é refúgio seguro.
    Não me perderia nas disputas do que seria o dia depois da vitória, essa armadilha de intelectuais que desconfiam da acção.
    Nem me envolveria com gente que parte para a batalha serm hierarquias nem quartéis.
    Todo o crente reclama uma igreja, todo o mistico quer um simbolo!

  6. Deixei aqui algures – já nem sei aonde – um breve comentário sardónico sobre o «significado das palavras».
    Lewis Carrol, através de um diálogo entre Humpty Dumpty e a Alice (do País das Maravilhas) procura ilustrar o carácter ilusório das discussões sobre o significado das palavras e da praxis que daí pode vir a resultar.
    «When I use a word,” Humpty Dumpty said, in rather a scornful tone, “it means just what I choose it to mean—neither more nor less.»
    Veio tudo isso – o comentário sardónico – a propósito da «acusação» de que Álavro Cunhal seria um «reformista sério e um honesto contra-revolucionário».
    Por tudo aquilo que já li neste blogue sobre o tema e as múltiplas acusações cruzadas, cheira-me que falar agora de filosofia (o modo de pensar dialécticamente…) é capaz de ser tarefa risível…
    Mas, mesmo assim arrisco.
    Por tudo aquilo que li, sou levado a pensar que os criticos de Álvaro Cunhal (ou da praxis do PCP) decidiram (de modo consciente ou não, pouco importa…) que o PCP não devia ter o materialismo dialéctico como pilar de referência. E por materialismo dialéctico estou aqui a pensar mais concretamente em «modo de pensar dialécticamente» e na respectiva (ou daí resultante) interpretação da dinâmica histórica.
    Numa coisa o Bernstein tinha (muito parcialmente) razão: a importância do MOVIMENTO (a dinâmica histórica, o devir permanente dos sistemas orgânicos em transformação permanente…).
    Onde o Bernstein errou redondamente foi na «direcção ou sentido» daquele movimento (da História). È verdade que o caminho se faz caminhando, mas convém nunca perder de vista qual o objectivo a alcançar.
    Os críticos de Alvaro Cunhal (o qual eu nunca tive ocasião de conhecer…) e da praxis do PCP parecem pensar em termos «estacionários» (exactamente o oposto do modo de pensar dialécticamente) e em que a Humanidade teria sempre, como que à sua escolha, uma série de “cenários” socio-politico-económicos. E portanto, depois, a praxis revolucionária seria assim uma espécie de combate ardoroso por este ou aquele cenário. E contra aqueles que «escolhessem outro cenário».
    Para esse activistas, uns (os «revolucionários») querem o cenário «comunismo» (ou «socialismo»?…) e já amanhã (ou pelo menos em tempo da sua vida).
    Enquanto que (para esses mesmos activistas) alguns outros (os «reformistas») parece que se contentariam com um cenário de «capitalismo regulado» (ou algo assim).
    Como se a sociedade humana não continuasse a evoluir, com a sua inércia e dinâmica próprias.
    Parece que não se lhes ocorre que «capitalismo regulado» poderá não ser mais do que uma fase transitória da História.
    No caso concreto da nossa Constituição há mesmo um artigo que estipula que o poder económico (o Capital) se deve subordinar ao poder político (o Trabalho?…).
    Entretanto, a transição do Feudalismo (em «estado puro») para o Capitalismo (também em «estado puro») foi coisa que demorou cerca de 600 anos…
    Mesmo com a visão analítica de personagens como Marx Engels, e a sua compreensão dos mecanismo do devir histórico, porque raio de razão é que a transição do Capitalismo para o Socialismo haveria de demorar menos do que uns dois séculos?…
    Ou seja, é capaz de haver por aí – de novo – alguma «impaciência “revolucionária”» em detrimento da teimosa persistência (o trabalho das “formigas”…) dos “reformistas”..
    Cordiais saudações.

  7. Pingback: Agora em 3D | BLASFÉMIAS

  8. Luis Moreira says:

    Nunca ouvi dizer que Cunhal foi um delator da PIDE, mas sempre ouvi dizer que fez tudo o que foi necessário para que o PCP fosse à sua imagem, E já ouvi isto da boca de camaradas dele da prisão. Que Cunhal com o seu dogmatismo foi um dos maiores obstáculos a uma convergência de esquerda antes e depois do 25 de Abril não há a mais pequena dúvida. Perguntem a todos os que começaram por serem militantes do PCP e se afastaram.

    • João Vilela says:

      E não se pergunta nada a quem nunca se afastou? Eu cá não sou historiador de academia, mas sei o bastante para isto me parecer, assim só à primeira vista, um tudo-nada enviesado enquanto proposta…

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