Senta! Senta! Senta!

No Brasil, até alguns polícias já percebem que o “sit-in” é uma eficaz técnica de resistência pacífica. Em Portugal, alguns activistas continuam a achar que a revolução se faz com actos isolados e pseudo-heróicos de pessoas que sobem sozinhas às estátuas dos leões da Assembleia da República. Sentar, em bloco, em momentos de pânico, para proteger os restantes manifestantes? “Ah e tal, isso vai contra a minha liberdade de manifestação!”

Quem conhece a sua ignorância revela a mais profunda sapiência. Quem ignora a sua ignorância vive na mais profunda ilusão.” – Lao-Tse

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7 Responses to Senta! Senta! Senta!

  1. Rafael says:

    A palavra operante aqui é contexto. Eu estava la nesse dia. Era apenas a minha segunda manifestação de massas, tendo a primeira sido a do 12 de Março. Encontrava me junto as barreiras, não por nenhuma vontade concreta me tivesse impelido para ali, mas porque a minha colocação no “cortejo” da manifestação, o fluxo da multidão e a geometria singular do largo de São Bento ali me tinham colocado. Estava mais concretamente do lado do Leão oposto àquele que o Rogério escalou. De repente, sentimos que se passava algo de preocupante bem atrás do leão ocupado pelo Rogério mas ninguém sabia bem o quê. Chegavam rumores de uma potencial carga policial apesar de horas mais tarde termos finalmente ficado a saber que tinha sido uma escaramuça entre um polícia e um manifestante. A aflição no rosto de algumas pessoas era visível e não sabiamos mesmo o que fazer. Por isso quando alguém da carrinha nos pediu para sentar, foi isso que muito de nós fizemos. Mas mesmo sendo eu um “novato” nestas coisas de manifestações multitudinárias, continuei a sentir me aflito, porque receava que qualquer movimento de panico, mesmo que infundado da mais ínfima parte das pessoas ali presente poderia resultar em tragédia e nós ali sentados seríamos facilmente espezinhados. Ainda hoje vivo convencido que tivesse a polícia decidido fazer das suas naquele dia, para as pessoas ali sentadas em frente á escadaria, a coisa teria redundado num desastre. Quando uma das barreiras no fundo da escadaria caiu, e um “buraco” se abriu para as pessoas poderem subir pa escadaria, senti um profundo alívio.
    Uma coisa é um protesto concertado , do género sit-in, num acto de desobediencia civil. Outra é dizer ás pessoas, numa situação de pânico e incerteza sobre o que está a acontecer para se sentarem e servirem de passadeira para uma multidão em potencial debandada. O “senta senta senta” daquele dia poderia ter corrido muito mal. Que venhas agora usar esse episódio infeliz para ajustar contas políticas é profundamente lamentável e reprovável.Cá de baixo apertado junto a uma barreira e sentadinho no chão a tremer de medo atiro-te a frase do Lao-Tse de volta á cara.

    • João Labrincha says:

      Rafael, percebo perfeitamente a tua perspectiva. O teu contexto. O meu era de quem estava encostado à carrinha, depois em cima dela, enquanto essa confusão ocorria. Propositadamente (penso eu), foi colocado entre a carrinha e o local da escaramuça, uma grande faixa, que impedia qualquer visibilidade. Neste caso (de confusão com a policia), o que tinha sido combinado entre as pessoas que deram o seu tempo, horas e suor em trabalho de preparação da manifestação (chamemos-lhe organização) foi que pediríamos às pessoas para se sentarem. Claro que o perigo só se dissiparia se toda a gente (ou a grande maioria) se sentasse. Mas a confusão, o medo, a falta de visibilidade, fez com que a maioria se mantivesse de pé, deixando quem estava sentado numa posição de fragilidade. “Novato” nessas coisas, não eras o único. Eu, por exemplo, tirando uma carga policial durante os meus tempos de estudante em Coimbra, nunca me tinha deparado com tal situação. As indicações que tínhamos da polícia eram de que, se fossem invadidas as escadarias, eles avançariam em força. E foi por isso (pela segurança de todxs) que pedimos às pessoas que se sentassem. E, no desespero, algumas pessoas começaram a gritar de forma algo impositiva “senta, senta, senta”. Ingenuidade? Talvez. Mas, garanto-te: a intenção foi a melhor!
      Ignorávamos que a polícia nos estava a manipular. Ignorávamos o que se estava a passar exactamente, por falta de visibilidade. Ignorávamos se as pessoas que lá se encontravam iriam reagir positivamente ao apelo de sentar. E desesperámos quando não o fizeram.
      Ajuste de contas? Nada disso! Apenas clarificação dos factos. Pra próxima correrá melhor, estou certo!
      Obrigado por partilhares o teu contexto.

  2. Starr says:

    Oh João, é um bonito vídeo, mas não me faz sentido que perante uma carga policial, as pessoas não corram/não se defendam e se sentem porque “se é muito pacífico” e leva-se na boca. Ainda por cima, sentam-se porque há alguém com um microfone que grita, autoritariamente, que se sentem. Isto não tem a ver com liberdade de manifestação, nem com super-heróis (e já não há cu que aguente marialvas). Tem a ver com não haver carrinhas que são palcos, microfones que são só para alguns, “organizadores oficiais e donos de manifs” que dão ordens… Tem a ver com liberdade. Não é metendo o cu no chão que as coisas vão mudar. E antes de estar no chão, que o meu cu esteja em cima dos leões, cavalos ou caras de patetas. O pacifismo, enquanto valor isolado, e os movimentos tornados marcas registadas (leia-se M12M) estão para mim no mesmo patamar, no patamar do desprezo.

  3. João says:

    o chamado “sit-in” 🙂
    Parabéns pelo post

  4. Pingback: Violência ou não-violência: uma falsa questão | Sentidos Distintos

  5. Pingback: REFLEXÕES SOBRE A VIOLÊNCIA | cinco dias

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