O 25 de Abril, as fontes e a centralidade do conflito social

As obras que têm marcado o debate recente em torno da revolução portuguesa, com perspectivas diferentes entre si, privilegiam o papel dos sujeitos representativos, partidos e MFA, centrando-se nos arquivos institucionais ou entrevistas actuais a quadros dirigentes da revolução, militares ou civis, nacionais ou internacionais[1]. Estas obras são hoje indispensáveis para compreender a revolução portuguesa, tendo historicizado acontecimentos tão fulcrais como o papel dos militares ou as influências externas na revolução portuguesa. Mas é notório o predomínio que obras centradas em direcções políticas e tendo como fonte principal os próprios dirigentes políticos (com um boom de história oral feita com dirigentes de Estado, de partidos, de associações, de escolas, etc.) tem sobre os estudos que abordam as classes sociais.

Poder-se-ia atribuir o facto ao perene problema das fontes, que é sempre referido quanto se trata de analisar a história das classes trabalhadoras e populares. Carlo Ginzburg, por exemplo, inicia o seu O Queijo e os Vermes justamente lembrando que «A escassez de testemunhos sobre o comportamento e as atitudes das classes subalternas do passado é com certeza o primeiro – mas não o único – obstáculo contra o qual as pesquisas históricas do género se chocam»[2]. Precisamente quando se trata de uma situação revolucionária, cuja característica primeira é a participação social de milhões de pessoas até aí afastadas da política, a escassez de fontes é um obstáculo tão ou mais difícil de ultrapassar. Mas não impossível. Leon Trotsky, na obra A História da Revolução Russa, refere justamente a obrigação que os historiadores têm de ultrapassar a escassez parcial de fontes: «As dificuldades encontradas quando se estudam as modificações da consciência das massas em época de revolução são totalmente evidentes. As classes oprimidas fazem a História nas fábricas, nos quartéis, nos campos, e, as da cidade, nas ruas. Não têm entretanto o hábito de anotar, por escrito, o que fazem.» Apesar de tudo, é nos fragmentos, anotações “disparatadas”, fortuitas das massas, refere Trotsky, que os dirigentes políticos adaptam a sua táctica. Assim, pergunta Trotsky, porquê o que «era acessível a um político revolucionário no torvelinho da luta se tornaria impossível, retrospectivamente, para um historiador?»[3].

Hoje há mais fontes em Portugal para estudar a revolução do que havia a seguir à década de 70 do século XX, quando foram feitos os estudos do movimento operário português da revolução ou as obras que estudaram a revolução privilegiando a história das classes e das suas direcções, como os ainda hoje imprescindíveis estudos de Chip Dows[4], Santos et al[5], John Hammond[6], Loren Goldner[7], entre outros. A escolha da abordagem historiográfica que fazemos é central e não diz respeito só a um problema de fontes. Porque o problema central não é o das fontes, mas o de haver historiadores disponíveis para trabalhar determinado objecto, como escreveu Eric Hobsbawm no ensaio «A História de baixo para cima»: «Muitas fontes para a história dos movimentos populares apenas foram reconhecidas como tais porque alguém fez uma pergunta e depois sondou desesperadamente em busca de alguma maneira – qualquer maneira – de respondê-la. Não podemos ser positivistas, acreditando que as perguntas e as respostas surgem naturalmente do estudo material»[8].

Passados mais de 35 anos da revolução portuguesa não existe em Portugal uma história do movimento operário na revolução portuguesa e o mais detalhado destes – que nos diz em quantas empresas houve conflitos laborais, que tipo de conflitos, de reivindicações, de métodos, de objectivos, número de trabalhadores envolvidos – continua a ser o realizado por Santos et al em 1977[9] e abarca as lutas sociais do final dos anos 70 do século XX e o período entre 25 de Abril de 1974 e 1 de Junho de 1974, menos de dois meses, portanto. Fátima Patriarca[10] e Duran Muñoz[11] estudaram também os movimentos sociais na revolução portuguesa, mas sem o detalhe do estudo de Santos et al. Os estudos sobre as ocupações de terras são mais abundantes e detalhados[12]. Mas no movimento operário isso não se passa. Mesmo coligindo todos os trabalhos acima citados, grande parte do puzzle da história da revolução continua por preencher.

Por exemplo: até onde foi a força dos trabalhadores em 1974-1975? Exagera-se ou não o papel dos trabalhadores durante a revolução, ou por outras palavras, mistifica-se a classe operária e seus aliados? Qual o grau de espontaneidade das suas acções? Quais eram a organizações que tinham mais força junto dos trabalhadores? Em que fábricas e em que áreas geográficas as acções foram mais radicalizadas? Em quantas empresas e fábricas houve lutas, que tipo de lutas e que força tinham as organizações políticas e sindicais entre o Verão Quente e 25 de Novembro de 1975? Qual foi a política dos principais partidos políticos, do PCP e do PS, para os trabalhadores? Qual o grau de autonomia do MFA face aos partidos e face aos trabalhadores? Porquê em 1974-75 a maioria da classe operária portuguesa aceitou ser dirigida por PCP/PS/MFA, confiando que o MFA dirigiria a mudança de regime, a «caminho do socialismo»? Porquê o 25 de Novembro, depois de um processo tão radicalizado, desferiu um golpe na revolução com tão pouca resistência popular e operária? O que aconteceu ao Estado na revolução portuguesa? Ou até onde foram aos organismos de duplo poder? Qual foi a real força das classes em Portugal naquele biénio e como actuaram as suas direcções?

Conhecemos o decreto do Conselho da Revolução que institucionalizou a nacionalização da banca nacional; os discursos inflamados do Presidente da República, Costa Gomes, a defender o decreto; o agradecimento público do Partido Comunista ao Conselho da Revolução. Não podemos fazer a história sem isto. Mas não sabemos em quantos bancos havia ocupações; quanto trabalhadores estavam a ocupar a instalações; quantos desses eram quadros dirigentes; quantos eram politizados, militantes de organizações de esquerda e de que organizações; quantos eram afectos ao PCP; qual o grau de luta dentro do sindicato dos bancários, qual o grau de confiança da base na sua direcção sindical.

Uma abordagem historiográfica que privilegie as lutas sociais é indispensável para compreender uma situação revolucionária, um passo no sentido de nos fazer mudar, em primeiro lugar, as perguntas. É impossível compreender a totalidade do golpe de 11 de Março de 1975 sem ter um levantamento das fábricas e empresas do País onde havia ocupações, greves e sequestro ou proibição de entrada do patrão/administrador na empresa, sem ter um conhecimento empírico detalhado sobre a conflitualidade social dos meses anteriores.

É um facto, por exemplo, que é historicamente menos complexo atribuir a responsabilidade da nacionalização da banca ao Conselho da Revolução porque esses documentos são de acesso mais facilitado, comummente. Mas assim fazendo, e cremos que era sobre isso que alertava Hobsbawm, a história será reduzida a uma luta racional de direcções políticas – partidos políticos, organizações sindicais, direcções, elites dirigentes –, que agem independentemente da sua base social e classe de origem.

Artigo 4 – Este artigo faz parte de uma  série: 25 Artigos para 25 Dias, 2013. Publicado também em http://raquelcardeiravarela.wordpress.com/

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