Martim e Gonçalves, a música da troika

A direita moveu-se em peso para dizer uma coisa: “vozes como a da Raquel, os jornalistas devem amedrontar-se e abster-se de dar visibilidade”, porque ela enche, com nível e respostas concretas, qualquer programa, mostrando a essência das coisas para lá dos nomes e a radicalidade que os tempos exigem que se traduza em verdade: “não vamos sair da crise juntos”. Sem conflito social não haverá paz e só sobrará a miséria.

Esquerda na TV? É o choque, o horror. – “assustem-se senhores jornalistas!”, “tenham muito medo!” – só se pode dizer que é preciso criar emprego mesmo que para o efeito não se diga como, e sobre o assunto se limitem a papaguear, vezes sem conta, a receita que nos conduziu ao desastre e à destruição do emprego. José Manuel Fernandes, bantustões da banca, Camilo Lourenço, Insurgentes e Basfémios, uma mão cheia de empresas que há muito congelaram o salário mínimo como forma de maximizar os seus lucros, recheadas de empreendedores ignorantes, meteram a circular um vídeo que está a ter agora um contra ataque massivo, em muitos casos de grande nível – onde vários dos vídeos que a Raquel tem feito são usados para dar expressão à indignação contra a indignidade e a ideologia dominante. Nunca se falou tanto na indignidade que é viver com menos de 500 euros nem a hegemonia esclavagista que o trabalho mal assalariado significa na vida das pessoas.

Sobram os saudosistas. Da música e dos costumes, tão bem enraizados no país da Amália “pobre mas com fartura de carinho”, que ainda dura desde o tempo de Salazar, ou da Floribela “pobre mas rica em sonhos”. E passam a vida à procura dos idiotas úteis que lhes ilustrem um quadro no qual já ninguém acredita e que só consegue pintar quem tem, na retaguarda, a protecção de classe que lhes garante o investimento. Um Gonçalves ontem, um Martim hoje, são simultaneamente o sujeito para o cartaz da propaganda e o bobo da corte. Martim e Gonçalves, quais Dj’s da troika e de Passos Coelho, deram o mote: os desempregados não se safam porque não são empreendedores. Uma versão neo malthusiana da eugenia social: os pobres são pobres porque são pobres e é a isso que se devem habituar, tão calados quanto possível, tão cheios de ilusões quanto a máquina da sua propaganda consiga criar. O azar, por certo, nesta história toda, é que o mal menor está cada vez pior, e todos sabem o que fazem as pessoas quando a insuportabilidade da vida lhes corta as asas dos sonhos. Quanto mais altas forem as expectativas, maior será o grito de revolta. Podem bem continuar.

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18 Responses to Martim e Gonçalves, a música da troika

  1. Gonçalo says:

    Acho que sobre Martim e a Doutora Raquel o texto do Daniel Oliveira no expresso online acerca na mouche.

    Tenho pena de chegar aqui a ler uma série de textos que referem “a Direita”, num tom provocatório e que foge ao essencial de tudo o que se devia discutir.

    As pessoas estão-se a cagar para a “Direita” e para a “Esquerda”, meus caros.
    Pensem nisso.

  2. Não acredito says:

    Podes te queixar, mas a verdade é que como se diz, em linguagem de direita ” A Raquel foi à lã e saiu de lá tosquiada”. E todos os países começam por ser pobres,e depois se trabalharem muito enriquecem, é o que está a acontecer com a China Comunista, e é o que vai acontecer com os países asiaticos. Nós por cá, se continuarmos com este teu discurso acima, acabamos todos pobres e sem a solidariedade das classes trabalhadoras. E é assim que começa o inicio da exploração capitalista.

    • Carlos Carapeto says:

      “E todos os países começam por ser pobres,e depois se trabalharem muito enriquecem, é o que está a acontecer com a China Comunista, e é o que vai acontecer com os países asiaticos. ”

      Outro Português com a mania das descobertas.

      Porque será que o Paquistão oferece há decadas a mão de obra escrava dos seus cidadãos incluindo crianças e não consegue sair da pobreza?

      A Tailândia oferece tudo, até jovens para a prostituição, se a pobreza não tem aumentado (dúvido) também não tem diminuido.
      A Indonésia, Filipinas, India, Bangladesh não é diferente.

      Informe-se melhor que chega á conclusão que a China tem enriquecido por outros motivos.
      Sabe quem custeia as instalações fabris? Qual o preço da energia? Dos transportes?
      Isso tem que ter garantias e retornos. Sabe quais? Depois digo-lhe!

      Portanto é uma falacia atribuir o desenvolvimento Chinês apenas aos baixos salários.
      Quem faz uso desse esteriótipo talvez ignore que o ordenado minimo na China é estipulado por os governos provinciais e o mais baixo em Maio de 2012 já ultrapassava os cem (100) €.
      Portanto a Raquel na televisão faltou à verdade, não sei se consciente se inconscientemente.

      Que fez uma negação da verdade com objetivos puramente politicos quando referiu os 2€/dia não podem restar quisquer dúvidas.

      Porque será que omitiu que no Bangladesh nem chega a um (1) € diário. Porque não denunciou a escravatura infantil na India?

      Bem; são perguntas que só ela pode responder e questões dessas não está interessada esclarecer.

  3. Dezperado says:

    Voce nunca pensou em ser realizador de cinema??? é que tem jeito para isso….a ficção é dos seus pontos fortes.

