25 de Abril : «Uma Clínica para o Povo»

A situação económica em Portugal em Março de 1975 é política e socialmente insustentável. Multiplicam-se as lutas no sector produtivo. São mais de 200 mil desempregados, uma queda histórica no PIB, empresas a fechar, patrões forçados a um auto-exílio causado quer pela falência das empresas quer pelo questionamento da propriedade privada pelos trabalhadores.

No dia 1 de Março de 1975 o encerramento da CIFA – Companhia Industrial de Fibras Artificiais (seda artificial, nylon) ameaça mandar milhares de trabalhadores para o desemprego. Pede-se a intervenção do Governo e a possibilidade de nacionalização da empresa.[1] A luta dos trabalhadores da Renascença começa a ter manifestações de solidariedade nacional de trabalhadores da rádio e TV também no dia 1 de Março. Os pescadores de Peniche fazem uma greve de solidariedade com a greve dos pescadores do Algarve. Há lutas na Manuel Ferreira Salgado, na SEC, na Transformal, no Banco de Portugal, na UTIC, na companhia de seguros Funchalense, na Congel, na Mato-Meca. Na Estação Agronómica discutem-se os saneamentos. No dia 4 de Março o Conselho de Ministros analisa as empresas em dificuldade e condena «as atitudes dos funcionários públicos, contrárias ao interesse nacional»[2]. Na primeira semana de Março os estudantes da Faculdade de Direito de Coimbra exigem o saneamento de 16 professores, entre eles, Antunes Varela e Braga da Cruz. O dia 5 de Março é o 14.º dia de greve na Rádio Renascença. Não é claro que a maioria destas lutas seja defensiva – contra os despedimentos – porque em muitos processos de luta destes meses iniciais de 1975 há conquistas como o 13.º mês, aumentos salariais, subsídio de desemprego, fixação do salário máximo, distribuição dos prémios por todos os trabalhadores, readmissão de despedidos, etc. Na Central de Cervejas, Pereira Roldão, ferrageiros do Porto, sector têxtil do Porto, pescadores, só para citar alguns exemplos.

A revolução ganha contornos sociais inesperados: no dia 3 de Março os trabalhadores do próprio sindicato dos metalúrgicos afirmam que não aceitam ser tratados pela direcção do sindicato «como por um patrão»[3]; em Almada, um palácio é ocupado para «fazer uma clínica para o povo»; o clima geral de assembleísmo leva a que se escreva nas páginas de desporto do República que, nos clubes, «foi uma semana de assembleias»[4]. Os Cristãos pelo Socialismo declaram que a hierarquia impede os cristãos de fazerem a redescoberta da força revolucionária dos evangelhos»[5]. Mário Soares defende «a via democrática e original para o socialismo»[6] e o PPD afirma que a «construção do socialismo deve assentar na evolução das estruturas mentais»[7]. O Conselho de Ministros faz saber, logo no 1.º dia de Março, que «não serão permitidas quaisquer reuniões de funcionários para assuntos alheios aos serviços, durante as horas de funcionamento dos serviços públicos ou com prejuízo da sua pontual abertura (…) continuarão a ser dadas as facilidades para a realização de reuniões fora do horário de abertura dos serviços»[8]. Por pressão popular, lê-se no República, «ocupam-se casas e mudam-se nomes das ruas[9]». Também no República pode ler-se: «Naturalmente necessitados de sede, três partidos (MES, PUP e LCI), à falta de melhor remédio, resolveram o problema ocupando no último fim-de-semana edifícios que estavam desocupados»[10]. A propósito do mesmo tema lê-se no Diário Popular que «devido a carecerem de instalações compatíveis com as suas actividades, o MES, a FSP, o PUP e a LCI, que têm enfrentado dificuldades por parte dos senhorios para alugarem casas destinadas aos seus serviços, ocuparam, respectivamente, residências devolutas»[11].

Raquel Varela é autora de História do PCP na Revolução dos Cravos (Bertrand, 2011) e Revolução ou Transição?. História e Memória da Revolução dos Cravos (Bertrand, 2012).

Artigo 11  – Este artigo faz parte de uma  série: 25 Artigos para 25 Dias, 2013. Publicado também em http://raquelcardeiravarela.wordpress.com/


[1]República, 1 de Março de 1975, p. 6.

[2]República, 5 de Março de 1975, p. 7.

[3]República, 3 de Março de 1975, p. 8.

[4] República, 1 de Março de 1975, p. 17.

[5]República, 7 de Março de 1975, p. 6.

[6]República, 3 de Março de 1975, p. 9.

[7]República, 3 de Março de 1975, p. 9

[8]República, 1 de Março de 1975, p. 7

[9]República, 3 de Março de 1975, p. 13

[10]República, 11 de Março de 1975, p. 10

[11] «Casas Ocupadas por Agrupamentos Políticos». In Diário Popular, 10 de Março de 1975, p. 19.

Advertisements

About zenuno

http://despauterio.net
This entry was posted in 5dias. Bookmark the permalink.

2 Responses to 25 de Abril : «Uma Clínica para o Povo»

  1. JgMenos says:

    Maio de 1974 – uma noite, um oficial de serviço a uma unidade militar perde o tino e, em trajes menores, dá ordens ‘ordem unida’ ao corpo da guarda.
    De manhã é fardado e dada ordem de o conduzirem ‘à Junta’.
    O motorista, em vez de ir para a Junta médica do Hospital Militar, descarrega-o meio atordoado na Junta de Salvação, em Belém; dão-lhe uma secretária e atende comissões de moradores e outras delegações até que alguém o descobre passada quase uma semana!
    Nada falta em originalidades revolucoinárias…

  2. Vítor Vieira says:

    Nada como ir à fonte. Ver o que Carlucci dizia sobre o seu amigo Soares. Agora que o Wikileaks colocou as coisas de forma mais simples de visitar, tudo é mais fácil. Gosto particularmente de https://www.wikileaks.org/plusd/cables/1975LISBON04128_b.html e de https://www.wikileaks.org/plusd/cables/1975LISBON00455_b.html

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s