A Greve dos Professores – Ousar Lutar, Ousar Vencer, sem Nacional-Tótósisses

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A relevância da passada greve de professores já tinha sido aqui sublinhada pela Raquel. Crato e o governo desde cedo embarcaram numa estratégia de terra queimada e de confronto directo com os sindicatos. Valeu quase tudo, desde a demagogia mais rasca, a ilegalidades e mentiras. O resultado é mais uma estrondosa derrota  para este governo, muito bem registada aqui, aqui ou aqui. É bastante elucidativo que mesmo do outro lado da barricada há quem seja capaz de assumir a derrota, seja em jornais mainstream ou na blogosfera. Apesar da intensa campanha anti-sindical e contra a greve movida pelo governo e  seus lacaios, coadjuvados pela nacional tótósada, quem acabou por sair muito mal disto, até perante a “opinião pública” foi mesmo o governo.

Esta luta é um exemplo de consequência, coisa que, infelizmente, falta a muitos outros protestos. A greve dos professores foi além do simbólico, foi um protesto que, de facto, colocou em questão o quotidiano do país e da escola. Esta greve demonstra que existe um contra-poder na sociedade Portuguesa capaz de obstaculizar, no concreto, a actividade deste governo e dos seus lacaios. É isto mesmo que faz espumar a reacção ao serviço do regime, é por isto mesmo que esta greve foi um grande exemplo. Citando o artigo de Pedro Tadeu do DNA greve é, portanto, um direito que não se discute, como o poder papagueia há 30 anos, porque está tendencial e deliberadamente inutilizado. Começar a reverter isto é um serviço ao País. Quando os professores têm coragem para pontapear este pedregulho atravessado no caminho da democracia, dão-nos uma grande lição cívica.

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A violência e radicalidade não são, por si só, garantias para uma luta vitoriosa. Mas ao contrário da “narrativa” nacional-tótó a que certa Esquerda (de vários quadrantes) é permeável, a radicalidade e violência dos protestos não são como um anátema que condena qualquer luta à irrelevância e que automaticamente provoca repulsa da maioria social. Não, o que mais desmotiva e corroí o movimento é a falta de resultados e a sua inconsequência. Aliás, este vídeo referente aos protestos Brasileiros é um “must” para todos os teóricos nacional-tótós. O problema do povo não é com a “baderna”, o problema do povo é mesmo com estas políticas. Se os movimentos de protesto, seja aqui, na Turquia, no Brasil ou na Bulgária, pretendem ser vitoriosos têm de se preocupar acima de tudo em derrotar estas políticas, não em arranjar “esquemas” para domesticar e pacificar a luta.

Estamos numa fase em que os protestos, sejam greves, manifestações ou concentrações, devem procurar o mais possível confrontar directamente o poder instituído. Devem o mais possível procurar obstaculizar o processo de tomada de decisão, as decisões elas mesmas ou confrontar os autores dessas decisões. As grândoladas, os protestos perante Ministros em sessões públicas ou a recente greve dos Professores (em diferentes escalas de relevância) são tudo exemplos de momentos de luta em que se efectua esse confronto. Pelo contrário, marcar manifestações com percursos desenhados para minimizar as hipóteses de haver “baderna”, é uma inversão total de prioridades. A manifestação do passado dia 1 de Junho é um excelente caso de estudo, entre ficar em frente à sede da Troika em Portugal, ou conduzir a manifestação para uma Alameda vazia de sentido, a escolha foi… a Alameda…

Deixo aqui a seguinte questão: Entre as seguintes hipóteses qual a mais desejável?
a) derrubar o governo e consequentemente engrossar e radicalizar o movimento popular, inclusive com possibilidade de ocorrerem episódios de confrontos violentos que escapem ao controlo de qualquer organização (como de resto já aconteceu).
ou
b) priorizar acima de tudo a prevenção de episódios de violência por parte do movimento (do movimento, porque da parte do governo e do regime a violência quotidiana sobre a população permanece), mesmo correndo o risco de desmotivar e esvaziar os protestos.

Para a reacção a escolha é simples, mesmo quando assume um manto “liberal” e simpatiza com algumas das reivindicações, a reacção instintivamente teme o poder da rua. Citam Burke, esquecendo-se que sem Cromwell e os Levellers não haveria “Burke” pa ninguém…  A reacção mais fanática recorre a qualquer argumento para combater o movimento popular e os protestos, se é violento é porque é violento, se é pacífico é porque é pacífico, se é grande recorrem ao negacionismo ou tentam esvaziar o protesto de conteúdo, se o protesto é pequeno divertem-se a gozar com ele. Portanto, conduzir o protesto tendo em conta o que gente deste calibre poderá dizer não leva a lado nenhum, inventarão sempre um pretexto para denegrir  o movimento.

Para quem pensa que existem recursos e saber que permitem trilhar alternativas muito mais justas, livres, fraternas e produtivas que este pântano moribundo, a resposta também deveria ser simples. Se o fim do absolutismo exigiu coisas como a Revolução Francesa ou Inglesa então “So be it”… antes mil Robspierres que a manutenção do absolutismo feudal. Se a luta para derrubar o actual governo puder vir a ter momentos semelhantes àqueles que se passam no Brasil ou na Turquia “so what?”
afinal “qual é a dúvida?”

Manif Greve Geral | 27 Junho – 15h | Rossio » São Bento

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4 Responses to A Greve dos Professores – Ousar Lutar, Ousar Vencer, sem Nacional-Tótósisses

  1. Miguel Cabrita says:

    Independentemente de a greve ter tido um alcance para lá do simbólico ou não, é importante notar que do ponto de vista prático, para o objecto concreto da luta os sindicatos não ganharam nada e provavelmente não ganharão nada dos interesses seus pelos quais justamente lutam e devem continuar a lutar, e isto não é de agora, é uma história com muitos anos. O Governo não quer dialogar ou negociar, as greves sucedem-se há já muitos anos e o neo-liberalismo desvaloriza, diz que é um direito democrático (e como tal é preciso alterar a lei para não prejudicar as pessoas) e ignora tudo pelo qual os sindicatos lutam.

    Para todos os efeitos a luta sindical está a mostrar-se insuficiente, e o povo oscila entre o apoio e o desprezo pela luta sindical, é preciso pensar nisso sem criar disenção, é necessário algo mais que mobilize cada vez mais gente, senão tanto sindicatos como povo não passarão de vitórias destas (que vão para lá do simbólico), mas sem que uma unica reivindicação seja atendida. Se há esquerda permeável a isso, pois muito bem, assim seja.

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