O livro de João Camargo: Que se Lixe o oportunismo!

O João Camargo, destacado membro do Que se Lixe a Troika, acaba de apresentar um livro onde fala em nome do Movimento QSLT, o livro assim se chama mesmo.

Não é um livro sociológico onde se analisa a história do que QSLT, a composição política ou social das manifestações, os seus equilíbrios internos, os seus programas, a origem social dos seus membros – não há aliás nenhum estudo feito que permita chegar a qualquer conclusão séria a este respeito. Isso obrigaria a alguns anos de trabalho (ou de trabalho em equipa) de decomposição de todos os factores enumerados (variáveis de rendimento dos membros, filiação política, origem social, ocupação, relações laborais, origem geográfica, só para citar alguns).

Arrisco a dizer que um estudo teria mesmo que analisar o método de organização interna, as regras de votações das decisões, as propostas derrotadas e as que venceram, o peso dos profissionais dos partidos lá dentro, a metamorfose do BE e do PCP junto dos movimentos sociais uma vez descredibilizado que está o sistema parlamentar, as fracções políticas que querem transformar o Movimento em Partido (facto que curiosamente Camargo abre à dúvida na entrevista).

É um livro político, não é um estudo. O que me parece perfeitamente justo e importante. E que tem posições políticas claras sobre vários temas, entre eles a UE, a Troika e o Governo. Não sei porém se defende o euro, a renegociação da dívida, o investimento na “economia nacional”, como defende o BE de que Camargo é membro, questões importantes que não concretizou na entrevista dizendo apenas que no livro “explica o que são”. Aguardamos a explicação.

Das duas uma, ou João Camargo faz um livro institucional a explicar como funcionam as instituições, um manual, o que será uma grande chatice mas porventura útil, ou tem uma análise e uma opinião política, o que me parece sinceramente interessante. Porém não sabemos qual é a opinião, na entrevista, sendo apenas convidados a ler na medida em que “lá no livro se explica”.

Eu não sou membro do QSLT mas como muitas dezenas de pessoas fui chamada a dar o meu testemunho de apoio à manifestação organizada e bem por este movimento. Fi-lo publicamente. Não me revejo nas posições políticas do QSLT porque creio que defendem uma saída eleitoral para a crise política. Mas não creio que isso é razão para não apoiar uma manifestação, baseada no velho princípio da unidade de acção, isto é, todos apoiamos uma iniciativa e cada um defende no meio dessa iniciativa o que acredita. Há um programa mínimo que todos subscrevem, neste caso a demissão deste Governo.

Mas unidade de acção não é unidade de pensamento. Numa entrevista a propósito de um livro que acaba de publicar João Camargo fala em nome do Movimento. Se é um livro político, não percebi porque não fomos esclarecidos se fala em nome do Bloco de Esquerda, de que é legitimamente membro, do QSLT, das centenas de figuras públicas que apoiaram a manifestação ou dos milhares que saíram à rua.

O João Camargo pode e deve ter a opinião que quiser sobre o QSLT, o que falta neste país são opiniões políticas, falta debatê-las e vale sempre a pena um, dois, três, 20 livros sobre estas questões centrais das escolhas políticas e organizativas, que creio são o calcanhar de Aquiles dos conflitos sociais. De facto é a questão mais importante hoje: como se organiza a resistência social.

Não lhe fica bem chamar “investigação” ou “estudo” a um texto político. Como se não houvesse qualquer diferença entre um ensaio político e um estudo social. Um e outro são urgentes, a política séria faz-se com base na análise da realidade séria e os estudos devem dar respostas às urgências políticas, também. Os métodos porém são bem distintos e devem ser, por isso quem faz estudos tem um machado na cabeça que é a explicação da teoria e do método. Sob pena de num viés pós moderno acabarmos a achar que a lei da gravidade não existe, como lembrou Alan Sokal a Boaventura Sousa Santos, que prefacia o livro, criticando o pós-modernismo então defendido pelo Professor de Coimbra, já lá vão 15 anos.

