O PCP e os Docs Kissinger

Documentos de Wikileaks lançam nova luz sobre a Revolução dos Cravos

Não deixo de achar interessante que também os documentos secretos venham dizer exactamente aquilo que os documentos públicos indicavam, perdoem-me a sinceridade,  tratados com rigor. Isto é, sem a pressão da memória ideológica socialista do eterno golpe de Praga, que teria sido preparado pelos comunistas, e da confusão sempre permanente entre revolução  e direcção da revolução, entre movimento operário e partidos, entre trabalhadores e direcções (partidos, sindicatos, igreja, etc), entre economia nacional e paralisação da acumulação, entre crise de Estado e colapso do Estado,  entre consciência e experiência de classe. O que o Wikileaks «soltou» agora, secreto, está nas centenas de  panfletos do PCP, que guardo nos pobres e nada seguros caixotes da minha arrecadação, nos docs britânicos dos National Archives, de acesso livre ao público, no Centro de Documentação 25 de Abril, também de acesso livre, no Militante e em tantas outras fontes que então citei na História do PCP na Revolução dos Cravos. Verifiquei também entretanto que Rui Ramos, então um dos expoentes máximos desta ideologia, na sua História de Portugal abandona a tese do golpe de Praga. Vejo com simpatia a queda deste mito fundador do Portugal democrático-representativo, que teve sempre duas caras do mesmo corpo: a de que o PS teria salvo o país de um golpe comunista, dirigido por um Partido Leninista disposto a fazer uma revolução socialista.

O link de 2 entrevistas que então dei sobre o tema, ficam aqui e aqui. E 3 resenhas que então escreveram aqui e aqui e aqui.

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12 Responses to O PCP e os Docs Kissinger

  1. Gentleman says:

    No 5 Dias abunda preocupação pela situação do povo português, assim como o povo de diversas nações um pouco por todo o mundo.
    Com algumas excepções…
    Há um país onde, no preciso momento em que leem estas linhas, há 200 mil pessoas a sofrerem horrores em campos de trabalhos forçados. No entanto, nem um artigo. Nem uma linha. Nem uma palavra sequer acerca da terrível situação do povo norte-coreano.
    E o pior de tudo é que os editores deste blogue não têm vergonha por tal ensurdecedor silêncio.

    • jmf says:

      Portanto, deitam-se-lhes umas bombas antónias democráticas.
      200 mil?Porque não,1 milhão?
      E,a Síria,como é?Qatar,Arábia saudita,…c’a gandas ‘democráticos’……….

    • Henrique says:

      Se esses 200 000 pessoas o fazem excomungar o comunismo quantos mais 600 000 mortos no Iraque é que vai precisar para excomungar o neo-liberalismo?

  2. Argala says:

    Raquel,

    Perpassando estes comentários patetas onde se regurgita a propaganda imperialista e passando a coisas sérias.

    Este assunto é da maior importância e revela, tal como referes no teu livro, que a realidade é aquilo que parece. Que não existe, nem nunca existiu, Partido Comunista em Portugal. Os comunistas portugueses nem sequer têm que reconstituir o Partido Comunista como aconteceu no Estado Espanhol. Basta fundá-lo, com quase um século de atraso, mas com muita vontade, espírito de sacrifício e militância para recuperar o tempo perdido. Preparar as condições subjectivas para a guerra de classes, para a Tomada do Poder e para a Revolução Socialista. Isto é, e sem rodeios, só é leninista o Partido que prepara os militantes no campo teórico, sindical e militar para a Revolução.

    Quando Vítor Dias, a propósito do livro, fez a sua declaração de cobardia – “antes vivos e combativos que mortos de morte matada” -, já estava a confirmar a tese do mesmo. Este teórico do revisionismo acha que é “vivo” e “combativo”.. que tragédia..

