Vamos refodê-los

A 1ª vez que senti a falta das palavras foi no 1º dia de escola. A minha companheira de carteira chama-se Rosa, era muito mais pequena que eu e não falava. Eu não senti que isso fosse possível, uma criança não ter voz. Então comecei a desenhar para lhe perguntar porque é que ela não falava.

Depois de muitos desenhos, ela desenhou um alguidar, água, uma bebé lá dentro e fumo a sair. Eu perguntei-lhe se a bebé estava morta e ela disse que sim com a cabeça. Quando a campainha anunciou a nossa libertação, corremos para a rua. Dei por mim a ganhar a coragem e a dizer as palavras: quem matou a bebé? Foi na rua que eu ouvi finalmente a voz da Rosa. Ela abriu os olhos e saiu-lhe da boca uma voz de quem tinha sido calada pelo horror. A violência e a ignorância silenciam,sobretudo as crianças. Foi na rua que a voz da Rosa saiu sobre a forma dapalavra mais pequena: eu.

Nesse dia nofinal das aulas a Rosa levou-me a casa dela.

Estávamos no início da nossa jovem e precária democracia em 1979.

No granito onde se esculpem as vidas das pessoas para além da sua vontade, ainda se sentiam as marcas de 48 anos de ditadura, fascismo, injustiça.

A casa da Rosa era um buraco negro, numa ilha na Ribeira, igual a tantas ilhas no grande Porto.

A Rosa entrou, levou-me por um corredor sem luz, foi apontando para as portas e foi dizendo:-a-avós; outra porta, ti-ti-os, primos, tudo no mesmo quarto; m-mãe,p-pai, irmão, e-eu, nós. E nós era um quarto sem luz atravancado com uma cama de casal, um beliche para duas crianças, arrumos, caixas, roupa, peluches e uma boneca. Não vi uma janela. Não vi uma casa de banho.

A Rosa despiua boneca e pô-la na beira da cama. E depois foi à cozinha, encheu um panelão com água, pô-lo ao lume no fogão, ficou a olhar até a água ferver, desligou o lume e com uma força inimaginável para aquele corpinho magro carregou o panelão até ao quarto e pô-lo na beira da cama. Onde estava a boneca. Depois voltou para a cozinha, pegou noutra panela, enche de água fria e nesse momento fecha a torneira e dá um grito sem voz, sem palavras, larga a panela, vai a correr parao quarto, mete as mãos no panelão com água a ferver e tira de lá a bebé. A bebé que já não estava lá.

A irmã dela tinha caído à água num acidente trágico. Como a família trabalhava o dia todo, era ela que desde os 3 anos ficava sozinha a tomar conta da irmã bebé.

Nos anos seguintes a minha amiga reencontrou a sua voz e aprendeu todas as palavras. Teve acesso a terapia da fala, à saúde, à educação, às condições básicas duma vida digna, que todas as crianças de todos os países merecem ter. Cresceu com o desenvolvimento da nossa democracia.

Estudámos juntas até ao final do secundário, os pais dela começaram a viver melhor, conseguiram ter uma casa, pequenina, mas com casa de banho.

Eu vim para Coimbra estudar direito e tentar perceber quais eram as regras pelas quais era suposto nós orientarmos as nossas vidas neste mundo. A minha amiga estudou 2 anos, começou a trabalhar, escolheu de quem gostar, apaixonou-se, casou-se, teve uma filha. Eu estudei as regras deste mundo, achei-as palavras bonitas no papel, mas não correspondiam às realidades concretas na rua. Apropriei-me delas para as poder subverter. Juntei-me com quem tinha a mesma vontade, levámos as palavras da universidade até à rua, exigimos igualdade no acesso à educação, fundamental para a nossa democracia ainda tão jovem e que o governo cavaquista estava a tentar destruir. Lutámos com palavras na rua contra a polícia de choque até o governo que a mandava agredir-nos cair.

Perdi-me da Rosa durante algum tempo, até que eu fiz um filme para que a história dela não fosse silenciada nem esquecida. Veneno cura.

Para reencontrar a minha amiga usei as palavras. Ela estava na rua, reconheceu aminha voz na rádio.

Quando reencontrei a Rosa conheci uma mulher empoderada, que sabia o que queria, que se tinha divorciado quando o marido começou a ficar possessivo e violento, e não era assim que ela queria viver nem educar a filha dela, que tinha arranjadouma casa para ela e para a filha, que era uma profissional excelente, que gostava do que fazia e era boa a fazê-lo, que tinha amigxs, que sorridentefalava pelos cotovelos, falava muito melhor que eu. E estava cheia de esperança no futuro.