Esta é para mim a questão central. Mas deixo-a para os intelectuais, uma vez que o debate é longo e vem de longe e já fez correr rios de tinta. Eu estou entre os que acham que não há narrativas, há verdade, que nem sempre conseguimos compreender na totalidade, claro. Interesso-me pela história, a história do conflito social, que determina a vida, e não pelos discursos da história, que são determinados pela luta de classes. Estou por isso nos antípodas metodológicos de Boaventura Sousa Santos.

Mas com este pequeno texto, que já vai longo, não quis discutir as virtudes do marxismo e os defeitos do pós modernismo. Quis apenas dizer que a montante desta questão seríssima – o método e a teoria – está outra, que é de simples boa educação e sã convivência política. Quando falamos devemos falar em nome próprio ou representar só aqueles pelos quais fomos mandatados para o fazer!

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16 Responses to O livro de João Camargo: Que se Lixe o oportunismo!

  1. Tiago Mota Saraiva says:

    Raquel, duas pequenas notas. Nem a frase “defendem uma saída eleitoral para a crise política”, nem a ideia que se possa vir a constituir em partido é verificável em documentos do Que Se Lixe a Troika. Quanto ao resto o João Camargo tem toda a legitimidade para dar a sua opinião sobre o que bem entender e para se defender das críticas que lhe destinas, se assim o entender.

    • Raquel Varela says:

      Tiago,
      A ideia de que defendem uma saída eleitoral é uma opinião minha e está no texto como minha. Pode não vir em nenhum texto, aliás é o que é mais frequente em política, é que as estratégias não estejam escritas. Nunca ouvi os membros do QSLT a defender outra coisa que não seja a convocação de eleições e nunca vi nenhum apelar a outra forma de democracia -directa, por exemplo, ou outra – que não fosse e democracia representativa. De todos os modos essa, como está lá clara, é a minha opinião, e fiz questão de referi-lo “Não me revejo nas posições políticas do QSLT porque creio que defendem uma saída eleitoral para a crise política”.
      Sobre o Partido é ouvir a entrevista do Camargo, confesso que a mim já me tinha ocorrido que o QSLT era uma forma de tentar a famosa unidade de esquerda entre PCP e BE, nunca tinha visto um membro do QSLT abrir essa possibilidade, o que acho estranho é que o faça sem dizer que é sua opinião. Ou foram todos vocês que escreveram o livro?
      Abç!

      • Tiago Mota Saraiva says:

        Ok, é a tua opinião e não um facto que conste num documento. Sobre a tua opinião sinto que não tens lido os teus colegas de blogue que participam no QSLT têm escrito, mas tudo bem.
        Quanto à resposta do Camargo sobre se o QSLT poder ser transformado num partido acho que terás de perguntar ao próprio. O que te posso dizer é que essa ideia nunca foi discutida e que, creio, contará com a mais firme oposição da esmagadora maioria dos seus participantes.
        Abraço

  2. Orlando carlos Félix says:

    Em regra, salvo honrosas excepçãos, as pessoas não se assumem claramente; usam um taticismo que nos obriga a descodificar, o que obriga frequentemente a interpretações subjectivas.

  3. PP says:

    O link p entrevista não funciona

  4. Caxineiro says:

    Raquel

    esse link vai dar a nada
    “Este conteúdo está atualmente indisponível”.

