Que faz uma divisa ser uma moeda?

Anos atrás, após o colapso da economia Argentina, quando os bancos fecharam os seus balcões e ninguém podia levantar dinheiro, surgiram outras divisas, formas de troca de bens e serviços assentes não na moeda oficial emitida pelo Banco Nacional, mas improvisadas pelos trabalhadores. Embora não estejamos acostumados à ideia, a história do dinheiro ensina-nos que não há nada intrínseco à moeda oficial que a distinga. Em tempos idos, circulavam várias formas de representação de dinheiro, não só metais como o o ouro, prata ou cobre, ou outros bens, como o sal (donde provém a palavra salário), mas também notas de crédito. A uniformização do dinheiro é historicamente recente. Não é de estranhar então que na actual fase de crise financeira e de desemprego galopante surjam de novo formas alternativas à moeda oficial de um país. Afinal, um desempregado pode não ter euros na conta, pode não ter posto de trabalho para ganhar um salário, mas pode produzir valor.

Assim, na vizinha Espanha, para além do Euro oficial, circulam entre redes relativamente estreitas, o comune, o lazo e o coín, em Málaga; o puma em Sevilha; o zoquito em Cádiz; a pita em Almería, a justa em Granada; o boniato em Madrid; bilbodiru em Bilbão; o euro-RES em Girona (uma moeda criada há 15 anos na Bélgica). Ao todo estima-se existirem 30 divisas alternativas. Alguém pode dar explicações ou vender vegetais de um quintal urbano em troca de comunes que depois são usados para pagar a renda da casa, ou um arranjo de computador. O crédito pode ser registado num cartão ou registado numa plataforma online, como a Community Exchange System (CES), criada em 2002 na Cidade do Cabo (África do Sul), e usada em 56 países.

Há igualmente cerca de 300 bancos de horas. Não são os infames “bancos de horas” criados pelo nosso Pacote Laboral que serve para flexibilizar a exploração do trabalho, mas antes um sistema de troca de serviços entre trabalhadores.

O fenómeno não é exclusivo da Espanha. Existem sistemas de moeda complementar nos EUA, Canadá, Alemanha, Suiça, Áustria, Holanda, Grã-Bretanha, etc. No bairro Londrino de Brixton, podem-se fazer transacções em Libras Brixton, onde se imprimem diferentes notas anualmente. Cabe perguntar: quando poderei comprar um bica em lusos ou alfacinhas?

(Fonte: http://www.commondreams.org/headline/2013/04/08-1)

 

Advertisements

About zenuno

http://despauterio.net
This entry was posted in 5dias. Bookmark the permalink.

3 Responses to Que faz uma divisa ser uma moeda?

  1. Telma says:

    A PITA era uma boa moeda para os portugueses.

    Não sei se os bancos de horas serão infames, sei sim , que nalgumas grandes empresas industriais, operários optaram por essa solução.

  2. Rafael Ortega says:

    Quando os comerciantes aceitarem receber em lusos.

  3. Claro que essas alternativas são boas, mas só isso não chega. Eu adoro os movimentos que vivem paralelamente, mas não são movimentos que funcionem ou dêem resultados para uma sociedade, nem têm uma forte influência para deitar abaixo o sistema, mas são importantes para mudar mentalidades, lá isso é verdade. E para se pensar em alternativas. O importante é pegar nisto e fazer valer como uma mais valia, de se pensar em alternativas. De se pensar em furar o sistema…

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s