(…)

Dos domingos, quando ainda damos
por eles, fica só um registo junto
à pulsação. O sol levanta-se a custo
e larga alguns em casa, de resto
não quer saber que porra fizemos
na sua ausência.

Largam-me em casa e ponho-me
à janela a comer cereais, e vejo-os dali,
abrigados sob um telheiro,
uns pássaros em filinha e trrrcht, um
e outro logo, fodidos de chumbo –
o impacto caramba, que delícia!
Mesmo por mal, uns putos num quinto
andar com uma pressão de ar, o riso
e os disparos, cá em baixo aquele
estrago todo. Pequenos gestos assim,
destrutivos, abrindo a maldade
como uma flor, babando-se de luz
e lambendo os lábios. Lembra-me

que o que morre
nasce para uma certa beleza.
Penso calçar-me, meter o casaco
sobre o pijama, ir à varanda e fazer
umas chamadas, fundar um partido,
ver no calendário se ainda demora
o inverno e planear a invasão
duma Polónia, a ocupação dalguma
França, mas pelas duas da tarde
caminho aos ziguezagues até à cama
e adormeço simplesmente.

Diogo Vaz Pinto, “Sub-pop”, integralmente aqui

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One Response to (…)

  1. Rocha says:

    Genial. Parece-me a descrição da maior ressaca de sempre.

    Fico é ligeiramente deprimido pelos copos deixei de beber ontem à noite. Seja como for está aí um sol que não tem preço.

    E sim tudo isto podia descrever Portugal, o povo e o nosso estado de espírito.

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