Um entendimento estrutural do suicídio

O desespero diante da contingência e do vazio da existência na proximidade com a morte, pode despertar-nos o querer ser; a procurar a nossa liberdade transcendental apesar de todas as limitações de ordem material que nos circundam. Por outro lado, outros vislumbram na morte a libertação da opressão social a que estão sujeitos. Uns em busca do paraíso e outros da simples debelação da dor. O jovem Karl Marx cedo se interessou por este fenómeno e realizou observações com base nas memórias de um antigo director dos Arquivos da Polícia sob a Restauração, Jacques Peuchet, numa compilação que resultou numa pequena publicação intitulada de “Sobre o Suicídio – Uma impiedosa crítica à sociedade burguesa, em defesa do “ser social” e da valorização das mulheres”. A forma complementar como estas duas personalidades de diferente ideologia chegam à mesma conclusão é sinal evidente de como a superestrutura burguesa enferma provoca a barbárie nas suas contradições. Não meramente sob o auspício da exploração dos trabalhadores, mas igualmente pela forma como interfere no domínio privado dos indivíduos. De tal forma que a sociedade provoca o suicídio a membros de outras classes que não a proletária.

Este quadro teórico deve servir-nos para contextualização e interpretação dos dados relativos ao aumento da taxa de suicídios não só em Portugal como na Europa. Com efeito, segundo a Organização Mundial de Saúde, esta é uma região do mundo especialmente afectada pelas doenças de foro mental, incluindo depressão e ansiedade; curiosamente até, aquela onde estão situados os países que registam uma maior taxa de suicídios. Aproximadamente 13,9 suicídios ocorrem anualmente em cada 100 000 indivíduos. É deveras interessante que esta mesma entidade estabeleça a correlação entre os rendimentos, a saúde psicológica e respectivas consequências físicas e comportamentais. As pessoas mais fragilizadas na sua condição socioeconómica são aquelas que acabam por incorrer numa dieta pouco equilibrada ou no consumo excessivo de álcool ou tabaco com claros efeitos no número de acidentes cardiovasculares, no padecimento de diabetes ou mesmo cancro. São também estas que dispõem de poucos recursos para aceder a serviços de saúde de modo a obterem o tratamento das suas patologias.

Este enquadramento deve ser aplicado à situação portuguesa. O registo do aumento alarmante de pessoas com doenças mentais e de mortes por via do suicídio não é alheio às opções económicas que têm sido tomadas nos últimos anos. A política constante de redução de salários, aumentos dos impostos sobre o rendimento de quem trabalha, de despedimentos massivos ou a própria precariedade laboral e a desertificação do país associada ao encerramento de unidades de saúde e ensino, contribuem muito para um sentimento de isolamento, de impotência e de degradação das relações humanas. Neste sentido, os números preocupantes de casos relativos a violência doméstica, a criminalidade ou mesmo dos próprios hábitos prejudiciais à saúde não devem ser compreendidos de uma forma isolada; mas como uma parte integrante de um ciclo vicioso proporcionado por uma economia cada vez mais dominada por um paradigma capitalista que não olha a meios para obter lucros. Esta lógica pressupõe menores custos unitários do trabalho e uma necessidade de flexibilização laboral que proporcione um exército industrial de reserva avultado como caminho para a redução dos salários pagos. Além disso, a saúde em Portugal encontra-se num processo de transição para a sua privatização. Não só as parcerias público-privadas, como ainda o aumento das taxas moderadoras e os cortes nos serviços tendem a empurrar a população para a aquisição do seguro de saúde e utilização das unidades de saúde privadas. Um negócio muito rentável e garantido pela insatisfação dos “clientes” com a capacidade de resposta do Serviço Nacional de Saúde. Um sector que tem vindo a ser fulminado pelos sucessivos Orçamentos de Estado, traduzindo-se no défice de abrangência da população.

