A Esquerda Lamechas

Hoje foi anunciada uma recolha de alimentos para os trabalhadores da CARRIS. Mais, ficámos a saber, sem espanto, que os únicos empregos criados são de salários abaixo do salário mínimo, ou seja, o salário mínimo está a descer para algo em torno dos 300 euros de facto. Há 10% dos portugueses que trabalha mas não ganha o suficiente para viver – nos meios académicos na Europa a coisa começa a ser tão comum que onde trabalho já se cunhou o conceito  – working poor, os que trabalham mas ganham abaixo do limiar de subsistência. Rui Mauro Marini chamou-lhe no Brasil há muitos anos «super exploração», isto é, a força de trabalho ao fim do dia não é reposta (não recebe o suficiente para no dia seguinte conseguir ir trabalhar) mas exaurida. O resto do salário é completado com o recurso à caridade que usa os fundos dos próprios trabalhadores (segurança social).

Estive nas últimas semanas em vários debates com Paulo Morais, membro do PSD, vice presidente da TI, onde em todos os debates, depois de uma exposição absolutamente brilhante, clara e detalhada sobre a corrupção (recordo que é investigador de matemática na FEUP), pede, entre outras medidas, a expropriação de todos os bens dos «cavalheiros que nos andaram a roubar» a exigência que as casas dos fundos imobiliários paguem IMI (seria quase 1% do PIB) e disse-o, para quem queria ouvir, o património não usado deve ser expropriado: use it or lose it. Disse mesmo que em vez de incomodar 3 milhões de pessoas o Governo tem que incomodar 3 pessoas – António Mota, Ricardo Espírito Santo e Vasco Melo, detentores de 95% das PPPs. Terminou a exposição explicando que no passado já tiveram que se cortar cabeças e que muitos peixes pequenos alimentam um peixe grande mas basta um peixe grande para dar alimento a muitos peixes pequenos. Tudo isto PM já o disse, sem rodeios e frases de pompa, na TV e nos jornais dezenas de vezes.

É totalmente inútil virem os militantes do BE e do PCP e do PS dizerem que há algo semelhante nos seus programas porque nos seus programas há de tudo, como na farmácia, dizia o velho ditado. A questão é, em que campanha se fixam estas organizações e se o fazem com um estilo ofensivo, aguerrido, que deixa esperança às pessoas ou se o fazem neste tom lamechas e de queixume que é o mote dos dirigentes políticos como Louçã e Jerónimo de Sousa. Este fado dos derrotados, que é óbvio que não estão convencidos que podem vencer e portanto não convencem ninguém que é possível ganhar. Um fado que me faz pensar se é só um problema de estilo ou se é Paulo Morais que foi para a esquerda enquanto a esquerda foi para direita.

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27 Responses to A Esquerda Lamechas

  1. Francisco d'Oliveira Raposo says:

    Na mouche

  2. falcão says:

    É verdade, é preocupante ver esta esquerda tão fiel ao soporífero parlamentar e tão politicamente correcta, integrar-se tão bem no espectáculo do tédio em que se transformou o debate na assembleia.

  3. artur almeida says:

    Dentro de cemitérios há sempre umas Flores. Umas são naturais. Outras Plástico. Terá de se interrogar o que foi feito na CM Porto. Talvez fiquem espantados/as.

  4. Braaaaaavo Raquel! É isso mesmo: não ter medo de agitar as águas. Que bem que colocas a questão em relação ao Paulo Morais, porque foi dele que ouvi essa outro dia pela primeira vez desde o 25 de Abril: expropriação. Sem medos! “Use it r lose it!” É claro como água. E quanto ao resto não podias ser mais certeira, é também por essa razão que me enxofro quando vejo bandeiras pretas nas manifs, porque a revolta não se faz a negro mas a rubro ;).
    Parabéns. Vou linkar e difundir isto.
    P.S. – Sei que estiveste na Madeira com o Vítor Sousa. Honra-me conhecê-lo. É um rapaz brilhante de quem a escrita me fez amigo. Descobri-o por acaso nesta Rubra. Gosto dele.

