O carrocel de Belmiro, Ulrich e Soares dos Santos

Um par de anos antes da Comuna de Paris, durante a greve dos trabalhadores, os patrões da indústria de fundição de ferro não tiveram qualquer pudor em dizer que os operários voltariam ao trabalho “quando tivessem fome”. A força de saber que tinham do seu lado não só o poder económico mas também o poder político, e por conseguinte a imprensa da época, abria-lhes as portas a qualquer tipo de declaração despudorada e reaccionária. Em resposta à burguesia francesa, o operário Albert Theisz disparou que era preciso que a consciência do povo fosse muito generosa para que, apesar da miséria e do desemprego, ainda não tivesse pedido contas à burguesia pela sua riqueza. 
 
Século e meio depois, é a mesma confiança no poder político que permite aos proprietários dos bancos e dos grandes grupos económicos cuspir qualquer tipo de insulto aos trabalhadores para lembrar aos de baixo que mandam os de cima. As declarações de Alexandre Soares dos Santos, Fernando Ulrich e Belmiro de Azevedo são importantes atestados de vida para que não esqueçamos que o poder não está na Assembleia da República, no Palácio de São Bento ou no Palácio de Belém. Para além da minoria parlamentar – achincalhada pelos jornais e televisões dos bancos – que representa os interesses de uma maioria que ainda não o sabe, é ali que moram os empregados políticos dos banqueiros.
 
Sobre a mão-de-obra barata gerar mais emprego, Belmiro de Azevedo não fez mais do que verbalizar aquilo que PS, PSD e CDS-PP praticam. Os níveis absurdos de desemprego são uma das ferramentas mais eficazes para a redução geral de salários. Mas pareceram-me bem mais importantes as declarações que o timoneiro da Sonae fez sobre as manifestações. É que as palavras de Belmiro de Azevedo atestam aquilo que poucos se atrevem a dizer. A relativa liberdade de expressão e manifestação permite mascarar a realidade: quem manda hoje também mandava durante o fascismo. Belmiro de Azevedo sabe bem que é mais fácil gerir o capitalismo nesta democracia aparente do que sob o regime de Salazar e Caetano. 
 
Nesta democracia em que a oligarquia se finge chocada com aquilo que se faz no Chipre mas não se comove com o roubo bem mais violento de que são vítimas os trabalhadores portugueses, há espaço para brincarmos aos carrocéis. Ora subimos ao cavalo do PSD, ora subimos ao cavalo do PS. Mais uma voltinha, mais uma viagem. E, anestesiados pela música, esquecemos que os dois cavalos são de quem enche os bolsos à nossa custa. É assim que funciona o circo democrático em que vivemos. Dentro de uns tempos, quando o povo despertar de forma inequívoca e se fartar de andar sempre nos mesmos cavalos, os donos do carrocel vão pintá-los com outras cores. Sem a tomada do poder económico pelo poder popular, caíremos derrotados. Cabe-nos tomar, uma vez mais, o céu de assalto.
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2 Responses to O carrocel de Belmiro, Ulrich e Soares dos Santos

  1. Rocha says:

    É por essas mesmas que razões que lanças no post que eu não acredito que em Portugal exista a possibilidade de uma fase intermédia – por mais “avançada” que seja – entre o actual regime de ditadura capitalista de fachada democrática e a revolução socialista. E percebo que o sentido dessa fase intermédia é reforçar o unitarismo, mas esse unitarismo (com a pequeno-burguesia entenda-se) é uma faca de dois gumes.

    Oxalá eu esteja enganado.

  2. Rafael Ortega says:

    “Para além da minoria parlamentar […] que representa os interesses de uma maioria que ainda não o sabe”

    E o povinho estúpido que continua há 40 anos a não votar nessa minoria, em número suficiente que a leve ao Governo…

    Esta frase diz muito sobre muita gente…

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