Das inevitabilidades (?)

Não é invulgar ouvir esta frase dos patrões.

Perante o inesgotável exército industrial de reserva – os desempregados – cria-se a filosofia, que de alguma forma é repetida à exaustão por patrões, comunicação social, amigos, partidos do poder que, a determinada altura se torna uma inevitabilidade (mais uma).

De repente a filosofia das inevitabilidades tornou-se uma espécie de lema a que todos obedecem. Criam-se e implantam-se as ideias (assim ao estilo do Inception) de que nada há a fazer, as coisas são como são e não há mudança ou transformação possível.

Se assim fosse, não havia nem grandes nem pequenas vitórias a registar nas lutas de cada dia. Se o desemprego, a precariedade, o vale tudo nas relações laborais fossem inevitáveis, o BES nunca teria sido condenado a reintegrar uma trabalhadora temporária, o E. Leclerc jamais teria sido obrigado a readmitir um trabalhador despedido ilicitamente, os trabalhadores da fábrica Ecco não teriam ganho um processo de despedimento colectivo ilícito, os metalúrgicos não conseguiriam os aumentos salariais, os trabalhadores não conseguiriam vencer a batalha de impedir que a adaptabilidade e os bancos de horas constem nos contratos colectivos, a sindicalização não aumentaria em vários sectores (contra tanta lei anti-sindical e tanta perseguição).

Numa escala mais macro, o governo não estaria tão desacreditado e descredibilizado, não olharíamos outros países com esperança, não travaríamos a escalada do capital a cada luta, não teriam estado milhões nas ruas, não teríamos tido lutas nacionais, regionais, gerais e sectoriais todos os meses.

A esperança, afinal, ainda não abandonou estas paragens e cada vez cresce mais a consciência social e de classe. Os protagonistas assumem na plenitude o seu lugar e restam cada vez menos margens para dúvidas.

Um dia disseram-me que Carlos Silva (o novo Secretário Geral da UGT, apadrinhado por Ricardo Espírito Santo) tinha «cara de boa pessoa».

Não sei se tem ou se não, mas depois de estender a passadeira vermelha ao governo para negociar, proferiu as seguintes palavras:

“E devo dizer, em nome do pragmatismo, que, entre desemprego, que é uma chaga social, e a precariedade laboral, que é outra chaga social, costuma-se dizer que venha o Diabo e escolha, mas há uma pior que a outra: é preferível termos contratos precários do que não termos contrato algum”, acrescenta, em declarações aos jornalistas antes da entrada para a reunião.

Estamos falados. A UGT escolheu o seu lado.

Eu, e tantos outros, continuamos a achar que outro mundo é possível. Sem a UGT, de preferência.

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4 Responses to Das inevitabilidades (?)

  1. JgMenos says:

    Muito bem, outro mundo é possível!
    Sem dúvida, mas enquanto não chega esse outro mundo, com suas inevitabilidades, talvez seja prudente gerir as inevitabilidades do mundo presente.
    Viver noutro mundo é sempre uma idiotice, qualquer que seja o mundo em que se viva.

    • De says:

      Gerir as inevitabilidades é o remédio de Menos.
      Imita assim Cavaco agora atarefado a gerir a “viragem da nossa economia”.(Mais a papaguear a tal viragem, do que a viragem propriamente dita, lol) .Inevitabilidades à Cavaco a tentar fazer crer que o seu mundo é o mundo inevitável (tal qual o Jg)

      Vive Cavaco noutro mundo e recebe carinhosamente o qualificativo de “idiota” por parte de Menos.
      Ele até dá garantias,tal como já deu com o seu amigo íntimo para todas as ocasiões, um tal dias Loureiro.Amigo inevitável da quadrilha que saqueia o país sob as patas das inevitabilidades menores de Passos

      http://samuel-cantigueiro.blogspot.pt/2013/08/cavaco-e-as-garantias.html#links

  2. Caetano says:

    “cada vez cresce mais a consciência social e de classe…”

    De que maneira, veja-se só as sondagens, por muito manipuladas que sejam, na hora do voto lá se vai a consciência e a cruzinha vai inevitavelmente para o lugar do costume, alterna apenas o quadradinho e com isto não estou a convidar ao baixar de braços, apenas me não deixo toldar com tanta “vitória”. É, é a luta de classes, pura e dura, e não faz mal nenhum que reconheçamos que estamos a levar porrada do camandro. Ideias precisam-se, urgentemente.

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