Trotsky para o século XXI

Por Álvaro Bianchi, blog Convergência

Qual é a contribuição que o pensamento de Trotsky pode dar para uma renovação teórica e política do marxismo? Passados 72 anos de seu assassinato, e é esta data o que nos provoca a reflexão, a pergunta faz sentido e poderia, até mesmo assumir a seguinte forma provocativa: o pensamento de Trotsky tem alguma contribuição a dar para a teoria dos movimentos sociais revolucionários do século XXI? A resposta é, do nosso ponto de vista afirmativa, se compreendermos seu pensamento como um ponto de partida para tal e não como um ponto de chegada. Somente esta resposta pode ser fiel ao espírito antidogmático que deve alimentar o marxismo e que foi cultivado por Trotsky. Dois aspectos do pensamento de Trotsky são cruciais para essa renovação e merecem ser destacados: uma concepção da história antideterminista e uma concepção internacionalista da política.

Comecemos pela sua concepção da história. Durante toda sua vida, Trotsky foi um tenaz opositor do determinismo econômico que caracterizava tanto a social-democracia como o stalinismo. Repetidas vezes contestou a tentativa de derivar os fenômenos políticos diretamente da economia, a crise política da crise econômica. No Relatório sobre a Crise Econômica Mundial e as Tarefas da Internacional Comunista, apresentado no 3º Congresso da Internacional Comunista essa oposição ao determinismo é assim colocada: “Em geral, o movimento revolucionário do proletariado não depende da crise (econômica). Há apenas interação dialética”.1 Essa formulação é constante no pensamento de Trotsky e será novamente explicitada, em 1935, no artigo Uma vez mais, aonde vai a França?: “Não há nenhuma crise que, por si mesma, possa ser ‘mortal’ para o capitalismo. As oscilações da conjuntura criam somente uma situação na qual será mais fácil ou mais difícil para o proletariado derrotar o capitalismo. A passagem da sociedade burguesa para a sociedade socialista pressupõe a atividade de pessoas vivas, que fazem sua própria história.”2

A crítica contra o determinismo econômico é em Trotsky uma crítica contra o imobilismo que ele produzia no movimento operário internacional. Revalorizando o lugar da vontade humana na história, ele descarta todo automatismo reformista e afirma o primado da política nos processos de revolução social. É como parte dessa concepção antideterminista que Trotsky formulará a teoria do desenvolvimento desigual e combinado e a teoria da revolução permanente.

O segundo aspecto no qual a contribuição de Trotsky para a renovação teórica e política do marxismo é decisiva é seu internacionalismo radical. Já no século XIX podemos encontrar formas intensas de solidariedade entre movimentos democráticos revolucionários. A construção da Associação Internacional dos Trabalhadores e, mas tarde da chamada Segunda Internacional podem ser considerados os pontos culminantes desse internacionalismo. Tal solidariedade estava fundada na identidade que esses movimentos partilhavam e no futuro comum no qual apostavam.

O internacionalismo de Trotsky incorpora a necessidade da solidariedade fundada na identidade e nos projetos comuns mas vai além ao alicerçar-se em uma compreensão do imperialismo. Longe de ser um princípio abstrato, o internacionalismo é, para Trotsky, uma necessidade decorrente do caráter mundial da economia e da política capitalista em sua fase imperialista. Em sua análise do imperialismo, Trotsky destacará a contradição existente entre a existência de Estados nacionais e a crescente internacionalização da economia e sua manifestação nas contradições que se dão entre a lei do valor no mercado mundial e a regulação estatal, por um lado, e os países imperialistas e as colônias e semicolônias, por outro.

Economia e política encontram-se unificadas na análise que Trotsky faz do imperialismo, o que lhe permitirá pensar a atualidade (e não iminência) da revolução socialista na época imperialista. Sua visão do imperialismo produz um internacionalismo que supera a ênfase em uma identidade comum. A ênfase agora é colocada na necessidade de contrapor ao imperialismo a ação internacional organizada do proletariado. O internacionalismo dos séculos XX e XXI é revolucionário. Ele inclui um esforço sistemático para coordenar os movimentos de emancipação do proletariado e alterar a correlação de forças na arena nacional, mas também na arena mundial. Tal esforço de coordenação só pode ser eficaz se estiver materializado em uma organização internacional dos trabalhadores. Depois da falência da social-democracia e do stalinismo essa organização passou a ser a Quarta Internacional, para a qual Trotsky dedicou suas energias ao longo de seus últimos anos de vida.

Notas:

1 Leon Trotsky. The first five years of the Communist international. Londres: New Park, 1973, v. 2, p. 261.

2 Leon Trotsky. Aonde vai a França? São Paulo: Desafio, 1994, p. 64.

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3 Responses to Trotsky para o século XXI

  1. Tiranossaurus Rex says:

    “…o pensamento de Trotsky tem alguma contribuição a dar para a teoria dos movimentos sociais revolucionários do século XXI?…”

    Por muito estimáveis que sejam o Trotsky e todas as figuras históricas do socialismo revolucionário, só conseguiremos avançar na procura de uma sociedade socialista eficaz e livre quando decidirmos pensar pelas nossas próprias cabeças, em vez de andar sempre à procura de fórmulas mágicas nos escritos e palavras desses anciãos. Lê-los é importante, como é importante ler Aristóteles e São Tomás de Aquino ou Francisco Suarez, mas somos nós, que estamos vivos hoje, com a nossa inteligência e conhecimentos, que temos de resolver os problemas de hoje. O que os outros escreveram ou disseram pode-nos interessar ou não. Não tem de nos condicionar de nenhuma forma.

    • Carlos Carapeto says:

      Bem; se a humanidade tivesse tido o cuidado de aceitar os conselhos sábios desses tais anciãos ” que Vc menospreza” garantidamente que hoje não vivia na incerteza que está a viver.

      Uma questão. Se aquilo que esses escreveram não tem utilidade, então que utilidade podem ter as teorias de Adam Smith?

      Ignora que o neoliberalismo em vigor é o modelo renovado do liberalismo teorizado por Smith? Com poucas alterações!

      Num sentido não devemos viver agarrados ao passado, mas quando há interesse em escravizar e oprimir já se podem recuar séculos ? Interessante.

  2. Rocha says:

    Divergências aparte que tenho com o trotskismo, acho que a posição anti-determinista aqui sublinhada absolutamente crucial para o desenvolvimento revolucionário da luta de classes.

    Esta questão do anti-determinismo económico recorda-me as discussões que tenho com pessoal do Bloco de Esquerda sobre a necessária ruptura com o Euro e com a União Europeia, enquanto eu argumento com a necessidade política de romper com a corja capitalista que essas instituições representam e comandam, os bloquistas respondem-me com argumentos económicos que não seria “possível”, Portugal romper com a dependência económica da União Europeia.

    Esta gente bloquista consegue fazer cara séria quando diz defender o socialismo e a saída negociada da ditadura da austeridade! Mas a verdade é que a luta de classes não é uma negociação, é uma guerra.

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