Brasil, mais que uma simples redução da tarifa

Jornalista italiano: Qual é o jogador italiano que mais aprecia, Mazzola ou Rivera?
Sócrates: Não os conheço. Estou aqui para ler Gramsci na língua original e estudar a história do movimento operário.

Quando o mundo concentrava a sua atenção nos protestos turcos com epicentro na Praça Taksim e na violência da resposta repressiva ordenada pelo executivo de Erdogan, eis que emergiu um levantamento popular no Brasil. O país que, juntamente com os restantes BRIC’s, tem assistido a um crescimento económico assinalável e evoluído na sua afirmação enquanto potência geopolítica regional, de súbito deparou-se com as maiores manifestações de descontentamento desde a implantação da sua curta democracia. O motivo inicial invocado pelo Movimento Passe Livre foi o aumento da tarifa de autocarro em São Paulo, conseguindo contagiar outras cidades e outras sensibilidades para o protesto. Agora a multidão já vocifera contra a corrupção, pelo impeachment da Presidente Dilma Rousseff ou por maior canalização de recursos para a saúde e educação. Devo dizer que apoio as lutas travadas quer no Brasil, quer na Turquia ou Grécia, o que não significa concordância ou convergência com todos os sectores envolvidos. É necessário filtrar o essencial e alertar que as desigualdades brasileiras não se prendem com questões de espírito, mas sim com opções económicas.

Convém, de início, desmistificar o governo de Lula. Não constituiu uma ruptura de fundo mas sim um continuum com as políticas de Fernando Henrique Cardoso. É inegável que a actual Presidente herdou um país com uma forte presença nos mercados globalizados, com o sétimo maior PIB nominal do mundo em 2010 e com alguns avanços a nível de desenvolvimento humano graças ao assistencialismo de programas como o Bolsa Família ou o Bolsa Escola. Todavia, uma breve análise de indicadores relativos ao índice de GINI ou à distribuição da riqueza permitem-nos perceber que o combate à pobreza por via desta estratégia tem os seus limites e não soluciona o grave problema brasileiro que é estrutural: a concentração do rendimento. Aliás não deixa de ser irónico que o antigo governo afamado pelas suas preocupações sociais, tenha também gerado significativas receitas e lucros para os principais bancos, empresas e proprietários rurais do Brasil.

Estes dados revelam-nos que o crescimento da economia brasileira está a favorecer o grande capital a operar no país. As exportações e o investimento estrangeiro foram originados pela velha estratégia económica da liberalização dos mercados e redução da protecção social dos trabalhadores. A não reparação das perdas salariais com a inflação, a manutenção de baixos salários, a promulgação da Lei da Falência que prioriza o pagamento de créditos das empresas em processo de recuperação às instituições financeiras em detrimento das dívidas aos trabalhadores a partir de certo montante, e da Lei da Previdência que abre as portas a agentes privados e ataca as reformas para canalizar recursos da segurança social para o pagamento da dívida pública; todas constituem mecanismos de fortalecimento do capital sobre o trabalho no que concerne à correlação de forças. Os grandes grupos económicos beneficiam ainda do programa de privatizações que se estendeu aos sectores lucrativos como a banca pública, a área das telecomunicações, o sector siderúrgico e os transportes públicos, assim como do programa de Parcerias Público-Privadas que garantem uma renda ao vencedor de concursos quase sem risco nenhum. Onde é que já assistimos a este filme?

Outro exemplo assustador é o sector agropecuário, um dos mais lucrativos e pujantes motores da exportação de commodities. No entanto a Reforma Agrária prevista na Constituição da República Federativa do Brasil não sai do papel e assistimos a 1% dos proprietários das terras a controlar 46% da terra cultivável. Não é por isso de esperar grande reacção de Dilma Rousseff face às reivindicações do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra ou das comunidades indígenas. As exportações não podem cessar, apesar da propriedade agrícola permanecer nas mãos de muitos poucos.

O mercado externo, o investimento estrangeiro, a caça a divisas estrangeiras e o superávite primário continuarão a constituir a grande prioridade do governo Dilma. Com efeito, o seu executivo quer a globalização financeira e pretende derrubar o proteccionismo internacional em clusters que lhe são favoráveis. O Brasil não é contra a globalização financeira e comercial porque precisa dela para prosseguir o seu objectivo de se assumir como superpotência emergente. E quem aceita estas regras do jogo, não pode estar do lado contrário às grandes instituições financeiras como o FMI. Por isso resolveu encetar reformas a seu pedido para galvanizar a admiração dos seus quadros. Estes protestos brasileiros devem servir para combater o jargão do “sucesso” assente no pagamento da dívida pública a todo o custo pela via de uma Balança de Pagamentos superavitária e um real forte, metas a serem atingidas através de baixos salários, ataques às conquistas laborais e reformas nos direitos sociais. Se os brasileiros e as brasileiras decidiram sair à rua com o propósito de forçar o recuo na tarifa de autocarro, conquanto possa ter catapultado a consciência em relação ao estado do país, os seus feitos foram curtos. Há bem mais que uma razão para exigir verdadeiras mudanças no país.

Advertisements

About zenuno

http://despauterio.net
This entry was posted in 5dias. Bookmark the permalink.

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s