Que o poder caia na rua

Não creio que a maioria social que exige a demissão deste governo acredite que o PS possa ter soluções muito diferentes das levadas a cabo por PSD/CDS. E se é certo que a vontade que a população tem demonstrado de ser um actor político cada vez mais interventivo não se deve esgotar em eleições, também é verdade que essa mobilização terá de encontrar um espaço de ruptura no plano eleitoral que se constitua a partir de uma possibilidade de ser poder.
As mais recentes investidas de cidadãos autoproclamados de independentes, ainda que orbitem em diferentes esferas do poder, afunilando o problema em pormenores do sistema eleitoral, na Constituição ou na manutenção do depauperado Estado social, são, na prática, tentativas de enviesamento do problema central: o sistema como um todo.
No plano eleitoral, que – repito – não pode esgotar o potencial de participação que se tem visto nas ruas, urge o surgimento de uma força política que dê perspectivas de ser poder e que enfrente sem dogmas os problemas do país. Uma força política que não coloque de lado a saída do euro, que assuma como central a nacionalização da banca, o aumento dos salários ou a renegociação da dívida, dará uma expressão eleitoral a muito do que é reivindicado nas ruas. A manutenção de um discurso de esquerda manso – defendendo o euro ou floreando sobre alianças – não corresponderá à radicalização que o povo exige nas ruas e com urgência.
A não constituição desta força social e política abrirá espaço a que a insatisfação se traduza eleitoralmente em movimentos de carácter populista que não têm qualquer aspiração a provocar uma ruptura no sistema ou a enfrentar a casta que nos governa há mais de 30 anos.

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20 Responses to Que o poder caia na rua

  1. Carlos Carapeto says:

    A questão só pode ser resolvida desta forma. Mudar o sistema, o problema reside aí.
    E esse dever pertence aos verdadeiros patriotas, aos intelectuais progressistas, aos eternos marginalizados, à classe subalterna, aos explorados e oprimidos.
    Tal como a realidade tem provado, mudar as pessoas não altera nada.
    Porque as vozes mudas só têm servido para dar continuidade ao sistema.

  2. Ana B. says:

    Eu gostava que isso fosse verdade… Mas daqui, do Portugal profundo, não se antevê esse futuro, aliás vê-se um passado prontinho a saltar-nos em cima.

  3. JgMenos says:

    ‘…não corresponderá à radicalização que o povo exige nas ruas e com urgência’
    Estar zangado, frustrado, assustado, tem tanto de radicalismo quanto o precedente consumismo tinha de conformação ao sistema – meramente incidental!

    • Nuno Cardoso da Silva says:

      Com efeito, o povo não exige radicalização. O povo exige soluções para os seus problemas. Nós podemos saber que essas soluções não são possíveis sem alterações radicais no sistema, mas não se imagine que o povo sabe isso ou que estará disposto a dar-nos o seu apoio para essa radicalização. Temos de ser muito convincentes e gradualistas para conseguirmos o apoio democrático necessário a mudar o que tem de ser mudado. Se ficarmos impacientes e quisermos avançar mesmo sem o apoio popular, acabaremos com polícias políticas e gulags… Como de costume…

      • Carlos Carapeto says:

        Apraz-me ler a palavra GULAG escrita por pessoas de direita ou por quem ronda essas bandas embora apontem noutra direção.
        Com os desvarios que o capitalismo lá tem provocado mas que faltam fazem umas coisitas dessas agora.

        Perturba-os os GULAG e não os perturba os pântanos de AKMOLÁ?
        Um dia talvez tenha-mos ocasião de abordar isso.

    • De says:

      “zangado,frustrado,assustado, são palavras escolhidas por Menos para defender a sua posição de situacionista perante o sistema.
      No fundo,no fundo como se o que vivemos hoje se tratasse apenas de sentimentos típicos de adolescentes perdidos e assustados perante o descalabro que assistimos
      (não sequer vale a pena falar no consumismo e na sua incidental conformação ao sistema…lol)
      É cada vez ampla a convicção de que as coisas não podem continuar como estão
      “O povo é o agente das grandes rupturas históricas. Mas para que ele se assuma como sujeito é imprescindível consciência politica.É esse também o papel dos revolucionários
      E é precisamente isso que Menos teme

      • JgMenos says:

        Puro engano!
        Não são os revolucionários que me atemorizam mas o sim que necessariamente se lhe seguirá..
        Esses livros do século XIX esgotaram a sua validade em meados do século.XX , mas permanecem à cabeceira de DE. Sonhos felizes!

      • De says:

        Hum…Menos e o que se passa em Chipre?
        Um comentário desbragado de Menos sobre a situação em Chipre berrava pela expulsão deste país do Euro e terminava com um “JÁ” deveras significativo.
        Agora a raiva transformou-se em “frustração,zanga,susto”.

        Os sentimentos típicos de “comentador de pacotilha” (prefiro dizer de classe) amansados perante o descalabro. Mas todo o ódio desbragado perante quem ousa dizer não

        Menos nem se apercebe, na sua furia e no seu mister, que as suas ideias são ainda mais velhas que o século passado.Vêm pelo menos desde os tempos da inquisição

      • JgMenos says:

        Eu sei que o oportunismo é para si uma inevitabilidade mas nem por isso lhe assenta bem!
        Se Chipre é um paraíso fiscal que funcionou mal, nada mais razoável do que pagar um preço por isso!
        Ai, que é um imposto retroactivo, confisco e mais que tal! Seja!
        Que eu vá pagar impostos para que o paraíso permaneça e seja confirmado – não interessado!

