«Estamos a entregar a nossa qualidade científica à Thompson Reuters (a empresa gestora dos JCRs)»

Saskia_Sassen_2012A dissidência académica e o compromisso científico

A socióloga Saskia Sassen trabalha à margem de falsas excelências e investigações banais

HOLM-DETLEV KÖHLER 14 JUN 2013 – El País

A atribuição do Prémio Príncipe das Astúrias à socióloga Saskia Sassen é uma grande notícia. Saskia Sassen é brilhante e navega contra a corrente num mundo de falsas excelências, avaliações burocráticas permanentes, produtos científicos banais e ensino universitário cada vez mais precário. Das suas muitas lições valiosas quero destacar três:

1. A globalização tem geografia, actores e lutas pelo poder. A ideologia dominante vende a globalização como um processo automático e imparável. Saskia Sassen, no entanto, ensina-nos que a globalização tem uma base territorial hierárquica liderada por um pequeno grupo de “cidades globais” que aglutinam as sedes centrais das corporações transnacionais e grupos financeiros, os centros de poder político, as elites de capital humano. Aí se concentram os beneficiários da globalização, mas também uma nova classe de explorados. Os ricos globalizados necessitam de mão-de-obra servil e barata para limpar as suas casas e escritórios, lavar as suas roupas, cuidar dos seus filhos e carros e vigiar as suas portas. A globalização, insiste Sassen, não gera mais riqueza, antes abre um fosso cada vez maior entre ricos e pobres, com a classe média a minguar.

A pressão polarizadora sente-se em todas as cidades globais, mas de forma muito desigual. Enquanto Madrid ou Manila, por exemplo, passam por um processo de desigualdade e exclusão social, com pouca capacidade de o corrigir, Oslo e Copenhaga minimizam esses efeitos através da manutenção de um Estado social bem dotado e articulado.

Por outro lado, Sassen também nos ensina que o investimento estrangeiro nos países em desenvolvimento não ajuda a manter e empregar a população local, antes destrói as economias tradicionais e promove a emigração e a desigualdade. A pressão da competitividade e dos agentes financeiros reduz o investimento em educação e bem-estar, sufoca o desenvolvimento e estimula ainda mais a emigração e a economia paralela.

Finalmente, Sassen contradiz a visão generalizada dos Estados-nação. Os Estados não desaparecem, antes se transformam num processo de “desnacionalização”. Políticas, bancos, universidades, infra-estruturas, etc., permanecem inseridos nas estruturas estatais, mas adoptando funções globalizantes. As grandes categorias sociais, o território, a autoridade e os direitos tinham sido nacionalizados em processos históricos longos e agora estão a ser desnacionalizados facilitando uma nova geografia global.

2. A reivindicação da Sociologia Histórica. Metodologicamente, Saskia Sassen volta à sociologia clássica e aos grandes estudos da Sociologia Histórica do século XX de autores como Elias, Moore, Skocpol ou Tilly. Opõe-se, assim, à tendência dominante das últimas três décadas de reduzir a sociologia a analisar fenómenos pontuais através de operações estatísticas com base em sondagens e a interpretações baseadas em teorias banais, como a escolha racional.

As modernas aglomerações urbanas formam para o olhar analítico de Sassen uma “zona heurística”, uma espécie de laboratório para identificar processos de mudança social de largo alcance. Mas para identificar estes processos deve “usar-se a história como uma experiência natural.” A globalização actual aparece, nesta perspectiva, como um complexo conjunto de transformações institucionais ou “capacidades”, referindo-se a Martha Nussbaum, desenvolvidas pelo sistema de Estados soberanos.

As transformações fundacionais desde a época nacional à global formam novas “lógicas organizativas”, uma combinação entre capacidades desenvolvidas na ordem anterior e novas capacidades emergentes. Durante a época nacional, as políticas fiscais, económicas e tecnológicas fortaleciam as nações e os seus cidadãos. Estes recursos do Estado-nação convertem-se hoje em capacidades da globalização, onde as políticas fiscais e económicas fortalecem as empresas transnacionais em detrimento das nações e dos cidadãos. Estes últimos reagem com distanciamento em relação aos seus Estados, não consideram os governos dos Estados seus (“Não nos representam!”), rompendo assim o contrato histórico da revolução burguesa entre Estado e cidadãos.

3. A terceira lição de Saskia Sassen leva-nos à futura quebra do nosso sistema académico-universitário. Uma das cientistas mais importantes do nosso tempo não conseguiu nenhum sexénio[1], nenhuma acreditação, face aos critérios das nossas agências de avaliação, que colocam sempre os mesmos critérios: três publicações JCR (Journal Citation Reports), nos últimos cinco anos. Sassen não tem nem uma, mas já publicou livros e relatórios, frutos de projectos de investigação reais e referências fundamentais para estudiosos comprometidos, publicou numerosos artigos nos principais meios de comunicação, etc., mas tem resistido a prática de encher o seu currículo com artigos padronizados sem interesse nem leitores para além dos círculos de amigos de citação mútua. Estamos a entregar a nossa qualidade científica à Thompson Reuters (empresa que administra os JCRS) tal como a classificação das nossas economias à Fitch, Moody’s e Standard & Poor’s. A padronização do nosso ensino universitário e da nossa produção científica conduzirá a universidades sem debates, investigações sem compromisso e um sistema académico sem pensamento.