    ““vozes como a da Raquel, os jornalistas devem amedrontar-se e abster-se de dar visibilidade”, porque ela enche, com nível e respostas concretas, qualquer programa, mostrando a essência das coisas para lá dos nomes e a radicalidade que os tempos exigem que se traduza em verdade: “não vamos sair da crise juntos”

    Uiiiiii…anda tudo com medo da Raquel….os putos de 16 anos que se preparem melhor para o debate.

  4. C Vidal says:

    Duvido que o futuro deste blogue passe por ser a “Igreja Raquel Varela”. E não é certo que esse seja o futuro da contestação social revolucionária. Mas, ó Renato, cada um faz o que pode e a mais não é obrigado. Se apenas se fala aqui em R Varela, isso, a prazo, passa por ser o único tema nacional (aqui: noutros lados é o FC Porto, noutros é o Benfica…..). Se não há outro……….. Então há só esse. O problema é o resto. E se isso dá audiências à casa, tanto melhor! (Ou pior!)

    • O problema do que não se fala está em quem não fala. Ou não será assim?

      • C Vidal says:

        Ora, ora, Renato, eu prefiro (por agora) falar para poucos do que falar numa igreja para devotos. Vamos lá a ver, e também o 5dias não é o único lugar da “fala” e enunciação crítica, digamos. Tornou-se um templo e a fé não nos salva.

      • Não. Naturalmente. Por isso mesmo a fé, sobretudo a de outrem, não devia ter sido suficiente para que a tua “fale para poucos”. Deixa lá a birra e volta lá a trazer vinho para a tasca.

  5. Já dizia o salazarento cerejeira (o povo quanto mais pobre mais humilde), e pelos vistos anda por aí muito idiota que pensa ser o salário de 485€ e o horário de 40 horas (e mais) demasiado, pelo que deveria ser reduzido, pois os empreendedores e os empresários estão a viver abaixo das suas possibilidades. Enfim, os cais ladram mas a caravana passa.

  6. Zé Povinho says:

    Falem antes do palhaço…

  7. Gentleman says:

    “só se pode dizer que é preciso criar emprego mesmo que para o efeito não se diga como”

    E porventura a Raquel Varela diz como?

  8. Cinderela do empreendedorismo says:

  9. henrique pereira dos santos says:

    Renato, quer discutir a sério modelos de produção alternativos?
    Podemos começar por um exemplo concreto, diferente das camisolas do Martim, por exemplo uma revista, por exemplo, a revista Rubra.
    A quanto é paga a hora de trabalho dos que a produzem ou produziram?
    A partir daí discutimos as implicações do seu modelo de produção.
    E espero que não me responda como toda a gente que trabalha no mercado da caridade, que não é uma actividade comercial e que não pode ser medida pelas relações mercantilistas, porque essa é a justificação para salários miseráveis, seja no PC, seja em muitas instituições de solidariedade social.
    Se há produção, deve haver justa remuneração do trabalho.
    Penso que nisto estamos de acordo.
    henrique pereira dos santos

  10. Tiago says:

    Sinceramente tenho uma visão muito distinta sobre o diálogo entre Martim e Raquel Varela. Como dois fantoches do capital que são, um insconciemente e outra conscientemente, procuraram cumprir o seu papel na tentativa de perpetuação do capitalismo.

    Imagine-se que após as tiradas de Martim, a primeira coisa que a Raquel Varela se lembra de arranjar uma forma de bater na China, porque na mente ignorante de muitos portugueses China = Comunismo = PCP. É a tirada óbvia de ataque anti-comunista primária, quando o que exigia de resposta ao miúdo era uma postura crítica contra o capital, a alienação que produz, a tentativa de transferir a culpa da miséria que existe para os que sofrem com ela.

    É curioso pensar que, de tantos e tantos comentários que se fazem neste blog, em que duas ou três pessoas se arrogam o direito de criticar tudo e todos, colocando-se num pedestal de visionários revolucionários contra os revisionistas, conversadores, e outros adjectivos, tudo o que cheire a PCP.

    Curioso porquê? Porque nenhum refere o facto de a Raquel Varela andar de televisão em televisão a fazer comentários, apresentar livros, falar sobre o Estado Social, ser convidada para o “Prós e Prós”, enquanto que militantes da Juventude Comunista Portuguesa e membros da Interjovem, estrutura juvenial da CGTP-IN, estarem presentes no mesmo programa e não terem sido autorizados a falar.

    Curiosamente a revolucionária de serviço, convidada pelo capital (mas que obviamente aterroriza com as suas palavras de ordem o próprio capital… tenham dó), não referiu uma palavra sobre esta censura, preferindo ouvir empreendor atrás de empreendor, sem nunca fazer menção aos jovens comunistas e/ou membros do movimento sindical unitário de classe que gritavam do público para que pudessem falar.

    E porquê? É simples, antes do combate ao capital está o ódio ao PCP, à CGTP-IN. E daí preferir participar na censura aos jovens comunistas que iriam dar uma intervenção de classe a quem assistia ao programa.

    É óbvio que ela sabe porque o fez. E é óbvio que também outros o sabem, mas preferem assobiar para o lado e ajudar a espivitar os Martins que por aí andam, para não falar do essencial, a Esquerda não esteve representada neste debate sobre a juventude, porque o capital não quer que sejam apresentadas alternativas ao povo português.

    Faz parte do jogo, venceremos na mesma.

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