O país não ideológico de Cavaco Silva


De tudo o que o presidente da República disse ontem, há uma frase-chave que já vi referida mas não suficientemente sublinhada:

«Mais cedo ou mais tarde, um compromisso interpartidário alargado será imposto pela evolução da realidade política, económica e social do País.» E Cavaco explicita logo a seguir para que não fiquem dúvidas: «Estou igualmente convicto de que os cidadãos se encontram agora mais conscientes da necessidade de um consenso entre os partidos que subscreveram o Memorando de Entendimento.»

Ou seja: para o presidente da República, está à vista o fim da democracia parlamentar tal como a conhecemos, esta deve reduzir-se à acção concertada de um bloco central que a domine sem sobressaltos. Tudo o resto é lixo irrelevante que só serve para empatar. Para já, interessa a defesa consensual de um Memorando, amanhã de um outro texto ou tratado qualquer.

Deve ficar garantida a neutralização de divergências significativas quanto à «evolução da realidade política, económica e social do País», o que implica, pura e simplesmente, o fim de devaneios ideológicos, a convergência para uma ideologia única. Quando se fala do futuro de um país nestes termos, é de ideologia que se trata e não apenas de folhas Excel.

O cidadão Cavaco Silva teria mais jeito e sentir-se-ia mais à vontade como presidente do Conselho de Ministros em tempos antigos. Não hesitaria em assinar uma versão mais modernaça de uma outra frase que ficou célebre e de que me lembrei ontem imediatamente: «A União Nacional nunca será um partido, porque tem uma aspiração mais alta : organizar a Nação!» Descubra as diferenças.

(Também aqui.)

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5 Responses to O país não ideológico de Cavaco Silva

  1. JgMenos says:

    ‘…o fim da democracia parlamentar tal como a conhecemos’
    Esta reedição da 1ª Republica vai terminar como a anterior ou reforma-se e transforma-se numa democracia que não mascara a realidade nem faz das promessas eleitorais meras fórmulas corruptas destinadas a ganhar votos.
    Os herdeiros da 1ª Republica estão maioritariamente acantonados no PS … e nota-se!

    • De says:

      Esta mania de Menos se tomar por pitonisa tal qual um prof Martelo de trazer por casa (que como se sabe é um aldrabão e manipulador nauseabundo).

      A 1ª república vai longe e distante.O PS, melhor dizendo , os dirigentes do PS sabem lá o que foi isso. Sabem sim outras coisas mais contextualizadas com os interesses que defendem e que são parcialmente comuns aos da direita tout court.
      Será que a convocação da 1 º republica deriva de “traumatismos” peculiares e particulares de menos?
      Atirar areia ao vento para que:

  2. aa says:

    Correr com o desgoverno e,com o amiguinho de muiiiiiiiiiiiiiiiiiitos CRIMINOSOS é um imperativo nacional. Cavaco, vai masé para o Brasiu que te pariu.

  3. Armando Cefqueira says:

    Não foi o mesmo Aníbal [Cavaco Silva] que declarou por seu punho à PIDE, e pelo seu punho o assinou, que se revia no então actual regime político e social???

    Não se admirem. Deve ter sido com muita dificuldade e sofrimento que ele, depois de muito matutar, ‘aderiu’ à Democracia lá para os idos de 28 ou 29 de Abril de 1974…

    Armando Cerqueira

  4. Parlamento existe, democracia parlamentar nem por isso.

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