Este tão merecido prémio para Saskia Sassen deixa-nos, portanto, com um sabor agridoce, porque pode representar um galardão para uma representante de uma raça em perigo de extinção.

Holm-Detlev Köhler é professor de Sociologia na Universidade de Oviedo.


[1] A avaliação da actividade de investigação dos docentes universitários e das escalas científicas do CSIC realizadas pelo CNEAI, em Espanha, realiza-se por períodos de seis anos (sexénios de investigação) e é feita voluntariamente pelo investigador interessado. Se se obtiver uma avaliação positiva consegue-se um complemento de produtividade incentivador, que visa promover o trabalho de pesquisa dos professores universitários, além de conseguir uma melhor divulgação nacional e internacional do seu trabalho (Nota minha).

Advertisements

About zenuno

http://despauterio.net
This entry was posted in 5dias. Bookmark the permalink.

7 Responses to «Estamos a entregar a nossa qualidade científica à Thompson Reuters (a empresa gestora dos JCRs)»

  1. Total itário says:

    A globalização é também o objectivo do movimento comunista internacionalista. Há que vê-la como uma oportunidade para resistir e derrubar o capitalismo. Lutar contra o capitalismo à escala nacional, tendo por aspiração uma entidade mítica (“um Portugal soberano”) como faz o PCP é atirar ao alvo errado. Isto porque se por acaso os partidos comunistas vencessem pelo mundo fora e lutassem pelo fim da globalização, de que modo é que poderíamos nós ter acesso ao petróleo e outros recursos que existem tão mal distribuídos? É simples: ia provavelmente terminar uma cisão do movimento como aconteceu entre a Rússia e a China há meio século.

    Posto isto, os “problemas” que a socióloga vê na globalização deveriam mais ser vistos como uma oportunidade para um genuíno movimento comunista: abolir as fronteiras pode e deve contribuir para centrar o discurso mais na CLASSE e menos na NAÇÃO.

    • António Paço says:

      O que me parece muito importante no artigo é a descrição do que está a acontecer no processo de avaliação do trabalho académico, que conduz em passo acelerado à ascensão das «vozes do dono» e a «universidades sem debates, investigações sem compromisso e um sistema académico sem pensamento». Sem concordar com tudo o que ela diz sobre como se processa a globalização, parece-me verdade que «as políticas fiscais e económicas fortalecem as empresas transnacionais em detrimento das nações e dos cidadãos». Eu acrescentaria que fortalecem também os Estados onde se «aglutinam as sedes centrais das corporações transnacionais e grupos financeiros, os centros de poder político, as elites de capital humano», para usar as palavras dela.
      Finalmente, quanto ao que diz sobre os problemas da globalização serem também «uma oportunidade para um genuíno movimento comunista: abolir as fronteiras pode e deve contribuir para centrar o discurso mais na CLASSE e menos na NAÇÃO», concordo só em parte. Digamos que a globalização é um grande ringue da luta de classes global. Os problemas (murros do adversário) podem dar lugar a oportunidades desde que o nosso lutador consiga esquivar os golpes e partir para o contra-ataque. Caso contrário, o grande ringue será apenas o local onde ficará KO. Nessa luta, usar algumas tácticas de defesa antigas (por exemplo, a defesa de alguns atributos de um Estado-nação soberano face à invasão do capital estrangeiro) pode ajudá-lo a manter-se de pé, enquanto prepara o contra-ataque.

      • Total itário says:

        Eu sei que o meu comentário veio um pouco offtopic. De acordo que a autora merece um bem-haja por decidir divulgar trabalho crítico à margem do mundo académico, mesmo que isso lhe impeça a sua ascensão no mesmo.

        Sem concordar com tudo o que ela diz sobre como se processa a globalização, parece-me verdade que «as políticas fiscais e económicas fortalecem as empresas transnacionais em detrimento das nações e dos cidadãos».

        É evidente que isto é verdade. Agora, a solução parece-me ter de incidir mais no “cidadão” do que na “nação”, precisamente porque as internacionalização do capital é uma realidade impossível de combater mesmo que a “nação” fique mais forte, impedindo por exemplo a “invasão do capital estrangeiro” de que fala. Essa pode ser a solução para a economia cubana, que ainda assim resiste graças às remessas não do “capital estrangeiro”, mas de “poupanças estrangeiras”. Com tudo isto quero dizer que não tenho soluções, mas parece-me que é hora de relançar um movimento sindicalista revolucionário à escala global (e porque não começarmos na europa?), se não chegar a uma vitória com sabor amargo, onde um Portugal soberano não conseguirá preparar contra-ataque coisa nenhuma.

  2. Mário says:

    ” A globalização, insiste Sassen, não gera mais riqueza, antes abre um fosso cada vez maior entre ricos e pobres, com a classe média a minguar.”

    isto é ignorância ou má fé.

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s