Para que serve um embaixador?

Nos últimos quinze anos tenho tido algumas experiências com embaixadas de Portugal, seja como emigrante ou empresário, mas aquele que identifico como o momento áureo da minha relação com o embaixadorismo-luso é a manhã em que, a quatro meses de umas eleições e encontrando-me a viver fora do país, um funcionário da embaixada local me convenceu que a única hipótese para exercer o meu direito de voto seria regressando ao país.
Contudo, ainda que tenha uma experiência pejada de insucessos, percebo a sua importância administrativa ainda que, felizmente, dela nunca tenha dependido. Quanto ao interesse nacional de continuarmos a manter as práticas dos actuais embaixadores já tenho mais dúvidas. A recente aventura académica do cidadão José Sócrates são mais um exemplo interessante. O embaixador Seixas da Costa, em notícias vindas a público não se inibiu de declarar que havia intercedido para que a candidatura do ex-primeiro ministro, depois de recusada, fosse aceite numa reputada instituição universitária francesa. Ora o que é curioso é que o representante dos interesses nacionais em França não se apercebe que, ainda que segundo o próprio se tenha circunscrito a facilitar contactos entre o cidadão e a instituição, a sua acção fere o direito constitucional de igualdade (não será de crer que estes bons serviços sejam prestados a todos os candidatos nacionais recusados por instituições francesas) sem que daí advenha nada de relevante para o interesse nacional.
Quem tem a oportunidade de conhecer a inteligente diplomacia económica e cultural que países como a França desenvolvem, por exemplo em Portugal, centrados na figura do embaixador e dinâmicos adidos culturais, a maioria do embaixadorismo-luso que conheço faz jus ao qualificativo mais simpático ouvido nos meandros da emigração que o classifica como “malta do croquete”.

Publicado a 18.05 no i

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5 Responses to Para que serve um embaixador?

  1. Fonseca-Statter says:

    Tive ocasião de conhecer um embaixador português que era o oposto (diametralmente oposto… até parecia um «vendedor de coisas de Portugal»)… Resultado: acabou por deixar de ser embaixador…

  2. Aquela gente não está com frio? Fazia-se uma fogueirinha e tal.

  3. O autor deste texto ou está distraído ou está de má fé. A escolha é dele. Nunca em nenhum lugar eu sugeri ou afirmei que tive alguma coisa a ver com a entrada do antigo primeiro-ministro José Sócrates para qualquer universidade, ao tempo em que fui embaixador português em França. Quem me conhece – e, felizmente, há muita gente que me conhece – sabe que sou avesso a “cunhas” e que não tenho quaisquer “telhados de vidro”. Mas, já agora, seria importante que o autor do texto – que já procurei desmentir, sem resposta, no jornal onde este comentário antes foi publicado – esclarecesse onde leu essa minha suposta declaração. Estou com uma certa curiosidade…

    • Tiago Mota Saraiva says:

      Exmo. Sr. Embaixador, agradeço o seu comentário que chegou bem mais célere que uma carta que enviei para a Embaixada de Portugal em Paris em 2007 a qual ainda aguarda resposta passados seis anos.
      Sobre os factos, passo a citar V. Exa.:

      “No que me toca, e sobre este assunto, os factos são muito simples e não admito que sejam contestados. Em inícios de Julho, o antigo Primeiro-ministro contactou o embaixador de Portugal, porque gostaria de obter uma informação sobre os cursos existentes em Paris, numa determinada área académica que estava a pensar frequentar. Foi-lhe proporcionado um contacto com dois professores universitários dessa área, que melhor o poderiam elucidar sobre o assunto, facto que, aliás, surgiu então referido na imprensa portuguesa. A intervenção do embaixador de Portugal neste processo começou e acabou ali. Só no final de Agosto, quando regressei a Paris, é que vim a saber que o Engº José Sócrates havia escolhido aquela escola e que nela fora admitido.”

      (este texto de resposta a uma notícia do CdM pode ser lido aqui: http://www.cmjornal.xl.pt/detalhe/noticias/exclusivo-cm/socrates-foi-recusado-duas-vezes-em-paris)

      No âmbito da minha liberdade para interpretar os factos que relata, V.Exa intercedeu proporcionando a um cidadão nacional os contactos de “dois professores universitários dessa área”. Como saberá melhor do que eu, houve outros dados que vieram a público sobre este processo a que não me refiro pois desconheço a sua veracidade. Mas para informar a minha opinião basta-me invocar a resposta de V.Exa.

      Atenciosamente
      Tiago Mota Saraiva

  4. Caro Dr Tiago da Mota Saraiva

    Não quero ocupar muito o seu espaço, mas há-de convir que a sua “liberdade para interpretar os factos” vai um pouco mais longe do que aquilo que eles autorizam.

    Com efeito, afirmou: “O embaixador Seixas da Costa, em notícias vindas a público não se inibiu de declarar que havia intercedido para que a candidatura do ex-primeiro ministro, depois de recusada, fosse aceite numa reputada instituição universitária francesa.”

    Ora eu havia escrito:

    “Foi-lhe proporcionado um contacto com dois professores universitários dessa área, que melhor o poderiam elucidar sobre o assunto, facto que, aliás, surgiu então referido na imprensa portuguesa.”.

    Quero esclarecer, o que talvez não saiba, que fui eu próprio que confirmei a um jornalista da revista “Sábado”, sem o menor problema porque me habituei a jogar sempre “com as cartas sobre a mesa”, que havia proporcionado, em inícios de julho de 2011, um contacto ao engº Sócrates para se informar sobre os cursos existentes em Paris na área que pretendia frequentar.

    Acharia normal que, sendo uma embaixada contactada por um antigo primeiro-ministro do país, esta se recusasse a proporcionar-lhe acesso a alguém que lhe pudesse dar uma informação desta natureza? O que se passou depois, nomeadamente nos contactos do engº Sócrates possa ter tido com universidades, é-me completamente desconhecido. E, repito, nunca me foi pedido nem fiz a menor diligência junto de qualquer entidade para que o antigo primeiro-ministro fosse admitido em qualquer curso. Aliás, só vi a saber que frequentava “Sciences Po” no final de agosto, quando regressei de férias.

    É claro que é a minha palavra contra um boato, mas quem me conhece – e admito que não me conheça – sabe que nunca minto, até porque não tenho nada a esconder. Aliás, e se bem me recordo, “Sciences Po” divulgou publicamente uma informação dizendo ser destituída de qualquer fundamento a notícia segundo a qual a sua admissão do engº Sócrates tivera qualquer problema. Mas, uma vez mais, trata-se da palavra, desta vez da universidade, contra o boato. E cada um é livre de acreditar naquilo que quiser.

    Quanto à carta que enviou à Embaixada em Paris em 2007, nada lhe posso dizer. Eu só cheguei a Paris em 2009. O único desafio que lhe posso fazer é que tente encontrar alguém que se tenha dirigido a uma embaixada que eu tenha dirigido e que não tenha obtido uma resposta. Também não saberá, mas eu nunca “brinco” em serviço.

    Cordialmente

    Francisco Seixas da Costa

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