  5. Até o Pacheco Pereira parece estar mais à esquerda hoje em dia do que os partidos de ‘esquerda’, nomeadamente ao apelar à desobediência civil.

    • Armando Cerqueira says:

      Raquel,

      não posso estar mais de acordo consigo.

      Se não se ‘consegue’ (os partidos do arco parlamentar…) resolver o problema neste quadro constitucional, então é necessário… (recordo-me de antigos textos marxistas, e da imprensa clandestina nos tempos de Salazar e de Caetano).

      Um abraço amigo,

      Armando Cerqueira

  6. Vitória says:

    às vezes até gosto do que esta Sra diz, mas quando ela mete no mesmo saco BE, PCP e PS, perde logo a razão toda. Ou ela acha que são todos a mesma esquerda? E que tom deve usar a esquerda (a verdadeira)? O tom do Paulo Morais? quando está zangado com o PSD usa um quando está amigo usa outro? Há uma esquerda que usa sempre o mesmo tom, o tom da luta , da denuncia da injustiça social, há quem lhe chame cassete, eu chamo-lhe lealdade aos trabalhadores, às classes desfavorecidas.

  7. João. says:

    A senhorita ao fim do post devolve o domínio da questão ao pessoal da direita. O resto é conversa. Se para você não há no PCP uma opção, se não há à esquerda uma opção constituída então vale o que está no governo, pelo menos até que se constitua uma outra opção de esquerda que seja, segundo os critérios da autora, mais credível e menos lamechas. É que eu olho para o panorama nacional e não vejo no horizonte nenhuma opção de esquerda para além daquelas que estão constituídas e portanto para que uma nova possa aparecer não só levará anos como ainda não se saberá ao certo se é a que virá para convencer o povo. Portanto em resumo se eu fosse o tal Paulo Morais, o direitista com quem a senhorita tanto debateu estes dias, eu estaria muito agradecido pelo seu post.

  8. Lima says:

    O problema dos portugues esteve nas escolhas que fizeram para serem governados ou melhor apostaram na abstençao que chegou a 42% nas ultimas eleiçoes e noutras anteriores esta gente que segue este caminho de nada querer e nada escolher elege gente igual a si , anda tudo iludido com manifestaçoes anti-troika e afins enquanto isto caminha para o abismo. Nao estara na hora de pensar bem e correr com este lixo do PS, PSD/CDS do mapa usando ja as proximas eleiçoes autarquicas?

  9. 25sempre25 says:

    Posso nem estar a ver a coisa correctamente, mas tenho dificuldade em almejar o que faz um ilustre militante do PSD parecer um homem de esquerda, como é o caso do senhor PM. Há dúzias de militantes do PSD que não fazem outra coisa que não seja criticar o PSD. Queremos nomes? Ferreira Leite, Morais Sarmento, Pacheco Pereira, Marques Mendes, Paulo Rangel… E isso faz deles diferentes dos seus outros colegas de partido?

  10. Tiago says:

    A esquerda lamechas está na rua em luta. A esquerda a sério anda em colóquios com gente do psd. Paulo Morais, qual o seu passado? A esquerda lamechas, o PCP, nunca deixou de estar ao lado do povo, a esquerda a sério anda de mãos dadas com organizações do PS, como o APRE! Se partilhas o ideal da liberdade de expressão, deixa ao menos passar este comentário.

    • Raquel Varela says:

      Estimado Tiago
      Faço e fiz debates e conferências em universidades e para associações das mais diversas áreas políticas, incluindo, com muito gosto, sindicatos, incluindo como é óbvio sindicatos filiados na CGTP.
      Sobre essa ideia de que o PCP está na rua e portanto resiste, convenhamos que é mais complexo, pode-se sair à rua e não resistir, o que é cada vez mais o que se passa, creio.
      Cump
      Raquel

      • Tiago says:

        Rescisòes unilaterais de contratos das ppp, por exemplo, fazem parte das propostas do Paulo Morais? É que o PCP apresentou essa proposta na Assembleia há uma semana!!

        Cuta a perceber como dás o beneficio da duvida em relacao a diferencas de opi iao em relacao a gente da direita, e ao PCP é sempre a malhar.

