Diz-se Francisco, mas não o é

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Jorge Mario Bergoglio, o hoje papa Francisco I, ao escolher este nome pretenderá associar-se ao exemplo de S. Francisco de Assis (1182-1226). Este, filho de um rico comerciante de Assis, em Itália, despojou-se de toda a sua riqueza e encetou uma vida de pobreza junto do povo, contestando a opulência da Igreja Católica de então (e de agora, poderíamos acrescentar).

Porém, o passado de Jorge Mario Bergoglio associa-o mais com a ditadura instalada na Argentina pelo golpe militar de 1976, uma das mais sinistras e assassinas, que com a defesa dos pobres, como parecem atestar relatos hoje publicados na imprensa de língua espanhola.

«O médico Lorenzo Riquelme, hoje com 58 anos e residente em França, diz que o bando que o sequestrou e torturou em 1976 saiu da sede principal da Companhia de Jesus, onde vivia e era principal responsável o superior provincial Jorge Mario Bergoglio, o hoje papa Francisco I», escreve Horacio Verbitsky no jornal argentino Pagina 12. «Riquelme militava na Juventude Peronista e no movimento cristão ligado aos padres do terceiro mundo. Para descobrir onde encontrá-lo, agrediram a sua namorada, que trabalhava no Observatório de Física Cósmica de San Miguel, dentro do prédio do Colégio Máximo. Riquelme pensa que se tratou de um grupo operacional da Armada que se instalou ali depois do golpe militar de 1976, do general Videla e do almirante Massera. Nessa acção participou um sacerdote que com autorização de Bergoglio era capelão militar da Escola de Sargentos General Lemos, na vizinha guarnição de Campo de Mayo. O ex-jesuita Miguel Ignacio Mom Debussy, hoje com 63 anos, tomou votos a 13 de Março de 1976 e Bergoglio foi o seu padrinho de ordenação a 3 de Dezembro de 1984. Nas viagens entre San Miguel e a cidade de Buenos Aires em que era seu motorista, Bergoglio falou-lhe do projecto político do chefe da Armada, Emilio Massera, e comentou que se havia reunido com ele várias vezes».

«Bergoglio», escreve o Publico.es , «tem um passado obscuro na Argentina devido às acusações que há anos lhe fizeram relativamente à tortura e desaparecimento de um leigo e dois sacerdotes no tempo da ditadura militar que começou em 1976. Embora não haja sentença sobre o caso, cinco testemunhas confirmaram a relação do novo papa com estes desaparecimentos. O jornalista Horacio Verbitsky foi o investigador mais interessado em fazer luz sobre as provas que pudessem relacionar Bergoglio com estes episódios da guerra suja na Argentina.» Também as Avós da Plaza de Mayo (avós de pessoas feitas desaparecer pela ditadura) o obrigaram a declarar perante a Justiça pelo roubo de bebés (bebés filhos de militantes de esquerda assassinados que foram roubados e ‘adoptados’ por militares da ditadura).

«Porém, as relações de Bergoglio com a ditadura não terminaram aqui. Posteriormente, as Avós da Plaza de Mayo citaram-no para declarar ante a Justiça argentina pela sua alegada implicação no roubo de bebés; concretamente no caso da neta de Alicia de la Cuadra, uma das fundadoras daquela associação», prossegue o Publico.

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10 Responses to Diz-se Francisco, mas não o é

  1. José António Jardim says:

    Cada vez mais complicado o cinco dias…nem compartilhar no face consigo..pede-me palavras de segurança que não encontro em lugar algum.

  2. A associação não é com Francisco de Assis, mas com Francisco Xavier. Simbolicamente falando, a associação não é com os mais pobres e com a natureza, mas com a expansão desenfreada da igreja com base no missionarismo militante.

    • António Paço says:

      É capaz de ter razão, mas o homem também foi eleito certamente para, na América Latina, ser um rival poderoso da igreja que fez a opção pelos pobres, para disputar no terreno (e não na teoria, como o Bento XVI) o campo à teologia da libertação e afins.

  3. XiquinhoamigodeVilela says:

    Não consigo publicar o seu post no big brother,oops!feicebuke.Para além de rastrearem, agora,até já censuram!

  4. Vasco says:

    É curioso que nenhuma televisão, nenhum comentador de serviço, nenhum Nuno Rogeiro, tenham referido este passado do novo Papa. Há que referir ainda o buraco financeiro de 6 milhões de dólares da Companhia de Jesus, na década de 1980, sob a administração de Bergoglio.

    • António Paço says:

      A campanha da Igreja para lavar os pecados do agora papa recorre a alguns detergentes poderosos. Mas um passado de colaboração com uma ditadura tenebrosa como a de Videla e Massera não se lava nem com Omo Super (acho que já não se vende por cá, espero não estar a fazer publicidade indirecta). Foram muitos os mortos e ainda mais os feridos. Não vai ser fácil calá-los.

  5. Tiranossaurus Rex says:

    Não me apetece fazer a defesa deste ou de outro Papa qualquer. Mas vou fazer uma previsão: a teologia da libertação vai voltar a aparecer, devagarinho, tolerada sem alarde pelo Papa Francisco I. Apesar de quaisquer erros ou crimes que ele possa ter cometido no passado.

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