    O PCP é, de facto, o expoente máximo da coexistência pacífica, dos telegramas contra o fascismo, da Unidade dos Portugueses Honrados, do Domingo de Trabalho para a Nação, da “Democracia Avançada”, do abrilismo constitucional, do “agarrem-me senão eu vou-me a ele”, da retaguarda que negoceia nos salões do inimigo as condições da sua própria existência, do chauvinismo e do reformismo como lastro ideológico,

    Do mito da resistência ao fascismo – sobre o que se devia escrever. Quantas figuras do Estado Novo, PIDEs, militares, foram eliminados pelo PCP? (o único coitado que se lembrou de matar um PIDE, arriscou ficar na choldra depois do 25 de Abrili por causa dessa merda). E só um anarquista atentou contra Salazar. O resto são mitos do estilo “resistência francesa”.

    Cumprimentos

    • Carlos Palminha says:

      a parte sobre Cunhal é reveladora da “diabolização” que a direita e os socialistas fizeram durante anos sobre o líder Comunista: “Trata-se de um homem impressionante e atraente. Afirma com veemência não ser um diplomata e falar francamente, e parece fazê-lo. Em excelente francês, ele fala com sensatez, com cuidado e em tom contido (…) Na minha inocência, ele deixou-me a impressão de um homem com quem se pode tratar franca e directamente do outro lado da mesa”.

    • Tiago says:

      Ao longo dos anos foram muito diversificadas as tentativas de branquear o papel do PCP na resistência ao fascismo. Mas nunca tinha ouvido a expressão, “mito da resistência ao fascismo”.

      De facto, branquear torturas, assassinatos, humilhações sofridas nas cadeias fascistas, apelidando a resistência de “mito” é algo que nem alguns sectores da direita têm coragem para afirmar em público, tão recente a memória dos que sofreram às mãos da PIDE. Uma marca de classe enorme, que talvez só a extrema-direita em Portugal teria a lata de afirmar, sabendo claro que mente em toda a linha.

      Estas supostas “novas” abordagens ao papel do PCP na sociedade portuguesa, são “novas” apenas na mente de alguns, para quem estudou um pouco a história do movimento operário português, sabe que são “novidades” que cheiram a mofo.

      A criação do MRPP surge, precisamente com a mesma sustentação que o “Argala” defende, apesar de ser perfeitamente conhecido qual a origem do dinheiro que sustentou a sua actividade, mesmo eles consideraram que o PCP tinha sido um partido marxista-leninista que se desviou do caminho na sequência do famoso XX Congresso do PCUS.

      Agora é óbvio que isso é passado, e o capital precisa de ir mais fundo. Agora, os inimigos de classe do PCP já afirmam que este nunca foi um partido marxista-leninista.

      Não vale a pena grandes discussões, porque para debater o marxismo-leninismo, é preciso conhecer os seus fundamentos. E o leninismo acrescenta primeiramente ao marxismo a formulação do que é um partido revolucionário na análise marxista da sociedade capitalista.

      Considerar que um Partido que na sua estratégia considera que num determinado contexto não estão reunidas condições para uma revolução socialista (estando certo ou errado na ánalise), e que estabelece etapas intermédias na luta contra o capital é acima de tudo, demonstrar uma ignorância brutal do que é o marxismo-leninismo.

      É óbvio para quem têm como único objectivo o ataque cerrado ao PCP, pouco interessa saber o que é isso de marxismo-leninismo, porque o ataque não é realizado para desmobilizar trabalhadores conscientes, mas principalmente para evitar que o PCP reforçe a sua influência. Falando grosso, para ignorantes basta um ignorante que destrúa a credibilidade de algo, mesmo que diga as coisas mais descabidas.

      Que o PCP procurou na sua estratégia consolidar o regime pós 25 de Abril, como uma democracia parlamentar é um facto histórico. Dizer que essa democracia parlamentar, seria uma democracia burguesa é uma pura mentira, como a própria Constituição de 1976, e a sua leitura atenta, podem demonstrar. Fazendo o paralelismo com a Venezuela (dadas as recentes eleições) é considerar o Chavez, Maduro agentes do capital, apesar de todas as transformações que operaram em conjunto com o povo venezuelano no seu país. Considerar que o caminho que a Venezuela segue não é o meio para alcançar enormes transformações e eventualmente derrubar o capital. Esse mecanicismo teórico de querer estabelecer uma forma de revolução anti-capitalista é própria de quem nunca leu ou estudou Marx, ou então desvirtua conscientemente a sua teoria revolucionária.

