ENCONTRO COM 100 MIL

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partilho aqui um texto de Rogério Haesbaert sobre as manifestações – com referência especial neste caso do Rio de Janeiro – que estão a acontecer um pouco por todo o território brasileiro. uma leitura apurada, e sentida, de um dos mais interessantes cientistas sociais brasileiros.

ENCONTRO COM 100 MIL

Saí de casa só, mas confiante num grande encontro (só não imaginava com 100 mil). A princípio, a frustração: uma Cinelândia quase vazia. O endereço era outro, o começo, “sagrado”, era junto à igreja da Candelária. Pra minha satisfação, encontro com Sergio, colega de universidade, e dois alunos (depois viriam muitos outros). Seguimos em direção aos manifestantes, que já estavam no meio da avenida Rio Branco. O barulho, escutado de longe e ecoando pelo desfiladeiro de edifícios, anunciava o peso da multidão. Multidão que se revelaria logo, um pouco, no sentido de Antonio Negri, um conjunto polifônico de poder e desejo. Desejos específicos de combater a deficiência (e o preço) de serviços que deveriam ser públicos (com o paralelo investimento preferencial em megaeventos), a violência generalizada (da polícia à política) e o cinismo da mídia (que em uma semana passou de bandidos para quase heróis em sua referência aos manifestantes). Desejo também mais genérico de um país, ou melhor, de um MUNDO diferente (apesar de deslocados “sou brasileiro, com muito orgulho…”), de um fazer política diferente (revelado no rechaço até mesmo a partidos políticos mais decentes, presentes na passeata). Bandeiras não faltam. Mas também faltam bandeiras. Sobram cartazes. Sobra criatividade, espontaneidade. Sobra festa (até funk, de que nunca gostei, ouvi e acompanhei). E alegria contagia. Jovens redescobrem seu poder de ocupar as ruas, refazer a cidade, de retomar/retornar ao público. A grande mídia voltou atrás e transformou vândalos em pacifistas, passou a entrevistar manifestantes e a tentar (em vão, pois ela também é alvo) entender o que queriam. Até a Veja, bastião do conservadorismo nacional, mudou de rumo! (mudou?) O grande risco, nessas horas, é o oportunismo. Todos, agora, de repente, defendem o movimento. Que cresceu, nesses novos tempos, graças à mobilização-relâmpago que só as redes sociais via internet permitem. Isso assusta, tem um grau de imprevisibilidade e insegurança (para a política tradicional) que ninguém domina. É um “novo” poder do povo? Sim, mas sem exagero. Assim como brota de modo muito mais fácil, também pode ser manobrado para vários lados. Todo cuidado é pouco. Volto para casa como se estivesse voltando da passeata de 1 milhão pelas diretas já, na avenida Presidente Vargas. Mas não, já se foram quase 30 anos e o mundo é outro. O que há de novo, hoje, para que eu acredite que teremos mais força? Será o jovem que traz um cartaz defendendo também os jovens turcos, do outro lado do mundo? Será o estudante, do meu lado que, instantaneamente, pelo celular, convoca muitos outros para a manifestação e que, se o transporte deixar (os corpos ainda andam na mesma – ou menor – velocidade), chegarão em poucos minutos? Será a espontaneidade das diferenças, que faz uma aluna apresentar com naturalidade sua namorada? Sim, tudo isso tem algo de novo, e envolve conquistas (quem, no passado tecnológico dos anos 80, imaginaria mobilizar 100 mil em menos de uma semana?). Os tempos, no plural, é verdade, são outros. Mas e o espaço, esse que dizem que resiste, que perdura, ainda seria o mesmo? O centro do Rio sofre com o “bota-abaixo” para os Jogos Olímpicos. Demolições e remoções como nos velhos tempos. Mas a Rio Branco ainda não foi mexida. E ao olhar para o alto parecem até os mesmos edifícios de décadas atrás. Mas não, olhando pro chão vejo a multidão que é outra, diversa, com cartazes quase como se cada um tivesse feito o seu – mas em individualidades que se encontram, se somam, ainda são capazes de se solidarizar e, a palavra-chave, lutar. A multidão refaz o espaço público mas, mais do que isso, busca refazer a opinião pública, tão decisiva nesses tempos de brutal des-informação. E, se um rumo claro, agora, não está traçado, lutemos para que a liberdade desse debate seja constantemente ampliada – para que, efetivamente, a partir do que já andamos, um novo caminho possa ser feito ao caminhar.

Rogério Haesbaert

(também aqui)

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