        Um percurso natural. Afinal os grandes revolucionarios de ontem , o mrpp, preferia juntar-se ao ps nos sindicatos para derrotar os comunistas. O resultado em termos de accao de luta sindical viu-se qual foi.

        Um pormenor na análise da realidade da cgtp… que passa ao lado.

      • Raquel Varela says:

        Não espero nada do PSD, do PCP devia-se esperar muita coisa, mas tb não espero.

    • João. says:

      A Raquel prefere a esquerda que não existe. Essa esquerda que não existe em lado nenhum senão, como disse muito bem, em colóquios. Este pessoal não admite que a disciplina é uma categoria fundamental num partido de esquerda, não admite que é necessário hierarquia na luta, que é necessário algum centralismo, este pessoal como a Raquel, que me vai censurar o comentário como já censurou outro, quer apenas a esquerda para andar a exibir a sua personalidade na televisão. E mais, são perfeitos idiotas em termos políticos uma vez que a conversa deles é uma vitória para a direita.

      • Argala says:

        “Este pessoal não admite que a disciplina é uma categoria fundamental”

        Pois com certeza que é a disciplina é fundamental, mas é a disciplina revolucionária, não a disciplina reformista, legalista e pacifista.

  11. eduricardo says:

    Este novo alvo da sua admiração (Paulo Morais), à semelhança de Pacheco Pereira, esforça-se por dar nas vistas, através dum discurso que parece combater a direita, mas é emitido a partir dum posicionamento no lado direito da política.
    Quer-me parecer que a doutora Varela procura seguir, simetricamente, o exemplo, insistindo no combate aos partidos de esquerda através dum discurso que se posiciona no campo da esquerda.

    • Raquel Varela says:

      Todos uns perigosos «aventureiros», quem sabe mesmo « contra revolucionários» que não seguem a linha do partido (dos partidos), a qual, à esquerda, tem dado um sucesso a olhos vistos…

  12. Antonio Faria says:

    Estou tentado a considerar que os partidos todos sem excepção estão “travestidos”, e embarcaram no maldito carroucel neo-liberal. Falando em bom português, presentemente só vejo de um lado impotentes anastesiados pelo álcool e pela droga, e do outro lado uma corja de filhos da puta que apostam na morte da democracia e da Nação, à espera de um novo Reich!

  13. Que me interessa se os posicionamentos partidários são os mais “corretos”, se desse posicionamento nada sobra que altere uma situação? Não tivesse sido a ousadia, e a falta de ”correção” de quem o fez, e o Maio de 68 teria sido uma coisa institucionalizada da qual não sentiríamos hoje ainda as ondas. É apenas isto, e só, o que está em causa. Vivemos novamente momentos que nos vão ultrapassar e é preciso estar disponível para os perceber. Não se trata de ferir ninguém, até porque vamos precisar de ser muitos, mas atenção, se uma multidão carregar contra a porta da Bastilha vai morrer muita gente esmagada. Por mim, louvo sempre a loucura das elites que avançam por terem o condão de ver mais à frente do que eu: são elas que abrem as portas.

  14. Augusto says:

    O APRE é muito mais que uma organização de reformados do PS, só por ignorãncia ou sectarismo, se escreve semelhante patacoada, talvez porque não a controlam , como controlam o MURPI, ou a nova criação , o tal movimento de reformados da CGTP criado á pressa.

    Em relação ao que escreveu a Raquel Varela , só uma chamada de atenção, o sr Morais foi vereador do PSD com Rui Rio, numa altura em que o PCP apoiava na Camara o PSD, é verdade que saiu denunciando o que se passava com os negócios escuros da Camara do Porto, e tem até agora tido uma postura de denuncias, mas só isso.

    Não basta denuncias é necessário ir á luta, e isso não vejo da parte do sr Morais, aliás denuncias temos muitas desde os Homens da Luta ao Marinho Pinto, passando pela Cassandra Medina Carreira, sem esquecer os barões do PSD , que já preparam as noite dos facas longas, para fazerem a folha ao Coelho e comitiva, se se ficar só nas denuncias não vamos lá, não acha cara Raquel Varela?