      É óbvio que para quem acha que a resistência foi um “mito”, logo a PIDE, o fascismo não reprimiram (consequência lógica desse pensamento), é óbvio que conquistas que foram consagradas na Constituição nada dizem, como pouco diz o facto das nacionalizações, do controle operário em inúmeras empresas, das cooperativas agrícolas, entre tantos outros exemplos, tiveram no PCP um papel destacado e que seriam (não se concretizaram) passes de gigante para a democratização da sociedade rumo ao socialismo.

      É claro que isto é tudo pura treta, porque sabemos ambos os lados do que se trata. A estratégia do capital passou da eliminação física dos comunistas, para a tentativa da sua descredibilização perante as massas. Uma evolução estratégica da manipulação ideológica que acrescenta ao medo natural da mudança que existe no comum dos seres humanos, na descredibilização da possibilidade de um Partido de massas alheio, na medida do possível, à influência ideológica do capital. E por isso, ontem o MRPP e um sem fim de Movimentos, Partidos genuinamente comunistas, contra os revisionistas. Cheira a mofo tudo isto.

      É claro que o contexto histórico em que decorreu a Revolução de Abril e a impossibilidade prática de instaurar uma ditadura do proletariado em Portugal (para um povo que só a palavra ditadura era sinónimo de sofrimento – excepto claro para os adeptos da tese do “mito” da reistência ) não interessam para nada. Porque nas análises históricas burguesas não interessa o contexto, mas o fim que se pretende, mesmo esmagando aquilo que a realidade traz de mais elementar. Uma história à Pacheco Pereira (outro grande adepto em tempos da luta contra o revisionismo), definindo uma tese, escolher pedaços da história que o justifiquem, branqueando tudo o resto.

      Isto para dizer, que esta Luta de Classes sempre haverá numa sociedade dividida em classes antagónicas, mas o anos passam e sabemos quem continua do mesmo lado da Luta. E sabemos invariavelmente o percurso destas pessoas.

      Não me espanta o ódio contra o PCP, nada mesmo. Faz parte do jogo. E não tenho medo de me assumir como comunista, tenho orgulho. E tenho um inimigo: o capital. Aqueles que se auto-intitulando grandes revolucionários, escolhem como inimigo, o PCP… para mim está tudo dito.

      • Raquel Varela says:

        Estimado,
        Nos meus trabalhos e no meu livro sobre a História do PCP nunca “branqueei” a resistência do PCP ao regime de ditadura, pelo contrário, ressaltei sempre que a moderação de 74, que contrasta com a resistência de antes, não tinha nada a ver com a coragem individual mas com a relação com o regime político.
        Creio que a direcção do PCP resistiu realmente à ditadura e apoiou realmente o regime democrático liberal.

      • Argala says:

        Tiago,

        Afirmo e repito, as vezes que forem necessárias. A resistência ao fascismo é um mito. Um mito. E não torça a discussão: sofrer torturas não é resistir; sofrer humilhações não é resistir; ver os camaradas serem assassinados, não é resistir. Resistir é outra coisa, que infelizmente não aconteceu. Resistir é combater militarmente o inimigo. Isso é resistir. O facto dos militantes do PCP terem sido perseguidos desta maneira e não terem resistido, só torna a situação mais asquerosa.

        Responda à questão que eu deixei: quantos militares, quantos quadros do Estado Novo, quantos polícias, quantos PIDEs, quantos apoiantes do regime foram mortos durante esse período de heróica resistência?

        Não vale a pena persistir na falsificação e pintar o que não existiu, porque as nuvens não podem esconder o sol para sempre. E porque queremos o retrato fiel das coisas, para aprendermos com a história e para sabermos com o que contar no dia em que tivermos que resistir a sério.

        Cumprimentos

      • Tiago says:

        O seu comentário é uma ofensa ao povo português acima de tudo. Uma ofensa a quem deu tudo o que tinha, inclusivamente a vida, para derrotar o fascismo. Se preferir ser torturado a denunciar um camarada, se preferir morrer a trair todos aqueles que lutavam, preparam greves, esclareciam o povo vencendo a censura, não é resistir?

