Peixoto por lebre

Estava a linda ninfa posta em sossego quando José Luís Peixoto decidiu inquietá-la com uma versão contemporânea dos Lusíadas, uma cena pasticheira* que a Visão ameaça editar em 10 fascículos, ao ritmo de um por canto, numa tentativa de baixar ainda mais a fasquia daquilo a que se convencionou chamar “literatura”. Às voltas com a crise que se abateu nos mercados, o país podia ter virado costas à tolice, mas parece que ainda “mexe qualquer coisa dentro doida” e que Portugal, afinal, não está morto. A Ana Cristina Leonardo cunhou a este propósito uma versão revista e melhorada da frase de Mário Soares sobre o rei D. Carlos, muito útil nos tempos de contestação cultural que se avizinham: “Por muito menos escreveu Almada o ‘Manifesto anti-Dantas‘”. É verdade que a ideia de torpedear Peixoto com morras-pim pode vir a ser proibida por futuros protocolos adicionais da Convenção de Genebra, pela manifesta desproporção entre o alvo e as armas, assim como se alguém usasse um tanque de guerra e três bazucas como mata-moscas, mas talvez tenhamos chegado a um ponto em que se esgotou a paciência dos mercados para tantas e tão prolixas manifestações daquilo a que se convencionou chamar “talento”. Na última vez que fui à pátria, vi-me grega para conseguir comprar alguma coisa nas livrarias, cheias de sucessos editoriais mas com pouco ou nada daquilo a que se convencionou chamar “livros”, e se não fosse o Gato Vadio (que em meia dúzia de estantes tinha mais coisas que ler do que todas as FNÁQUES), tinha voltado de malas levezinhas. O problema está muito bem diagnosticado numa crónica de ontem de António Guerreiro sobre esta iniciativa, receio que pedagógica, para “vende[r] Os Lusíadas por interpostos Peixotos”. Eu simpatizo com tudo o que o António Guerreiro escreve, ao ritmo de uma crónica por semana, e ainda mais desde que a editora Maria do Rosário Pedreira – que o Tribunal Penal Internacional, por razões do foro, ainda não processou pela alegada descoberta de Peixotos & afins – foi homenageada numa das suas crónicas no Expresso com o epíteto de “sismógrafo apuradíssimo“, capaz  de detectar os “abalos tectónicos provocados pela erupção do jovem talento literário”. Não sei de quem é a responsabilidade deste estado de coisas, mas de certeza que a ninfa não tem culpa nenhuma.

*termo cunhado pelo Filipe Guerra no agora fechado ao público “Vermelho e Negro”, desde que ele se mudou para o Dias do Leitor.

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9 Responses to Peixoto por lebre

  1. Rocha says:

    Não será isto mais uma edição dos Lusíadas explicados às criancinhas?

    • Morgada de V. says:

      Parece que o público-alvo são os adultos, mas temo que alguém se lembre de oferecer isto às criancinhas.

  2. C Vidal says:

    Não valia mais ter aqui citado (directamente) parte substancial do texto inteligente do António Guerreiro?
    Ou alguém está interessado nas vezes que Morgada de V. vem ou deixa de vir à pátria?
    Inteligência e cabotinismo não ligam.

    • Morgada de V. says:

      Carlos! Estais vivo!
      Ia explicar-lhe para que servem os links (o texto do António Guerreiro pode ser TODO descarregado no blogue linkado), mas saber que está em forma e com a azia habitual enterneceu-me.
      Welcome back!

      • C Vidal says:

        link? O que é um link? Aprendeu isso fora da pátria ou dentro da pátria?

      • Morgada de V. says:

        Dentro da pátria (a internet já tinha sido inventada quando eu dei de frosques).
        Não vai dizer nada sobre a Joana Vasconcelos e a emigração forçada das obras da Paula Rego?

  3. Um dos grandes problemas desse atentado a Camões é o acordo ortográfico. E um dos outros que parece ter sido dito, mas para mim não com a melhor lógica, que não tem mal nenhum em ser-se reconhecido vivo, como Saramago o foi e António Lobo Antunes o é. O problema é que o Peixoto não é um grande escritor, a Visão fez um péssimo trabalho, e isto devia ter sido feito por autores consagrados, e linguístas, e não parvalhões que se deixam levar pelo negócio das editoras.
    Mas o trabalho pela valorização do livro, da escrita, do autor/escritor tem de ser feito, e para ontem. Pois que isto de se andar a clamar por Peixotos, e noutras vertentes Joanas de Vasconcelos, ou mesmo na escrita a tonta da Margarida não sei quantas, faz desprestigiar e muito a literatura e cultura portuguesa.

  4. Ana Cristina Leonardo says:

    Obrigadinha, Morgada.

    • Morgada de V. says:

      Eu soube do caso por ti, e a frase do manifesto é uma grande frase – embora no caso do Peixoto talvez fosse de adaptar as palavras de ordem do Almada para “morreste-me pim”.

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