      • De says:

        Eu não sei se lhe fica bem ou não.Estou-me positivamente nas tintas.De facto não é “oportunista” a qualificação mais adequada no seu caso.
        Mas demagogia barata e vivas à troika e aos troikistas não passam.
        Fazer pagar os cipriotas em geral pelos desmandos alheios e englobá-los na categoria de “mafiosos russos” é de pulhas sem princípios e subditos fiéis do capital
        E aí vossemecê está como peixe na água?
        O que só confirma a sua fúria travestida de zanga, frustração e susto

      • De says:

        Registe-se que tal comentário de Menos por mim citado, englobava o confisco dos depósitos com menos de 100 000 euros.
        O que seria exactamente igual para menos mais a sua cólera troikista assim extravasada

  4. De says:

    O descalabro,”meramente incidental”,que a troika interna e a troika externa têm conduzido o nosso país.

    O descalabro económico e social em Portugal:
    “Os desvios que se verificam entre as previsões que serviram de base à elaboração do Orçamento do Estado de 2013 e as previsões que resultaram da 7ª avaliação da “troika” de Mar.2013 são enormes. A nível do PIB a quebra aumenta 130%; no consumo privado a diminuição é de 59,1%; no investimento a quebra é 81% superior à prevista no OE-2013; a quebra na procura interna é 41,4% superior à prevista no OE-2013; a diminuição na taxa de crescimento das exportações atinge 77,8%, podendo dizer-se que vão praticamente estagnar em 2013; a destruição de emprego aumenta 129,4% relativamente à taxa prevista no OE-2013. O cenário macroeconómico do OE-2013 é fantasioso, tal como as quebras nas receitas fiscais e nas contribuições para a Segurança Social em Jan.2013 – inferiores às de Jan.2012 em 82,8 milhões € – acabam de confirmar.
    Interromper este caminho de desastre é cada vez mais urgente, por muito que esse facto incomode os cálculos do PS.
    Eugénio Rosa

    Há que espalhar estes dados,objectivos e concretos.Para desmascarar a informação veiculada pelos media e pelas trombetas do sistema.
    E para esfregar nas carantonhas feias,sujas e repelentes dos terroristas sociais que nos governam

    • JgMenos says:

      Dados objectivos da treta!!!
      Se o orçamento da troika é o que asegura o financiamento, esse é o bom orçamento até que se possa garantir que outro orçamento produza esse efeito!
      Mas as ‘virgens da política’ gostam de planos quinquenais com os números bem martelados e a bater sempre certo no papel!!!

      • De says:

        A verdade dos factos é terrível para um personagem como Menos que tem na troika o seu alfa e omega quotidiano
        Mas quando alguém como Menos fala em que estes números são “tretas” ficamos a aguardar que os corrija ou rectifique.Sob pena de continuar menos a rastejar no lodo da mentira e da manipulação.Mais os seus planos quinquenais martelados (a fazerem-se passar por virgens) com que mostra a sua patética impotência em discutir factos concretos e reais.
        Um cobarde a fugir para o quinquénio.E mais irritado do que seria aconselhável dada a sua “zanga, frustração e susto”Percebe-se porquê
        🙂

  5. silivondela says:

    Romper com o sistema implica explicar (porque somos todos muito burros), desmistificar a inevitabilidade do Euro e da UE. E quem o poderá fazer não aparece com tempo de antena, ou cortam-lhe a palavra antes que o possa fazer – não convém.
    Explicar leva tempo. O mesmo tempo que os situacionistas levam a estruturar a defesa dos seus interesses, a fuga de capitais, a concertação internacional da contra-reação, a criação do aparelho repressivo – que cria mais dependência e mais medo, mais desespero e espaço ao populismo.
    A nacionalização da banca e o controlo dos fluxos financeiros não se anuncia como programa de governo – faz-se. E sempre em simultâneo com outras medidas coordenadas. Doutra forma é ineficaz.
    Cheira a revolução? cheira! e sabe!
    De facto o PS não difere dos actuais: até a moção de censura tem de ser, antes, explicada à troika (autorizada, melhor dizendo) – faz-me lembrar a autorização do patrão a substituição de um Proença, na UGT.

  6. vitor dias says:

    Caro Tiago:
    Escreves que «No plano eleitoral, que – repito – não pode esgotar o potencial de participação que se tem visto nas ruas, urge o surgimento de uma força política que dê perspectivas de ser poder e que enfrente sem dogmas os problemas do país».

    Sublinho «urge o surgimento». Eu já tenho – e é bastante antiga (92 anos) – e pensava que tu também.

  7. Miguel A. says:

    o PCP está-se a mexer, e vai começando a apontar a saída do euro como um cenário. por outro lado, o BE, inspirado pela posição de defesa da manutenção na moeda única de Louçã, até se arrepia só de ouvir falar em saída do euro.

    • Nuno Cardoso da Silva says:

      O PCP faz de conta que as realidades económicas não existem e que sair do euro não só é desejável como teria consequências positivas. O Louçã, que sabe umas coisas de economia, não vai em fantasias e “wishful thinking”. Ele bem sabe o desastre que seria a nossa saída do euro, na situação em que estamos. Não me parece que seja por cegueira ideológica que defende a nossa manutenção – enquanto de todo possível – na zona euro, mas porque sabe os efeitos que essa saída teria na inflação, nas taxas de juros, na nossa frágil competitividade, e no peso da dívida externa (cotada em euros e dolares) e no desemprego. Eu posso não concordar com muitas das políticas que Louçã defende, mas neste caso ele tem toda a razão.

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