Defronte desta situação, tanto a OMS como os vários governos tendem a esconder o sol com a peneira. Desenham planos de prevenção que ocultam a verdadeira natureza holística do problema. Optam pelo psicologismo pessoal e não pela mudança das relações de produção que proporcionem uma transformação real na vida das pessoas. Não existindo uma alteração infraestrutural, a questão será sempre em torno da dúvida que nos aflige: suicídio ou homicídio? Para lançar a reflexão, deixo uma citação da obra referida anteriormente: «As frases filosóficas não têm, a seus olhos, nenhum valor e são um fraco refúgio contra o sofrimento. Acima de tudo é uma insensatez considerar um acto que se comete com tanta frequência contrário à natureza; o suicídio não é, de modo algum contrário à natureza, uma vez que diariamente o testemunhamos. O que é contra a natureza não acontece. Ao contrário, está na natureza da nossa sociedade gerar muitos suicídios, ao passo que os tártaros não se suicidam».

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8 Responses to Um entendimento estrutural do suicídio

  1. De says:

    Um texto admirável. Não só pela chamada de atenção para um trabalho praticamente desconhecido de Marx, mas sobretudo pela contextualização do suicídio na sociedade que vivemos
    Só isto valia encómios. Mas o texto vai mais longe e convoca as condições sócio-económicas para o centro do problema . É notável como se expõe a cadeia de acontecimentos que relacionam as condições económicas e as consequências psicológicas indo mais longe até, na denúncia como se processa (sob o ponto de vista individual mas sobretudo social) o “tratamento ” das patologias suscitadas.Também em relação directa com os rendimentos do indivíduo e com os negócios rentáveis que daí possam advir.

    Não é o indivíduo doente que é o cerne do problema.É a sociedade e o modelo em que vivemos que deve ser questionado .
    E tal assusta os poderes estabelecidos.E daí que o discurso oficial tente sistematicamente minimizar o que está em causa

    Por exemplo este trabalho saído de uma investigadora do infarmed, largamente divulgado em spots noticiosos e em que se defende que o aumento do uso de antidepressivos não é culpa da troika
    http://www.tsf.pt/PaginaInicial/Portugal/Interior.aspx?content_id=3498873

    A forma como se escamoteia que o acesso a estes mesmos medicamentos sofreu uma enorme erosão,quer directamente pelas dificuldades de acesso económico a tais fármacos, quer pelos entraves ao acesso médico para a respectiva prescrição, transformam a questão num jogo desonesto e sobretudo viciado.

    Ou de modo mais facilmente apercebido, a forma como se escondeu na nossa imprensa ( de forma quase que obscena) a relação directa entre os despejos e os suicídios em Espanha

    Porque no fundo o que é preciso esconder é desde logo a possibilidade que se possa formular a grande questão:
    “Suicídio ou homicídio?

    • Frederico Aleixo says:

      Obrigado pelas palavras, caro De. Deixe-me dizer-lhe que Marx tinha 28 anos quando se lançou à pesquisa das causas do suicídio na cidade de Paris daquela época.

      De resto, apreciei bastante os complementos que deu ao texto. De referir que não conhecia esse estudo da investigadora da Infarmed e do modo como estão a escamotear a causa dos suicídios em Espanha. Como disse e bem:

      «Não é o indivíduo doente que é o cerne do problema.É a sociedade e o modelo em que vivemos que deve ser questionado .
      E tal assusta os poderes estabelecidos.E daí que o discurso oficial tente sistematicamente minimizar o que está em causa.»

      Cumprimentos!

  2. Sempre a aprender… Desconhecia este Marx que assim parecia antecipar Durkheim… Notável.

    • Frederico Aleixo says:

      É verdade, Fonseca-Statter. De salientar que os louros devem igualmente ser dados a Jacques Peuchet, cujas memórias baseiam o escrito de Marx. E não se tratava de nenhum socialista, apenas um director de arquivos da polícia focado nas causas dos suicídios parisienses. Se não me engano, a última citação do meu texto até é dele.