  5. Carlos Camelo says:

    Cara Raquel Varela, gosto muito das suas opiniões públicas, e acho-as, na maior parte das vezes, bastante acutilantes e certeiras. Li um livro seu de que gostei igualmente bastante (quem paga …) e espero, quando tiver dinheiro, adquirir os outros que fez. Faço-lhe, no entanto, um reparo: o Alan Sokal é um imbecil, e o livro que ele escreveu em meados dos anos 90 perfeitamente ignóbil. Fez afirmações perfeitamente gratuitas acerca de vários autores que nunca leu, como aliás ficou provado ao não me responder quando, na altura, lhe perguntei se autores como o René Thom e o Prigogine tb não sabiam nada de matemática ou de ciência. Não vou defender o Boaventura, que acho interessante, apesar de não concordar com muitas das coisas que ele diz. Mas acho que devia ter mais cuidado com os autores que usa para se apoiar: é que o Sokal é mesmo uma muito má escolha… E, para que não fique em dúvida, digo-lhe que gosto muito do Marx, gostei muito do curso da Sara, gosto muito da revista Rubra, gosto de ser seu amigo no face, e que tb tenho algumas reticências relativamente ao QSLT, apesar de achar importante o que esse movimento fez.

  6. Nuno Cardoso da Silva says:

    A via eleitoral não é, obviamente, a única para fazer mudanças estruturais num estado soberano, mas é uma delas, e tem a vantagem de permitir ruturas sem interromper o funcionamento institucional. Ou seja, o país continua a funcionar e as mudanças vão sendo feitas à medida que o poder legislativo se for ocupando delas. Pode haver quem ache que a rutura tem de ser tão profunda que não possa ser feita no normal funcionamento institucional, mas eu não acredito nisso. Até porque as ruturas mais radicais – as revoluções – levam anos a criar uma nova situação minimamente funcional. Numa óptica de custos/benefícios, uma rutura gradual é preferível a uma rutura violenta. Por outro lado, o nosso bom e pacífico povo mais depressa alinhará com uma rutura dentro das instituições vigentes do que com uma que as destrua à partida. Há muito que defendo que as mudanças devem ser feitas com o povo e de forma consensual, e não por cima dele como se tivéssemos um qualquer direito divino para alterar a forma de nos governarmos sem o seu consentimento.

    • Rocha says:

      O eleitoralismo, o oportunismo como Lenine o definiu, é a pior das doenças da esquerda em Portugal e em toda a Europa.

      O terreno mais favorável para o regime capitalista vigente é sempre SEMPRE o eleitoral, isto é verdade em todo o mundo mas é ainda mais verdade na Europa. Não é possível vencer um inimigo dando a primazia da escolha do campo de batalha ao inimigo.

      Só é possível derrotar o capitalismo quando se coloca o capitalismo numa luta que está fora dos seus planos, fora no quando, fora no onde e fora no como o inimigo quer. É preciso arrastar o inimigo para fora dos lugares em que ele está barricado, para fora das suas instituições.

      É na rua que o povo mais ordena, é na rua que o poder tem de cair.

      • Nuno Cardoso da Silva says:

        Essa é a teoria. Mas como seria na prática? Vês neste momento alguma possibilidade do poder cair na rua? E se caísse como surgiria a alternativa sistémica? Recusar por princípio a via eleitoral é resignarmo-nos a continuar a ver o PSD e o PS a governarem. O que estás a pensar – julgo eu – é levar o povo a derrubar as instituições na rua para depois aparecer um partido qualquer (?!) a assumir o comando da situação, impondo a sua vontade de acordo com a sua receita ideológica, sem permitir que o mesmo povo se manifeste a favor ou contra. Já vimos isso acontecer no passado noutras paragens, e não é coisa que me entusiasme. É a velha doutrina do vanguardismo como mecanismo para ultrapassar o problema da incompetência do povo para saber o que é melhor para si. Só quem sabe que não tem – nem nunca terá – o apoio da maioria do povo português recusa a via eleitoral. Incapazes de se afirmarem de forma democrática, optam pelo golpismo. Pois eu preferiria que uma frente eleitoral democrática, englobando o BE, o PCP, o MAS, o PCTP/MRPP e independentes de esquerda, se apresentasse na próximas eleições, tentando obter uma maioria parlamentar ou, pelo menos, uma minoria capaz de bloquear o caminho aos reacionários do costume. Mesmo que não conseguisse dessa vez uma maioria para governar, abriria o caminho para que isso acontecesse na vez seguinte.

