25 de Abril de 1974-1975: «O PCP contra o sectarismo dos seus militantes»

O extraordinário crescimento do PCP entre 1974 e 1975 – de um partido de vanguarda para um partido de massas – tornava inevitável a resolução dos problemas de organização interna, a saber, a formação e estruturação dos quadros, a sua política junto dos sindicatos e comissões de trabalhadores; o sectarismo e/ou o desrespeito pelas decisões do partido; a implantação política nos locais onde a votação tinha sido escassa; a organização partidária dos pequenos e médios camponeses; a recolha de fundos. A formação dos quadros é uma prioridade Uma análise do boletim de organização interna do PCP, O Militante, ilustra que o PCP não era um partido monolítico.

Muitos quadros e militantes de base do PCP desrespeitavam durante 1974-1975, no terreno, as decisões da direcção do PCP, ao ponto de haver recusa de recrutamento por parte da direcção «por falta de camaradas capazes de controlar novos militantes»[1]. O Militante inaugura a sua primeira série na legalidade afirmando que: «Com o grande crescimento do partido surgem, como era inevitável, algumas dificuldades temporárias que há que analisar e superar o mais rapidamente possível. Vejamos alguns exemplos: camaradas de uma célula que assistem e participam na definição da orientação do partido para uma determinada luta agem depois como se não tivesse ficado decidida qualquer orientação, ignorando a disciplina do partido, não levando à prática as decisões do seu organismo. Outros camaradas, devido à falta de preparação política, desprestigiam o partido através das formas incorrectas que empregam e da argumentação errada que utilizam na discussão de um determinado problema. Outros ainda sentem-se impotentes para rebater a demagogia e os ‘chavões’ utilizados pelos radicalistas. Camaradas responsáveis por alguns sectores justificam o pouco recrutamento realizado pelo facto de qualquer novo recrutamento só servir para tornar cada vez maior o número de camaradas que não estão organizados»[2].

A direcção preocupa-se também com o sectarismo dos militantes, sobretudo a partir de 1975 e da extensão do controle operário – fala-se mesmo «num certo espírito de seita»[3] – quer em relação às comissões de trabalhadores, quer em relação a determinados sectores profissionais como os empregados e funcionários. Na verdade, esse sectarismo tinha sido construído pela oposição do partido no início da revolução às comissões de trabalhadores, mas a direcção do PCP mostra agora uma clara vontade de mudar esta política e ganhar a direcção das comissões de trabalhadores. O PCP sentia que parte da sua base, real e potencial, se descolava do partido, provavelmente em direcção quer ao PS quer à extrema-esquerda, o que o preocupava. Propõe neste sentido uma «batalha interna contra o sectarismo»[4], e as páginas do boletim organizativo voltam frequentemente a este ponto.

Esta preocupação vem acompanhada de uma análise muito realista sobre a relação do partido com o movimento operário, que não é acolhida nas páginas do Avante!, mas encarada com serenidade n’ O Militante. Aí se escreve que, apesar dos grandes êxitos alcançados pelo movimento sindical, há dificuldades que se reflectiram nos resultados eleitorais nos locais de trabalho. Essas dificuldades são enumeradas pelo PCP: «um grande sectarismo, que se manifesta na actuação das estruturas sindicais caracterizado por um trabalho fechado»; «A posição, aliás justa, da Intersindical e de sindicatos, de não apoiarem certas greves e outras lutas por reivindicação irrealistas (…) levou a Inter e os sindicatos visados a um certo defensismo na iniciativa nem sempre dando resposta a preocupações justas dos trabalhadores»; o afastamento dos sindicatos das estruturas federativas, mas também das estruturas de base; métodos burocratizados de trabalho; carência de quadros; campanha anticomunista e ainda a «incompreensão de certas organizações, de dirigentes destacados e outros militantes sindicais sobre as comissões de trabalhadores e a oposição a estas estruturas unitárias, de que têm resultado prejuízos para a unidade dos trabalhadores»[5].

Artigo 13  – Este artigo faz parte de uma  série: 25 Artigos para 25 Dias, 2013.


[1]O Militante, Série IV, Junho de 1975, n.º 1, pp. 2 e 15.

[2]O Militante, Série IV, n.º 1, Junho de 1975, pp. 2 e 15.

[3] O Militante, Série IV, n.º 4, Outubro de 1975, p. 14.

[4] O Militante, Série IV, Outubro de 1975, n.º 4, p. 13.

[5] O Militante, Série IV, Outubro de 1975, n.º 4, pp. 16 e 17.

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4 Responses to 25 de Abril de 1974-1975: «O PCP contra o sectarismo dos seus militantes»

  1. Cheguei (regressei) a Portugal em Agosto de 1981 e, a partir de certa altura (inicios de 1982…). comecei a ficar com a sensação de que alguns dos colegas de trabalho que acontecia serem também militantes do PCP, estavam no partido não por uma «consciência de classe» (ainda que «bem pagos» também estavam do lado «menos» do processo global de exploração), mas sim por razões de «ética social»… Parecia-me que se tratava de «pessoas de bem, indignadas com a “injustiça” na distribuição da iqueza social».
    Quando lhes falava de «tendência decrescente da taxa de lucro» e de quais as consequências disso para o funcionamento do sistema capitalista, parecia que estava a falar de questões «esotéricas» e sem relevância para a sua militância… E estou a falar de militantes com elevada formação técnica e profissional.
    Por isso me parece que este(s) artigo(s) de Raquel Varela – também para isso servem os historiadores de profissão – é capaz de estar a pôr «o dedo na ferida» da relativa dificuldade de o PCP alargar a sua base social de apoio…

  2. Bento says:

    O título que escolheu apesar de estar entre aspas não corresponde à verdade.
    Ha que ser rigoroso.

  3. Bento says:

    E o fonsecastater demonstra ter consciência de classe militando no PCP?

    • E o bento pergunta isso porquê?…
      Sem sarcasmo… Apenas curiosidade…
      Ou seja, que é que o meu comentário tem a ver com a substância da pergunta que o bento aqui faz?

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