DÚVIDA METÓDICA SOBRE A GREVE DOS PROFESSORES

Declarações prévias de interesses: em 2008 estive metido até às orelhas nos movimentos independentes de professores que se destacaram na luta contra o consulado de Maria de Lurdes Rodrigues; não trabalho actualmente no ensino; a minha mulher e os meus melhores amigos são professores no secundário.

Dito isto, vamos ao que interessa. Subscrevo boa parte do que o Francisco diz aqui (infelizmente não consigo colocar o link) a respeito da greve dos professores, com uma ressalva importante: não partilho do entusiasmo com que ele encara o impacto dessa greve e as suas eventuais ramificações futuras. De tudo o que ele diz, registo e sublinho esta ideia: “O que mais desmotiva e corrói o movimento é a falta de resultados e a sua inconsequência”. Não podia estar mais de acordo. E é por isso mesmo que encaro com preocupação o facto de uma greve aos exames que parece não ter seguimento correr o franco risco de ser mais uma iniciativa que se esgota em si mesma. Fez mossa enquanto durou. E depois? O que resultou daí?

Neste momento, os professores mantêm a greve às reuniões de avaliação. Trata-se, porém, de uma greve que dificilmente poderá ser prolongada por tempo indeterminado, tanto pelos efeitos de cansaço que previsivelmente provocará como pela carga, ainda mais previsível, de tarefas simultâneas que se irão abater sobre os docentes, compactadas em escasso tempo (avaliações, exames, formação de turmas, distribuição do serviço e constituição de horários). A menos que o pessoal consiga ir de férias sem as avaliações feitas, forçando um adiamento indefinido do início do próximo ano lectivo até ver satisfeitas as reivindicações ou se abrir um processo negocial digno desse nome. Este seria um cenário ideal que, porém, se me afigura utópico face à inflexibilidade do governo, o qual joga no braço de ferro com os professores a preservação do seu programa de precarização e de submissão dos funcionários públicos.

A verdade é que os professores não sabem, neste momento, para onde vão em termos de luta laboral. O que me suscita uma reflexão que não cabe neste “post” e que terei de retomar em textos futuros: enquanto as oligarquias político-financeiras sabem muito bem o que querem e como obtê-lo, agindo por objectivos claros de curto, médio e longo prazo, o mundo do trabalho, com os sindicatos à cabeça, padece de uma trágica desorientação, agarrado demasiadas vezes a tácticas rotinizadas em completo desajuste com a realidade actual. Quando nem se consegue definir com clarividência os objectivos que se pretende alcançar, é muito difícil conceber um plano de luta dotado de alguma eficácia.

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One Response to DÚVIDA METÓDICA SOBRE A GREVE DOS PROFESSORES

  1. anabela moutinho says:

    só há / havia duas formas de lutas eficazes:
    – greve a toda a 1ª fase de exames
    – greve às reuniões de notas de 12º ano.

    parece-me que, mais uma vez, os sindicatos foram modestos, e míopes.

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