Se o governo não cai a bem é porque só cairá a mal?

E se, no passado sábado, depois de ter sido lida a moção de censura popular aos governos da troika, tivesse havido um apelo para que o povo tomasse o Palácio de Belém? Se tenho para mim que uma parte das pessoas teria regressado a casa, acho que a esmagadora maioria seguiria para Belém. Mais, seria possível que muitos, pelo país fora, decidissem acorrer a Lisboa nos dias subsequentes. Muito provavelmente os dias subsequentes seriam de enorme tensão, a que não faltariam actos de pessoas desesperadas, de quem nada tem a perder.
Mas se o apelo não aconteceu, também me parece que no plano das manifestações pacíficas pouco mais há a fazer. Os rios que Pacheco Pereira caracterizou já se juntaram e as suas margens estão largas como nunca.
O facto de, nem o governo nem o Presidente da República, retirarem as consequências políticas da onda de manifestações que varreu o país no dia 2 de Março, transforma Portugal num barril de pólvora. Cavaco Silva não pode tomar--nos por parvos ao dizer que as manifestações devem ser escutadas quando o que se exige é uma matéria da sua exclusiva competência: a demissão deste governo. Para o evitar, a única resposta política que o governo podia ter dado era convocar uma manifestação em defesa da sua política, na tentativa de mostrar algum apoio popular, de que todos os governos em regimes democráticos dependem. Não o tendo feito, à beira de anunciar novos e violentos cortes e com um Presidente da República a insistir em tomar-nos por parvos, temo o pior.

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9 Responses to Se o governo não cai a bem é porque só cairá a mal?

  1. Miguel Botelho says:

    Caro Tiago Mota Saraiva,
    As minhas desculpas por usar este comentário, para me dirigir a si com um pedido.
    Porque o faço? Porque creio que o Tiago Mota Saraiva pode corresponder a algo que é necessário fazer neste momento, em que o país está mal e em que é governado pelo pior bando de mal-fazedores da nossa história.
    Queria pedir que organizasse ou que pedisse, através das redes sociais, do movimento “A Troika que se Lixe”, do Bruno Carvalho e outras pessoas e movimentos mais capazes, que se organizasse uma marcha contra o palácio de Belém, para que o presidente escutasse a voz do povo e ouvisse, de uma vez para sempre, que o povo quer que este governo se demita.
    Também, poderia pedir a ajuda do PCP, do Bloco de Esquerda, das pessoas ligadas ao PS que não se identificam com as políticas da Troika, para que esta marcha fosse uma clara resposta a todos aqueles pseudo-analistas políticos que vêm agora dizer que este governo vai cumprir a legislatura, tentando assim abrandar a luta deste povo e que não se revê nas políticas assumidas pelo governo.
    Se o puder fazer e organizar, eu agradeço, como tanta outra gente que já não pode ver as pessoas que assumiram as pastas ministeriais, nem a cara deste primeiro-ministro.
    Um abraço

    Miguel Botelho

  2. Vamos a isso. Vamos para a rua e não saímos enquanto o governo não cair. Basta o apelo.

  3. Francisco says:

    Muito bom texto.
    “Mas se o apelo não aconteceu, também me parece que no plano das manifestações pacíficas pouco mais há a fazer. Os rios que Pacheco Pereira caracterizou já se juntaram e as suas margens estão largas como nunca.”

    Nem mais, no 2 de Março conseguiram-se 3 coisas notáveis:
    – Um amplo protesto semelhante em número ou maior que o 15 de Setembro;
    – A mobilização deveu-se a um esforço conjunto da Esquerda à Esquerda do PS, que foi do PCP, BE, CGTP a outros grupos mais pequenos e cidadãos sem partido. Esse esforço deu frutos e rompeu o cerco mediático, de facto, esta manifestação não contou com uma “TSU”, com divisões na coligação ou o apoio dos média para a convocar. Antes pelo contrário, nos dois dias antes da manif houve umesforço para associá-la ao BE, PCP e CGTP. Com tudo isto a manif foi de uma dimensão igual ou superior.
    – Nos dias que precederam a Manif houve várias “esperas” a ministros. Muitos comentadores na altura disseram que eram pequenos grupos e que a contestação já não era de grandes manifestações, agora era coisa de pequenos grupos (que alguns chegaram a apelidar de “milícias” ou “unidades de assalto”, cá para nós, que “deus” os oiça eheheh). Também disseram que certas acções mais usadas (tipo Relvas n ISCTE ou coelho enforcado) iriam afastar pessoas. FALHARAM, não afastou ninguém e tudo o que se fez foi legítimado na rua.

    Dito isto, como já vi num cartaz do Artigo 21, é agora preciso passar a outro nível. A sugestão que deste não é má… É qualquer coisa nesse género que é necessário:

    “E se, no passado sábado, depois de ter sido lida a moção de censura popular aos governos da troika, tivesse havido um apelo para que o povo tomasse o Palácio de Belém?”

  4. Rafael Ortega says:

    “Se tenho para mim que uma parte das pessoas teria regressado a casa, acho que a esmagadora maioria seguiria para Belém.”

    Claro que sim…

  5. Rui Cardoso says:

    Concordo plenamente consigo, ao falar com outros manifestantes , comentei precisamente que em vez da manifestação acabar no Terreiro do Paço, deviamos ter ido fazer uma “visita” ao PR a Belém, porque se o governo não nos ouve, talvez o PR nos ouvisse ou alguém lhe fosse dizer que havia muita gente a porta do palácio, não fosse ele estar embrenhado no seu trabalho e não dar pelo movimento das massas. Será de pensar nas futuras manifestações acabarem em Belém.

  6. Tiago Mota Saraiva says:

    Caríssimos permitam-me um comentário. O Presidente não escuta nem quer saber. Para demitir vai ser preciso pegar-lhe na mão para assinar o despacho.

  7. Rocha says:

    Ora bem, nenhuma das instituições existentes nos vai ajudar, nenhuma nos vai dar a mão ou dar o braço a torcer.

    Somos governados por uma oligarquia cleptocrática, uma ditadura de fachada democrática, uma torrente de propaganda mentirosa, pela escravidão pela dívida, o que temos de fazer não é salvar, mudar, transformar ou resgatar instituições, mas sim destruí-las e construir um Estado totalmente novo e absolutamente guiado pela soberania popular.

    Uma verdadeira e real democracia é completamente diferente do regime em que vivemos, requer que todos os órgãos de poder especialmente os conselhos de administração de todas as grandes empresas-monopólio sejam eleitos pelas trabalhadores e controlados pelo povo, requer que os brancos sejam totalmente subordinados ao Estado, sendo nacionalizados ou liquidados. Não há qualquer outra solução que não o derrube de todo o poder burguês pelo poder dos trabalhadores numa verdadeira Revolução Socialista.

  8. Don Luka says:

    Claro que o governo vai cair a mal: vai ser substituido pelo senhor Seguro e sus muchachos. Haverá pior maneira de cair?

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