  7. Don Luka says:

    Eu estou entre os que acham que não há narrativas, há verdade, que nem sempre conseguimos compreender na totalidade, claro.

    Esta é a única frase substancial do teu texto. És então uma platónica, Raquel. Acreditas em Deus?

    O problema é que os factos são um de conjunto de observações aceites por uma maioria, num dado momento (se forem negados mais tarde, a negação terá também que ser aceite por uma maioria, nesse outro momento; os factos serão então revistos) — os factos podem inclusivamente ser tomados como tal, por razões diferentes entre várias pessoas. Já “a verdade” depende das interpretações que fazemos deles, das sequências de causas e efeitos com que os vestimos, o que por sua vez depende de cada um de nós, do sítio social, ideológico, cognitivo, etc, de onde nos encontramos a observá-los. A verdade, tal como a colocas, pode existir em contextos simples, como em alguns nichos da ciência ou da justiça, por exemplo. No mais, é um conceito volátil e dado a manipulações perigosas.

    Por isso, também, é que o papel dos historiadores é lixado. Talvez o historiador perfeito seja uma máquina, no futuro.

  8. Raquel, eu como leitor assíduo do blog e dos seus textos, penso que está a criar um celeuma em torno do livro de João Camargo. Em primeiro lugar, na entrevista, o ponto fulcral é somente o livro, que o autor não o associa ao movimento, mas sim à origem da crise, e dos males por eles engedrados na sociedade actual. Ponto final. Ele explica isso mesmo na entrevista. Não vejo aqui oportunismo algum, se bem que o nome do título é igual ao movimento que organizou as duas últimas manifestações, mas, como estamos num país livre, cada um pode usar o título que achar melhor. Aliás, reforço que o livro serve para mostrar o que esteve/ou está por detrás da crise, só isso!E quanto ao facto de ele falar em nome do QSLT, não esqueçamos que foi o próprio jornalista que começou por trata-lo como menbro do QSLT e foi o próprio jornalista que desviou o tema central da entrevista, a apresentação do livro, para insistir nesse “campo”. Não vamos complicar as coisas. Um abraço a todos.

  9. Riot says:

    Bom texto!
    Faz falta a frieza e sobriedade da análise marxista.
    De certa forma, há muitos marxistas que apoiam o QSLT por compreenderem a necessidade de uma espécie de Frente Popular que, de alguma forma, consiga enformar e promover a resistência social. Porém, torna-se um pouco difícil aturar a tendência pós-moderna para substituir a análise e a estratégia por um desconstrutivismo quase pueril. Parecem aqueles que, à semelhança de José Sócrates, descobrem fascinados que tudo é narrativa, mas que não compreendem que assim a promoveram a um imenso nada, um conceito demasiado vago e abstrato para analisar qualquer coisa que vá além do discurso.

  10. Vasco Freitas says:

    A Raquel porventura já leu o livro? Parece-me que se baseia numa entrevista do autor em que, curiosamente, na resposta que dá sobre a criação de um partido QSLT é mais evasivo do que outra coisa. “O futuro o dirá” é uma generalidade tão corriqueira como qualquer outra, não deixa vislumbrar qualquer tipo de plano sobre o que quer que seja.
    Também seria curioso que transcrevesse as partes em que o autor do livro se declara porta-voz de todos os membros do grupo QSLT, eu ouvi 2 vezes e não consigo perceber isso, aliás, há um certo cuidado do autor em responder de forma o mais pessoal possível.

    Como nota final digo-lhe que a humildade é uma virtude interessante, mas sabe Raquel a honestidade também, é que se a Raquel não é uma intelectual é o quê?

    Cumprimentos.

  11. Pingback: “Outra vez sopa?” | cinco dias

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