O comentador-estrela

Ainda há poucos anos Gomes da Silva perorava sobre a ausência de contraditório nas homilias de Marcelo. Agora é o próprio Marcelo que o recorda para se orgulhar de as suas “conversas em família” estarem na moda.
Marques Mendes, Jorge Coelho, Bagão Félix, António Vitorino, Medina Carreira, Augusto Santos Silva e, mais dia menos dia, José Sócrates – neste rol de personagens-chave tamanhamente partidarizado em torno do bloco central apenas destoa Francisco Louçã, sendo particularmente escandalosa a ausência de alguém da esfera do PCP – repetirão o modelo de comentador-estrela preparando o terreno, com todo o tempo mediático do mundo, para regressar à actividade político-partidária de que se fingem distantes. Dos seus espaços televisivos sairão as últimas picardias e caneladas preferencialmente para todos os outros que não têm canal aberto para as suas estratégias pessoais de poder.
Do denominador comum que é a ânsia por desempenhar novos cargos de poder político ou financeiro também ressalta, na maior parte dos casos, uma repetitiva dificuldade em distinguir a política dos negócios e das inimizades. Não sendo programas que se destaquem pelas audiências – a maioria está farta de ver e ouvir as mesmas pessoas há décadas a fingir dizer coisas novas – estes monólogos destacam-se pela curiosa tendência para concentrarem patrocínios de marcas e produtos que, à primeira vista, pouco têm a ver com a actividade política.
Num quadro em que o debate político vai sendo cada vez menos plural, fazendo com que o programa “Bloco Central” (TSF) pareça um oásis de radicalidade, importa perceber que esse é mais um sinal de que o problema não é financeiro mas de sistema político.

Publicado hoje no i

P.S. – Parece que Morais Sarmento e Manuela Ferreira Leite também já estão na calha para mais monólogos.

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7 Responses to O comentador-estrela

  1. Don Luka says:

    sendo particularmente escandalosa a ausência de alguém da esfera do PCP – repetirão o modelo de comentador-estrela preparando o terreno, com todo o tempo mediático do mundo, para regressar à actividade político-partidária de que se fingem distantes. Dos seus espaços televisivos sairão as últimas picardias e caneladas preferencialmente para todos os outros que não têm canal aberto para as suas estratégias pessoais de poder.

    Tiago, se é para isto que achas que as participações na tv servem, então não percebo a tua queixa, “sendo particularmente escandalosa a ausência de alguém da esfera do PCP”. Não deverias antes orgulhar-te e agradecer que ninguém do teu partido esteja enterrado nesse lodaçal? O teu comentário deixa claro que o PC não quer fazer a diferença, antes quer tomar parte na farsa.

    Já agora, a presença do F. Louçã não destoa da música de fundo. O (ex) partido do F. Louçã apoiou o candidato Alegre nas presidenciais — essa estatuada figura da esquerda nacional, que cantou trovas a Sócrates sem que lhe doesse a voz — e a deputada Ana Drago acha que o BE se deve entender com o PS. O BE parece cada vez mais um ninho de víboras sedentas de dançar o tango no poder.

    • De says:

      Vamos ver se explicamos para até o Lucas perceber:
      “Marques Mendes, Jorge Coelho, Bagão Félix, António Vitorino, Medina Carreira, Augusto Santos Silva e, mais dia menos dia, José Sócrates ” é o lote escolhido pelos media fidelizados à voz do dono como seus comentadores-estrela.
      Eles são escolhidos pela sua posição ideológica,pelos interesses que defendem, por serem mais ou menos neoliberais,mais ou menos de direita.”Repetirão o modelo de comentador-estrela preparando o terreno, com todo o tempo mediático do mundo, para regressar à actividade político-partidária de que se fingem distantes. Dos seus espaços televisivos sairão as últimas picardias e caneladas preferencialmente para todos os outros que não têm canal aberto para as suas estratégias pessoais de poder.”
      Factos indesmentíveis.
      Por radicalmente diferente o PC e outras vozes de esquerda são afastados.Eles de per si não se confundem com os jogos sujos dos primeiros. E seriam os porta-vozes de tudo o que o poder dominante quer esconder.A questão passaria não pelo colaborar na farsa, mas em desmascarar a farsa.E isto também não o pode permitir a corja neoliberal pesporrenta que detém o poder.
      Percebido?

      Poder dominante que já nem tem vergonha de ao menos formalmente não respeitar as regras do jogo democrático.É chocante mas é extremamente elucidativo o que se passa.
      Eles sabem também de onde pode vir o perigo

  2. António Morais says:

    A propósito do conteúdo deste texto, e na sequência do comentário anterior, permite-me sugerir a criação de um movimento que problematize e estruture um combate em torno do papel da ideologia destilada, nomeadamente pelos órgãos de comunicação social, com incidência particular para a televisão. Nesta problematização destaco a censura/ausência de opiniões plurais e RADICALMENTE contrárias, deturpação e aviltamento de perspectivas de esquerda consequente, entre outros. Embora isto seja evidente e fundamental, porque estrutural, pergunto-me porque é tão pouco problematizado pela área do BE, como ainda em vários blogues pretensamente atentos à realidade política.
    Neste aspecto, destaco papel que tem tido o PCP, nomeadamente através do Avante!, e outros camaradas bloguers, de onde destaco o Vitor Dias, contudo, e dada, a sua relevância “convém” alargar o campo de luta.

  3. juca says:

    Escandalosa é a ausência de alguém exterior à esfera dos cinco partidos representados no parlamento, os mesmos que têm lixado tudo desde 1974, isso é que é escandaloso.

    • De says:

      Há alguma coisa de errado nas suas contas.
      Cinco partidos presentes?
      Eu só vejo 4.

      E vejo presentes alguns que se assumem como “independentes” como Medina Carreira.
      E vejo presentes na pantalha coisas de extrema-direita, como Camilo Lourenço.
      Lixado tudo tem sido o leit.motiv dos descendentes político-ideológicos de salazar e caetano que estão agora no poder, com a ajuda de uns tantos que lhes abrem o caminho e o jogo.
      Anda distraído ou isso é mesmo desvelo ideológico?

  4. escorpiãovermelho says:

    Tiago, porque será que o Louçã está e ninguém do PCP não? O BE sempre foi um partido mediacrata que nunca assustou ao de leve o sistema.

  5. Antónimo says:

    Por acaso vi parte da última prestação televisiva do Louçã, um fulano por quem não tenho antipatia e que em regra até vale a pena ouvir. desisti, aquilo para mim é jogo político-partidário.

    O político-comentador é mesmo um formato sem sentido nenhum, esteja entregue a quem estiver.

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