25 de Abril: Por que entram os comunistas no Governo?

Mário Soares, líder do Partido Socialista, inicia no dia 2 de Maio de 1974 um périplo pelas chancelarias das principais cidades europeias ocidentais. Pelas actas desses encontros, é possível confirmar que Soares defende que os comunistas devem entrar no Governo porque são o partido político mais bem organizado, num quadro em que nem a direita nem a social-democracia têm capacidade para se reorganizarem tão depressa; se não entrassem no Governo poderiam exigir eleições imediatas e eram os únicos com uma máquina política preparada para as vencer. Soares procura conseguir, de acordo com as suas palavras, pelo menos um ano para organizar o PS até às eleições; finalmente, diz o líder socialista, era preciso responsabilizar o PCP pelo controle do movimento social, que ameaçava explodir no meio da guerra, crise económica e mobilização popular[1].        

Quando parte para o périplo europeu, Soares vai numa missão como secretário-geral do Partido Socialista (e não como representante oficial da Junta de Salvação Nacional, como deixa claro aos interlocutores), para tentar quebrar o isolamento político de Portugal e recolher fundos e apoio técnico para a construção do PS. As conversas são transcritas, telegrafadas ou copiadas pelas chancelarias e os documentos estão nos National Archives, no Reino Unido.

Em Bona, Mário Soares declara que a situação económica de Portugal é gravíssima, que vai «dissuadir os trabalhadores dos aumentos salariais a que o aumento dos preços lhes dava direito»[2], que já negociou com António de Spínola a formação do novo Governo, no qual participarão comunistas, mas com pastas secundárias; que o PS, dada a fraqueza da direita, é o único partido capaz de disputar a direcção do País ao PCP, mas que para isso Soares vai precisar de ajuda financeira e apoio técnico[3]; e, finalmente, que é urgente iniciar o processo de descolonização. Aos britânicos, Soares pede aconselhamento de técnicos e políticos ligados à Commonwealth e transmite-lhes que não há diferenças entre ele e Spínola quanto à natureza do processo de descolonização, apenas que Soares acredita numa descolonização «um pouco mais rápida»[4] que Spínola.

Mas as conversas são também dominadas pela relação entre os comunistas e os socialistas. Mário Soares, reconhecendo que está em posição desfavorável face ao PCP para ganhar um processo eleitoral, sobrevaloriza de certa forma a força do PS, ao dizer que provavelmente vai ser o primeiro-ministro do I Governo. Mas admite que o PCP tem uma máquina mais preparada. Ao ministro dos Negócios Estrangeiros belga, Mário Soares declara mesmo «preocupação» por os comunistas estarem mais bem organizados[5], e daí a necessidade de crescimento do PS e a determinação em «pedir aos partidos irmãos socialistas conselho e apoio financeiro»[6]. Até porque, afirma Soares, o PS é o único partido capaz de disputar ao PCP a direcção do País. O PS será o partido da «liberdade» e do centro político, da moderação (middle-of-the road no original)[7]. O líder do PS jacta-se de ter conseguido roubar protagonismo a Cunhal ao ter chegado a Lisboa dois dias antes do líder do PCP.

Nesta altura, porém, e publicamente, o que prevalece é a unidade do Governo, indispensável, nas palavras de Mário Soares, telegrafadas pelo embaixador norte-americano em Bona, por duas razões: «Soares disse que os planos da Junta para formar um governo provisório dentro de uma ou duas semanas incluíam elementos do espectro político português, da esquerda à direita. Na esquerda, o Governo incluiria comunistas e socialistas. Soares avançou duas razões para a inclusão dos comunistas no Governo: primeiro, como o novo governo era nomeado em vez de eleito, achava-se que se os comunistas não entrassem no Governo iam pressionar para eleições livres imediatas. Segundo, os próximos meses iam ser decisivos para o governo lidar com os inúmeros problemas de Portugal e seria muito melhor ter os comunistas a partilhar as responsabilidades pelos sucessos e falhanços do seu governo do que estarem numa posição crítica.»[8]

O assunto é determinante, uma vez que em Portugal se estava a pôr em causa o ‘tabu’, com perto de 30 anos, de não haver partição comunista em governos ocidentais. No entanto, esse tabu é posto em causa pela própria burguesia portuguesa e por sectores social-democratas apenas uma semana depois de derrubado o regime por um golpe militar. Pela natureza desse derrube, exactamente. Todos os países ocidentais se preocupam com o que se passa em Portugal: os telegramas voam de embaixadas para delegações diplomáticas. O Governo britânico, por exemplo, segue, tendo sempre presente um perfil político, pessoal e histórico de Soares actualizado, o périplo do líder socialista pela Europa e tem em sua posse a descrição das reuniões de Soares na Holanda, na Bélgica, na Alemanha. Há troca de cartas com Kissinger[9]. A preocupação centra-se na formação de um governo pró-ocidental, na manutenção dos acordos da NATO e na aceitação da Comunidade Económica Europeia, e numa descolonização o mais indolor possível, bem como na contenção da agitação social. As chancelarias ocidentais acreditam que a radicalização da revolução pode seguir por duas vertentes: em primeiro lugar, os efeitos da crise económica na radicalização social; e, em segundo, os efeitos que o derrube do regime pela oficialidade intermédia podia ter nos soldados[10].

Artigo 5 – Este artigo faz parte de uma  série: 25 Artigos para 25 Dias, 2013. Publicado também em http://raquelcardeiravarela.wordpress.com/

[1] Foreign Office, Central Department and Foreign and Commonwealth Office, Southern European Department: Registered Files (C and WS Series) FCO 9/2072 Visit by Dr Mario Soares, Portuguese Minister of Foreign Affairs to London and other European capitals, 1-6 May 1974 . Foreign Office,Date: 1974. Source: The Catalogue of The National Archives.

[2] Foreign Office…, documentos citados.

[3] Foreign Office…, documentos citados.

[4] Foreign Office…, documentos citados.

[5] Foreign Office…, documentos citados.

[6] Foreign Office…, documentos citados.

[7] Foreign Office…, documentos citados.

[8] Foreign Office…, documentos citados.

[9] Foreign Office…, documentos citados.

[10] Foreign Office…, documentos citados.

Advertisements

About zenuno

http://despauterio.net
This entry was posted in 5dias. Bookmark the permalink.

2 Responses to 25 de Abril: Por que entram os comunistas no Governo?

  1. artur almeida says:

    É verdade, assisti naquilo que pude, à sua tragetória. O Problema de facto era, como sempre será, o PCP. E o PS. não tinha meios nem militantes capazes de pôr de pé uma máquina capaz de ganhar eleições. Além do mais era preciso desgastar o PCP. (Comiam as criancinhas e matavam os velhinhos) Era preciso também que cada padre fosse um propagandista anti-PCP. A verdade é que o trabalho foi feito e deu no que deu. Como tudo se aprende com a prática espero que já haja quem tenha aberto os olhos.
    Vá dando noticias. Um abraço

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s