Não pagar o que não se deve

 da Gui

Na semana passada foi tornado público um estudo da Eurosondagem em que se revela que apenas 10% dos inquiridos concordam com a aplicação do programa da troika. Mas este não é o único dado surpreendente. Entre renegociar e rasgar o Memorando, as opiniões dividem-se, com uma curta vantagem para a segunda opção.
Numa versão simplista de quem papagueia a governação, estamos perante um país de aldrabões que não gostam de pagar as contas. Contudo, parece-me irreversível que a rejeição da troika, e de qualquer governo que a represente, tenderá a aumentar cada vez que se conheça melhor o teor da dívida pública ou dos juros a que o país está sujeito. Em boa verdade, a única opção séria e racional que consigo colocar é a diferenciação entre dívida legítima e ilegítima, a rejeição liminar de juros especulativos e o início da responsabilização financeira das instituições e governantes que lucraram com a progressiva destruição da economia e do tecido produtivo.
Sempre rejeitei a tese desresponsabilizadora de que o governo e a troika andarão alheados da realidade. Mais: a história recente das últimas décadas devia-nos fazer ver de uma forma mais clara que os tempos que vivemos em Portugal são tempos extraordinários para a acumulação de capital, a par da destruição de direitos, liberdades e garantias conquistados ao longo de décadas – e um obstáculo a esses processos de acumulação.
O Conselho de Estado foi mais um decrépito número, personificado pelos homens do poder das últimas décadas, que expressa a imagem de uma democracia que se vai esgotando, pela mão de uma maioria, um governo e um Presidente que bailam sobre o cadáver do seu povo e aldrabam até o mais miserável relato de uma reunião.

Publicado no i a 25 de Maio

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5 Responses to Não pagar o que não se deve

  1. hui says:

    Prisão com eles, e expropriação dos bens que eles tiraram ou foram pagos pelos ‘trabalhinhos’ por eles feitos! Para os principais, direito à pena capital pq, crimes contra a humanidade! Porreiro pá,é um tiro nos cornos nesses fdp!!!!

  2. Samuel B says:

    Gosto principalmente da última frase: “Juros agiotas”…
    Fui ver ao dicionário e encontrei o seguinte:
    Agiotar:
    Exercer agiotagem.
    Fazer especulação com valores financeiros.
    Agiota:
    Que ou quem pratica a agiotagem. = USURÁRIO
    Que ou quem empresta dinheiro a juros. = PRESTAMISTA
    Que ou quem é muito apegado ao dinheiro. = AVARO

    E agora é que fiquei confuso com a mensagem: Afinal queremos o quê?
    Que se empreste dinherio sem juros?
    Ou que sejamos mais pegados ao dinheiro?

    Se a resposta é a primeira, então os meus caros devem ser daqueles que dormem com um olho aberto na noite de 24 de Dezembro… a ver se finalmente o vêm!!!!
    Se a resposta é a segunda, então os meus caros são bipolares porque se há uma coisa que os comuno, comumg, comunin… são é gastadores!!!!

    Fora de brincadeira, porque que é que não saiem do dogma a que estão presos, tal como o buraco que não para de ser escavado por aqueles que têm a missão de nos tirar dele (!?!?!?!?), e fazem o favor de apresentar propostas coincidentes com o mundo que temos e não com o mundo que idealizam?

    Não só eram levados mais a sério como até, quiça, os poderiam levar a essa utopia paraque tanto lutam?

    Fica a sugestão! 🙂

    Abraço a todos e especialmente a esse leitor assiduo (agora!!) de Friedrich Hayek.

    Adeeeeeus

  3. Carlos says:

    Os mercados é que são insaciáveis? O estado é que gasta e depois não quer pagar.

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