Escrito nas estrelas?


No momento que a poeira das últimas semanas começa a assentar, vai sendo possível olhar para o que se passou com um certo recuo e tentar interpretar o guião dos diferentes episódios de uma telenovela a que assistimos mais ou menos atónitos.

No Negócios de hoje, Luís Nazaré caracteriza bem, no meu entender, o que fez correr o presidente da República.

«O presidente Cavaco Silva terá pressentido o perigo da situação – um PSD cada vez mais acossado, à esquerda e à direita, perante uma situação económico-financeira preocupante – e viu, também ele, a oportunidade de entrar na História. Fustigado por críticas à sua inacção e complacência para com o Governo, o Presidente quis surpreender. E fê-lo de modo hábil. Fosse qual fosse a vontade da maioria dos portugueses, estava escrito nas estrelas que não haveria acordo com o PS. Cavaco Silva sabia-o bem, tão bem que o seu envolvimento – directo ou por interposta pessoa – no processo negocial foi praticamente nulo. Para a História, ficará a sua tentativa “patriótica” de promover um entendimento a três. Acabará por dar posse, sem reservas, a um governo recauchutado, com presença reforçada do CDS. Missão cumprida.»

O que Luís Nazaré não diz, e que não estava escrito nas estrelas, é que o PS não devia ter embarcado da forma como embarcou em toda esta história. Mesmo que tivesse ido a uma primeira ronda de conversas, sabia à partida que os dados estavam viciados e tinha obrigação de não acreditar, de domingo a quinta-feira, como afirmou, que um acordo parecia possível. Mas claro que isso só podia ter acontecido com um outro Partido Socialista e com um secretário-geral saído de uma galáxia bem diferente daquela onde vagueia, tristemente, António José Seguro.

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2 Responses to Escrito nas estrelas?

  1. Miguel says:

    Olá Joana e parabéns pelo teu excelente trabalho aqui no “5 dias”.
    Estranho ainda ouvir de muita gente e ler de muitos jornais, quando oiço ou leio que “Cavaco Silva disse…” ou “Cavaco Silva decidiu…”
    Na verdade, quem diz ou decide por Cavaco Silva são os seus mandatários, os tais que o acompanhavam, durante as campanhas presidenciais – homens sombra ou invisíveis, estranhamente obscuros no modo de pensar e que ditam tudo pela “facebook” ou “twitter”, fazendo com que os outros pensem que Cavaco Silva é um tipo moderno, porque usa o “facebook” e o “twitter”.
    Cavaco não é mais do que um boneco de corda desta gente, como de outra gente mais poderosa que manda nos seus mandatários.
    Cavaco é uma espécie de “Tio Jeremias” que diz umas coisas e que anda nas ruas de boca aberta, deixando transparecer alguns tiques de velho (e até de doente).
    Portanto, há uma grande contradição entre este “Tio Jeremias” que anda aí a jardinar nas ruas e a falar com os anónimos, como se fossem atrasados mentais e o Cavaco dos “posts” na “facebook” e no “twitter”.
    Em todo o caso, os analistas de serviço também defendem a tal tese do “Cavaco disse…” e “Cavaco defendeu…”.
    Enfim, não sei se és da mesma opinião, mas é tudo o que tenho a dizer. Abraços.

  2. Joana Lopes says:

    Olá, Miguel
    Não estou tão certa que sejam outros a decidir por Cavaco e que ele seja apenas o boneco de corda. O que se passa é que ele, normalmente, pensa e decide sempre de acordo com uns fantasmas bem definidos que tem na cabeça, mesmo quando procura surpreender como foi agora o caso.

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