  3. m. says:

    Sou suspeita («para bom entendedor, meia palavra basta»), mas só quem conhece em profundidade as «causas» do desespero que levam ao «efeito» do suicídio, muitas vezes «coercivo» e, portanto, homicídio com responsáveis invisíveis de que, pelo menos, eu faço parte, consegue fazer uma exposição como a que acabou de fazer. Muito obrigada.

  4. Don Luka says:

    O sucicídio é um tema complicado. É razoável pensar que contextos de opressão (social, política, económica, etc) o potenciem. Pena o teu texto estar tão politizado, principalmente se atendermos a que países com regimes aparentemente da tua simpatia nem sequer estatísticas públicas sobre taxas de suicídio têm a coragem de apresentar – e os que as apresentam não merecem credibilidade nenhuma. Podias esquecer o Marx, e escrever à luz de uma lâmpada em vez de à luz de uma vela.

    A propósito de estatísticas, é também importante não esquecer que correlação e causalidade não são forçosamente a mesma coisa. Consta que nos desenvolvidos países nórdicos as taxas de suicídio são mais elevadas do que seria expectável.

    • De says:

      O suicídio é um tema complexo.
      Mas por ser complexo espanta que as causas sociais que estão na sua base sejam sistematicamente menosprezadas.Ou talvez não

      Uma prova que o assunto é incómodo para muitos é este comentário de Luka. Sobra para além do tom descortês, uma espécie de irritação pelo trazer ao debate um texto a todos os títulos notável de Marx.

      Espanta de facto o pioneirismo de Marx ( “que assim parece antecipar Durkheim”). Espanta a sua modernidade, que contrasta com o tom ronceiro de muitos dos nossos contemporâneos.
      Já não espanta que se queira fazer “esquecer” Marx à luz, não de uma vela ou de uma lâmpada, mas da cintilação sempre trágica dos autos-de-fé dos que pretendem colocar entraves ao conhecimento.

      A propósito das estatísticas não vale a pena Luka procurar refúgio noutros países com que tenta ilidir a questão . A fiabilidade daquelas começa por ser questionada no nosso próprio país (Em meados do ano passado podia-se ler que “o Governo mantém segredo sobre o número assustador de casos de suicídios que se estão a registar, uma estratégia que se enquadra no objectivo de não provocar alarme social com a divulgação desses números, proporcionalmente mais dramáticos do que os que foram revelados em 2010”)
      (Curioso é comparar os números do INE com os do Instituto de Medicina Legal-IML)

      Mas os números.estão longe de representar a real dimensão deste fenómeno, já que “muitas vezes o Ministério Público dispensa a autópsia quando tem suspeitas fundadas de que não houve crime”., segundo o presidente do IML
      Também há indicadores indirectos que indiciam que a crise aumenta o número se suicídios em Portugal: Dados divulgados pelo INEM revelam que em 2012 este organismo recebeu mais 29% de chamadas relativas a tentativas de suicídio quando comparado com o ano de 2011

      Um texto, publicado pela revista científica Lancet, em abril deste ano, de Marina Karanikolos, defendia que a Grécia, Espanha e Portugal “adoptaram uma austeridade fiscal rígida”, mas as economias destes países “continuam a decrescer e a tensão sobre os sistemas de saúde está a aumentar”.
      “Suicídios e surtos de doenças infecciosas estão a tornar-se mais comuns nestes países e os cortes orçamentais têm restringido o acesso aos cuidados de saúde. Em contraste, a Islândia rejeitou a austeridade através do voto popular e a crise financeira parece ter tido escassos ou nenhuns efeitos discerníveis na saúde”, argumentava o artigo.”

      Mas atente-se neste vídeo que é particularmente revelador do panorama que assistimos. Fonte: Observatório Português dos Sistemas de Saúde
      http://videos.sapo.pt/M7p6b9JB5e7qPbgwLKrg.

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