O funeral de Thatcher

Enquanto Margaret Thatcher é enterrada com pompa e circunstância, John Millington diz que o seu verdadeiro legado está nas fábricas abandonadas da Grã-Bretanha. De Red Pepper (www.redpepper.org.uk).

 

miners

Mineiros em greve em 1984. Foto: Wikipedia

A morte da ex-primeira-ministra Margaret Thatcher, na semana passada, levou a um coro previsível de condenação dos seus adversários e elogios dos seus aliados políticos. A fim de garantir que as pessoas não fiquem com ideias erradas sobre a ex-PM, o público britânico tem sido submetido a uma desenfreada ofensiva de propaganda que é projectada para fazer uma coisa: produzir conformidade.

Jorraram homenagens do mundo dos grandes negócios e do actual primeiro-ministro, ‘sinceras condolências’ da direcção do Partido Trabalhista, na oposição, e homenagens luminosas de sicofantas liberais que advertem que ela era uma ‘personagem fracturante’, mas alguém que, no entanto, deve merecer respeito.

Para fabricar este consenso, citam-se os inimigos mais extremos de Thatcher, as suas ‘celebrações’ da sua morte são tiradas de contexto e o debate genuíno sobre o seu legado reduzido a frases lineares, lama e discussões sobre se determinada canção do Feiticeiro de Oz [“Ding-Dong! The Witch Is Dead”] devia ser ouvida.

Qual é então o legado de Thatcher? Destruição, morte e apaziguamento de fascistas. Ela apoiou o ditador fascista Pinochet. E rotulou o dirigente do ANC Nelson Mandela de terrorista, recusando-se a aplicar sanções ao regime do apartheid sul-africano.

Maniatar os trabalhadores
No entanto, será mais lembrada pela sua famosa batalha com o Sindicato Nacional dos Mineiros (NUM). Foi uma batalha puramente ideológica que, mesmo em termos capitalistas, não fazia qualquer sentido económico, destruindo a base industrial da Grã-Bretanha para sempre e devastando comunidades em todo o país.

O anúncio do encerramento de 20 poços em Março de 1984 foi uma provocação deliberada ao sindicato mais militante e bem organizado da Grã-Bretanha. Milhares de milhões de libras de dinheiro dos contribuintes e as receitas provenientes do petróleo do Mar do Norte foram desperdiçados para reforçar as forças de segurança do Estado e para esmagar a greve dos mineiros e conseguir o encerramento dos poços. Os mineiros Davey Jones e Joe Green pagaram ambos a greve com as suas vidas, permanecendo sem resposta muitas perguntas sobre as suas mortes trágicas durante a disputa.

Enquanto os mineiros em greve mostraram coragem para defender a indústria britânica, as suas mulheres ergueram bem alto o espírito comunitário montando grupos de apoio, fornecendo alimentos e apoio à greve, que durou um ano.

Thatcher, por seu lado, introduziu leis anti-sindicais em torno de votações secretas. Hoje, elas são usadas ​​para maniatar os trabalhadores e impedi-los de tomar uma greve eficaz, ficando muito difícil garantir que os empregadores sejam obrigados a negociar adequadamente durante os conflitos laborais.

Veteranos da greve dos mineiros que entrevistei ao longo dos anos afirmam regularmente que a Grã-Bretanha está 25 anos atrás do resto da Europa em termos de tecnologia do carvão limpo. As reservas domésticas de carvão poderiam fornecer energia à Grã-Bretanha durante 100 anos. Em vez disso, ficámos com uma crise energética, continuando hoje a importar mais de 40 milhões de toneladas de carvão por ano.

Destruição social

Mas longe das estatísticas e da grande política, há uma destruição social profunda que engole o país, nas cidades industriais fantasma e nas fábricas abandonadas, especialmente na minha cidade natal de Wolverhampton. Qualquer pessoa que venha de comboio para Wolverhampton a partir do Norte pode assistir sentada na primeira fila a um ‘tour de destruição’, que é resultado directo das políticas económicas neoliberais de Thatcher.

Em tempos um forte centro produtivo industrial, com trabalhadores bem pagos e altamente qualificados, a área é agora um deserto de armazéns e ex-fábricas decadentes. A carreira de autocarros 79, que se estende por uns bons quilómetros, já foi famosa por transportar 250 mil trabalhadores. Isso acabou.

A política económica liberal de Thatcher, onde as forças de mercado estão autorizadas a fazer o que bem lhes apetece, coloca o Estado como parceiro interessado em esmagar qualquer um que se ponha no caminho do lucro privado. Não há nenhum pensamento sobre investimento a longo prazo ou sobre os custos sociais, e é essa política que permanece em vigor na Grã-Bretanha hoje.

Pessoalmente, não sou fã de celebrar a morte de ninguém. Mas pedir às pessoas que mostrem respeito por alguém cuja visão do mundo levou a que os seus parentes perdessem os postos de trabalho, sofram problemas de saúde mental como resultado do desemprego de longa duração ou com a dependência de drogas devido ao aumento da pobreza nos antigos redutos da mineração do Norte do País de Gales e do Sul do Yorkshire é pedir o impossível.

O funeral de Thatcher é uma oportunidade para contar a história das vítimas, a história de Davey e Joe, das mulheres dos mineiros e, no fim de contas, a história da classe operária contemporânea na Grã-Bretanha. Todos eles foram queimados, mas não quebrados.

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4 Responses to O funeral de Thatcher

  1. Augusto says:

    É por causa desse legado, que não se entende , que hoje na Assembleia Regional da Madeira , o Partido Comunista Português tenha APOIADO um voto de pesar , apresentado pelo CDS.

    • António M P says:

      O grupo parlamentar do CDS/M apresentou um voto de pesar pela morte de Miguel Portas. A maioria dos deputados do PSD Madeira abandonou o hemiciclo, incluindo o líder parlamentar
      16 de Maio de 2012

      Quanto à santa Thaetcher e ao voto na Madeira, consta:
      «Apesar da unanimidade na votação do voto, o deputado do PCP-M, Edgar Silva, argumentou que este tipo de iniciativas é “condescendente em 90 por cento dos casos nesta casa [Assembleia Legislativa da Madeira], lamentando, no entanto, a redacção do texto por “dizer que ela veio à Madeira em lua-de-mel, num voto de pesar…”.»

      Entre a cobardia de assumir o seu pensamento, no caso de Portas, e a falsa bonomia no caso de Santa Thaetcher, o que eu sei é que não votaria na primeira nem na segunda – por essas e outras é que eu nunca seria deputado.

  2. Gentleman says:

    O mundo esta a beira de uma guerra nuclear provocada por um paranoico regime orwelliano, mas isso aparentemente não parece preocupar ninguém neste blogue. Nem uma palavra foi publicada a esse respeito! Preferem antes falar de uma mulher que abandonou o poder há 20 anos. Sintomático.

    • António Paço says:

      Tremo de medo, Gentleman. É por isso que não consigo escrever nada sobre a “guerra” do Kim III. Mas temo mais um “ataque preventivo” de outros paranóicos com muito mais bombas.

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