        Quantos pides foram mortos ?! Porque é que tu nào matas um banqueiro, o Passos Coelho? Ou és um revisionista? Do que estás à espera

        Vou apagar esse teu comentário da memória. É ódio demais, cegueira demais contra um Partido, que gostando-se ou não, lutou sempre. Triste acima de tudo o desprezo total pelos trabalhadores que nos libertaram, desvalorizando brutalmente a sua luta. Náo resisitiram? Fizrram o quê então?

        Maus de mais.

        PS: Sr. Raquel Varela, o meu comentário anterior não se referia a si. Se foi isso que pareceu, foi falha minha.

      • Pedro Pinto says:

        Combater militarmente? O velho mito da extrema-esquerda que, a partir de Paris, defendia tiros e bombas, não constando que tenha disparado uns ou deflagrado outros. A revolução, quer queira quer não, será sempre obra das massas e não de vanguardas iluminadas e, o mais das vezes, inertes. E isso dá trabalho – e para isso os comunistas que o façam. Que vergonha de comentário.

    • Vítor Dias says:

      Você escreve : «Quando Vítor Dias, a propósito do livro, fez a sua declaração de cobardia – “antes vivos e combativos que mortos de morte matada” -, já estava a confirmar a tese do mesmo. Este teórico do revisionismo acha que é “vivo” e “combativo”.. que tragédia..»

      Não que a frase me repugne pois acho que é mais revolucionário e que há mais coragem em estar vivo e combativo para continuar a luta do que facilitar estupidamente a «morte matada» mas não me lembro nada de ser autor daquela construçao «antes …. que….», sendo certo que falei de «morte matada». Se puder diga-me onde está a citação original.

      Quanto ao mais, não quero discutir mais nada consigo uma vez que é um defensor, para os outros fazerem, de uma linha de assassinatos políticos que haveria certamente de ter por parte do regime fascista a respectiva retribuição.

  3. Carlos Palminha says:

    que pérola… vejam a quem o CDS em 1975 pedia apoio financeiro:

    E.O. 11652: XGDS-1
    TAGS: PINT, PINS, PO
    SUBJ: CDS LOSING FINANCIAL SUPPORT

    REF: LONDON 7770

    1. CENTRO DEMOCRATICO SOCIAL (CDS) DEPUTY LEADER AMARO DA COSTA
    DISCUSSED RECENT TRIP TO BRITAIN, FRANCE, AND GERMANY WITH EMBOFF.
    HE STATED HE HAD HAD “VERY GOOD” CONVERSATIONS, PARTICULARLY
    WITH CONSERVATIVE PARTY LEADERS IN LONDON, BUT NO OFFERS OF
    FINANCIAL SUPPORT. HE CLAIMED THAT THREE PORTUGUESE BANKERS
    (WHOM HE DID NOT IDENTIFY) IN PARIS HAD PROVIDED $1,000,000 TO
    SELF-EXILED CHRISTIAN DEMOCRATIC PARTY TITULAR SECRETARY
    GENERAL SANCHES OSORIO. ACCORDING TO AMARO DA COSTA, BANKERS
    HAVE CONCLUDED THAT CHANCES FOR AFFECTING PORTUGUESE POLITICAL
    PROCESS FROM WITHIN SYSTEM ARE NIL; THEREFORE THEY ARE BACKING
    CLANDESTINE ACTIVITY. SINCE CDS WANTS TO CONTINUE FIGHT AS A
    LEGITIMATE DEMOCRATIC PARTY, BANKERS (AND OTHER POSSIBLE FINANCIAL
    CONFIDENTIAL

    CONFIDENTIAL

    PAGE 02 LISBON 02957 280859Z

    BACKERS) CONSIDER IT “TRAITOROUS” AND ARE REFUSING FINANCIAL
    SUPPORT.

    2. COMMENT: EMBASSIES BONN, LONDON, MADRID, AND PARIS MAY HAVE
    OPPORTUNITY PROVIDE ADDITIONAL INSIGHTS. EMBASSY LONDON’S REPORTS
    ON CDS ACTIVITIES (REFTEL) HAVE BEEN VERY HELPFUL AND ARE
    GREATLY APPRECIATED.
    CARLUCCI

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