Lei da Greve

«Se eu mandasse neles
Os teus trabalhadores
Seriam uns amores.

Greves era só
Das seis e meia às sete
Em frente ao casse-tête»

(Sérgio Godinho)

O ministro Crato e o PM Passos Coelho dedicaram-se nos últimos dias a atacar o direito à greve. Escaldados que estão com o recente sucesso da greve dos professores (só mitigado pelo aliciamento de professores de colégios privados para vigiarem exames em escolas públicas mediante pagamento do dia, pelo emprego de não-docentes em tarefas da mesma espécie, pela realização de exames em cantinas, em ginásios, e demais patifarias e ilegalidades), um quer enfiar pela lei adentro, contra a sua lógica interna – que salvaguarda essencialmente os direitos de circulação e de segurança -, a vigência de serviços mínimos nos dias de exame nacional. O outro, não contente, defende uma «clarificação da lei da greve» prometendo, sinistramente, a revisão «de uma série de coisas».
A direita lida muito mal com a organização dos trabalhadores, com a sua capacidade de mobilizar, esclarecer, dissuadir de furar a greve, com o efeito que a classe dominada pode ter na interdição dos interesses dos grandes capitalistas. Por seu turno, o movimento sindical unitário não tem tido a mais pequena hesitação em não vergar nem ceder à chantagem, à provocação, à retórica consensualista, aos cantos de sereia sobre o interesse nacional e o compromisso. Quem fez greve, esteve num piquete, conhece a frente de batalha da luta de classes, sabe bem que o objectivo do Sindicato de Classe é, faz gala de ser, o de que a paralisação tenha a dimensão, o sentido, o âmbito e o impacto que os trabalhadores pretendam, e nunca o que quer que a lei burguesa sobre serviços mínimos, requisições, mobilizações, etc., feita pelo punho de funcionários políticos dos patrões, estabeleça como sua limitação.
Por isso, a resposta dos trabalhadores a mais esta investida governamental contra uma conquista de Abril e uma prescrição constitucional que não podia ser mais clara (artigo 57, ponto 1: «é garantido a todos o direito à greve»), será a de sempre: a rejeição decidida, e decisiva, desta limitação arbitrária. Se não está assegurados para sempre quaisquer «direitos adquiridos» no trabalho, na saúde, na educação, na habitação, no que for, então que esperam os patrões? Que esteja assegurado para eles o «direito adquirido» de explorar? Que aguarda o Governo? Que lhe reconheçam o «direito adquirido» de, investido de uma legitimidade democrática obtida pela benevolência e intoxicação ideológica dos media, auxiliada por uma campanha eleitoral de mentira e vigarice, esmagar quem vive do trabalho? Os trabalhadores sabem bem que a limitação ao direito de greve (ou de manifestação, ou de reunião, ou de propriedade, ou de integridade física) não está em quaisquer maços de papéis pintados, chamem-se eles leis, constituições, códigos, ou tratados. Está na correlação de forças, em quem tem mais força, mobilização, organização, dentro da sociedade. Veremos se é o dueto Crato/Coelho, com cúmplices silêncios de Portas e de Cavaco (talvez seja preciso «rever uma série de coisas», como dantes eram precisos «uns safanões a tempo», para que exista regular funcionamento das instituições democráticas…), quem tem essa força consigo, ou se ela está do lado do movimento popular organizado.

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7 Responses to Lei da Greve

  1. Só uma questão, essa letra é de que música?

  2. Dezperado says:

    “Escaldados que estão com o recente sucesso da greve dos professores ”

    na boca de alguns, a greve é sempre um sucesso…em teoria….porque depois na pratica nao da em nada!!!

    • João Vilela says:

      Na boca de outros, as coisas nunca dão nada «na prática». Não apenas porque acham o reforço organizativo, a mobilização e consciencialização dos trabalhadores coisas muito pouco «práticas». Sobretudo, porque estão sempre à espera de um radicalismo que nunca lhes vemos disposição para promover e organizar pelos seus meios. «Precisas de ter paz de consciência, precisas de ter razão, precisas de atirar as culpas para cima de alguém» já dizia o Zé Mário.

  3. Rocha says:

    Há quarenta anos atrás este Crato teria sido director da PIDE. Acho que a especialidade dele seria torturar intelectuais.

    Reza a estória que quando ele andava na UDP a fazer a revolução de lagosta com caviar (na peculiar versão pequeno-burguesa deste agrupamento), foi mordido por um cão. E assim foi que num processo de auto-descoberta revelou ser um burguês fascista com raiva.

    A nossa sociedade atribui genialidade a quem devia atribuir bestialidade. Este tipo que é visto como um matemático na realidade é um estatístico sinistro, daqueles que contam carcaças em campos de concentração. Aquele olhar de quem estar a fazer o frete aos jornalistas não é pose é psicose.

  4. Tão bom que quase me convence!

    Não me interprete mal João Vilela. Eu defendo sem qualquer dúvida o direito inalienável à greve de todas as classes profissionais. No entanto, cada classe profissional, em particular as ligadas à prestação de serviço público, têm um código de conduta que deve ter como principal cunho o seu desempenho sem prejuízo dos utentes, principalmente daqueles a quem devem o penhor de missão.
    O que irrita sobremaneira é a falta de imaginação dos mentores da greve. Porque é que em vez de “grevarem” o dia do exame não “grevaram” só o da obrigação de vigilância. Aliás podiam até ter ido mais longe e serem auxiliares activos na prestação do exame. Instalava-se o caos na mesma, o Crato ficava f….! na mesma e não tinha como vigiar os não vigilantes, as Associações de Pais nem se pronunciavam e os alunos viam os seus pedagogos a lutar mas do lado deles. Tinha sido bonito, pá!
    Mas se calhar esta já é considerada uma missão a não corromper: nunca ajudar o aluno!
    Queiram considerar esta opção para o exame de Matemática A do 12º Ano! Mãe e filha agradecem!
    A “Mãe”!

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