    • Tiago says:

      Peço desculpa mas este comentário é hilariante. Primeiro “O APRE é muito mais que uma organização de reformados do PS”, admitindo que de facto é uma criação do PS. É óbvio que não têm só militantes do PS, não foi isso que eu disse.

      “ou a nova criação , o tal movimento de reformados da CGTP criado á pressa” – Há quem tenha chegado à luta há um dia e diga coisas como esta. Já existia a Inter-Reformados e a líder do APRE anda a chuchar no Sócrates.

      O que te custa é reconhecer que a senhora do APRE pôs o pé na poça… e revelou as intenções do movimento. Andam a reboque do que o Secretariado do PS decide,ora exigem demissão ora não.

      Mas é óbvio, que como sempre, os grandes revolucionários prefiram aliar-se ao PS do que ao PCP… há mais de um século de história recente do movimento operário que ensina, que a pequena burguesia destroçada pelo grande capital, radicaliza o discurso, mas mantém o ódio à classe trabalhadora e aos seus partidos.

  15. Don Luka says:

    Mais do que lamechas, a esquerda é inconsequente e contraditória. Desde o BE cujo único sonho é aliar-se à tragédia hipócrita que é o PS, até às dezenas de manifestações anunciadas com trombetas de vitória, continuando o governo a malhar como lhe apetece enquanto sorri com a comiseração de quem pensa “os cães ladram e a caravana passa”. O que faz falta? Faz falta um grupo de pessoas que lave o espírito dos clichés bolorentos do sec XX e consiga unir, por oposição a propagandear. Faz falta um líder à medida do sec XXI.

  16. eduricardo says:

    Não vejo qualquer relação entre o meu comentário e a resposta que se lhe lhe seguiu.
    Não falei de desvios a linhas nem de aventureiros. Falei apenas de exibicionistas, à esquerda e à dreita.
    Nada perigosos; quando muito, vaidosos

  17. Xavier Brandão says:

    Não me parece que o Paulo Morais seja investigador de Matemática (ou outra coisa qualquer) na FEUP. Procurei pelo seu nome no site da instituição, e nada.
    Se se fizer uma pesquisa no google com as palavras “paulo morais feup”, o que aparece no site da FEUP é um anúncio sobre uma conferência sobre a corrupção dada pelo Paulo Morais. Nada mais.

  18. Xavier Brandão says:

    É esta a notícia (com uma pequena bografia) apresentada no site da FEUP:

    ” No dia 24 de Novembro, das 11h00 às 12h30, e no dia 26 de Novembro, das 9h00 às 10h30, Paulo Morais irá realizar na FEUP uma conferência-debate sobre “Corrupção, dificuldades e instrumentos de combate à corrupção”. Esta sessão irá decorrer no âmbito das aulas teóricas de “Introdução aos Processos de Fabrico e Desenvolvimento de Produto”.

    Paulo Morais é docente do Ensino Superior, nas áreas da Estatística e Matemática. É director do Instituto de Estudos Eleitorais da Universidade Lusófona do Porto e da licenciatura em Ciência Política e Estudos Eleitorais da ULP. É também vice-Presidente da TIAC (representação portuguesa da Transparency International) e membro do grupo de trabalho para a revisão do Índice de Percepção da Corrupção, levada a cabo pela sede da TI em Berlim.

    Membro da Assembleia Inter Municipal da Comunidade Minho-Lima e da Assembleia Municipal de Ponte de Lima, Paulo Morais também preside à Mesa da AG da Associação Portugal-Moçambique e tem desenvolvido investigação na área das sondagens, sistemas eleitorais, desenvolvimento e qualidade de vida.
    Paulo Morais foi Presidente da Associação de Estudantes da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto, trabalhou no sector empresarial privado e exerceu diversos cargos dirigentes no PSD. Foi vice-presidente da Câmara Municipal do Porto, de 2002 a 2005, tendo sido responsável pelos pelouros do Urbanismo, Acção Social e Habitação. Na sequência dessa sua experiência, tem denunciado activamente crimes urbanísticos e os meandros da corrupção associados a este domínio. “

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