Desde Março de 2011, vi a Rosa na rua com as palavras: vamos refodê-los.

Em Janeiro de 2012 a Rosa perdeu o trabalho porque a empresa fechou, teve que voltar para casa dos pais com a filha. O pai dela tinha perdido o emprego há uns meses quando a fábrica faliu, o irmão tinha emigrado porque não conseguiu emprego, mas ela recusava-se.

No dia em que eu ia usar a minha voz e as minhas palavras para contar na rádio nacional ahistória da Rosa, o governo silenciou a minha crónica. Era um programa sobre as palavras na rua, sobre a voz das pessoas. Fui “relvada”. Não fui a única.

Fui censurada pelo mesmo governo que está a cortar o acesso à educação, à saúde, à habitação, à cultura, aos direitos fundamentais consagrados na nossa Constituição da República que faziam do nosso país uma democracia.

Pelo mesmo governo que está a condenar à miséria, de novo, crianças como a Rosa. Que com as políticas de austeridade obrigam crianças a viverem abandonadas, a não terem quem tome conta delas porque as famílias são forçadas a emigrar ou trabalhamcomo escravas. O mesmo governo que está a forçar as crianças a abandonar aescola para irem trabalhar, que as está a condenar à fome, à pobreza, àcaridadesinha, à humilhação, à morte lenta da esperança.

As palavrasna rua dizem-no todos os dias em todas as acções de revolta, em todas as conversas, em todos os protestos, em todos os cartazes feitos à mão, em todos os murais das ruas cibernéticas: esta política de austeridade está a fazer-nos voltar ao antes da revolução que trouxe a democracia. Os relatórios oficiais estão por norma em atraso em relação às palavras na rua, repetem-nas: “mais de meio milhão de crianças portuguesas estão em risco de pobreza, e segundo os dados, a pobreza vai continuar a aumentar e as crianças serão as mais afectadas”, diz a Cáritas.

O mesmo poder que condicionou a infância da Rosa à miséria, ao medo e ao silêncio, está de novo a condená-la à pobreza, ao horror e ao silêncio. Mas a Rosa que conquistou o direito a ter voz na rua, que pela primeira vez disse a palavra “eu” na rua depois de vencer o medo, não se vai deixar silenciar. Já não é criança. Já aprendeu a conquistar a sua própria voz, as suas palavras, na rua. Nem eu, nem a Rosa, nem nenhuma das crianças que já cresceram em democracia deixaremos que as nossas palavras sejam silenciadas na rua.

Raquel Freire in jornal LISBOA CAPITAL REPÚBLICA POPULAR

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7 Responses to Vamos refodê-los

  1. Roteia says:

    Tocante. Vamos refodê-los (já!), antes que nos refodam a nós.

  2. Gonçalves Correia says:

    Obrigado pelo testemunho.

  3. José Luís Moreira dos Santos says:

    De há muito – que lentos somos todos a enxergar tudo quanto é manigância! – que os poderes se fazem poderosos quando se juntam em doutrinação ideológica. Barreira quase intransponível, ficam algumas abertas para quem queira ver fácil e compreender de imediato. De há muito, as universidades e os média formam a linha avançada desse caminho de mão dada com a indiferença! Sabe, quando neste inferno cheio de pequenos diabos ainda conseguimos perceber que há palavras singulares que se ajustam a mundos distintos, é a transcendência que ganha raízes onde já havia lastro. Tendo eles os meios, todos os meios, refodê-los é o único desafio que pode repousar na tal transcendência: viver a dignidade de merecer existir! Se o vento pode moldar a face, todos somos a Rosa, vamos rumo ao vento!
    José Luís Moreira dos Santos

    • fernando saramago almeida says:

      nasceu e fez-se rosa apesar de todos os espinhos, É um dever nosso cuidar de todas as rosas e reconquistar os valores de Abril.

  4. Fernando Sousa says:

    Grande. Vamos.

  5. Don Luka says:

    O título é interessante, porque apetece mesmo retraçá-los. Mas, cum carago!, com um texto desse tamanho, olha, deves achar que um gajo que aqui vem 5 minutos deve ler com a rapidez do prof Marcelo.

    • De says:

      Um gajo e o marcelo.Ou o marcelo e um gajo.Um à imagem do outro.O outro à imagem de um.
      Vacuidade e tretas.Ideologicamente vinculadas ao mesmo

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