Todos somos Chávez

Esta noite, Camila vai deitar-se rodeada de tristeza. Com nove anos, assiste às lágrimas dos pais por um homem que nunca viu senão na televisão. O pai contar-lhe-á outra vez a história do tenente da força aérea que deu voz aos sem voz. E um dia, mesmo que a revolução volte à barriga da terra, as paredes das favelas já não cantarão só as batalhas de Simón Bolívar. Os avós narrarão aos pais a primeira vez que viram um médico e os pais repetirão aos filhos a primeira vez que os avós aprenderam a escrever.

Talvez o façam a chorar. De alegria, como aquela mulher que no bairro de Antímano me falou da primeira vez que foi vista por um dentista. De orgulho, como aquele homem que me mostrou o primeiro bairro livre de analfabetismo, o 23 de Enero. De coragem, como os que desceram das encostas durante o golpe de Estado para resgatar Hugo Chávez. Acima de tudo, e apesar de todas as diferenças, porque é um deles. Porque é um dos nossos.

Que parte de um continente dependa deste homem é um problema mas também a constatação do quão imprescindível era Hugo Chávez. Nenhuma perda é irreparável senão quando os povos não estão preparados para manter alta a bandeira dos que caem. É esse o maior desafio de uma América Latina que não seria o que é hoje sem Hugo Chávez.

Na Venezuela, não há bolivariano que não saiba o poema de Pablo Neruda cantado por Ali Primera: “Ellos no serán bandera/para abrazarnos con ella/y el que no la pueda alzar/que abandone la pelea”. A melhor homenagem a Hugo Chávez será, sem dúvida, a conquista de uma sociedade em que os trabalhadores e o povo sejam os protagonistas.

Não será fácil. Ainda não passou um dia e já pairam os abutres. Estão em todo o lado. Também na imprensa portuguesa. Mas não nos esqueçamos porque choram milhões de pobres. Morreu alguém que deu a vida pela justiça social e pelo progresso. Quando ainda não havia arrefecido o cadáver da União Soviética e todavia se acalentava o velho sonho capitalista do fim da história, muitos despertavam com o grito dos filhos de Bolívar: socialismo ou barbárie.

É por isso que esta noite as lágrimas não caem só em casa de Camila. Os indígenas bolivianos, os bisnetos cubanos de Martí, os guerrilheiros colombianos, os sandinistas da Nicarágua, os sem-terra brasileiros, os negros do Harlem, os perseguidos em Tegucigalpa, os patriotas sírios, o mártir povo palestiniano, os reprimidos na Líbia e todos os que genuinamente se levantam no mundo contra o capitalismo. Porque todos somos Chávez.

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6 Responses to Todos somos Chávez

  1. Torcato Ribeiro says:

    Subscrevo.

  2. Samuel B says:

    Não se esqueça de contar o drama que foi não o terem deixado ir até ao fim no seu golpe militar antes de ser eleito democraticamente, qual Adolfo!!!!

  3. jorge Soares says:

    Há sempre muitas formas de olhar para o mesmo assunto, acho que é difícil avaliar Chavez e a sua historia, o que o levou ao poder, sem se ter vivido na Venezuela. Eu vivi lá, fui educado lá, aprendi a admirar Bolivar e a sua gesta e posso dizer que até partilho alguns dos ideais que guiaram Hugo Chavez ao logo dos anos que governou o país… mas para avaliar alguém é sempre necessário avaliar os prós e contras, acho que os prós estão bem expressos no post.. mas há outra parte… É neste momento a Venezuela uma sociedade mais justa que do que era antes do Chavez?.. tenho algumas duvidas, há menos pobreza, tenho algumas dúvidas, há menos corrupção?.. tenho a certeza que há mais?, há mais segurança, não há duvida nenhuma que há muito menos segurança.

    No último ano a média de assassinatos em cada fim de semana foi superior a 100, sim, em cada fim de semana morrem mais de 100 pessoas vitimas da criminalidade comum, é uma autêntica guerra civil permanente e não declarada.

    Todos os dias entram muitos milhões de dólares no país e só uma muito pequena parte chega à economia real, ninguém sabe muito bem onde vai parar o dinheiro, este perde-se no meio dos meandros do poder e da corrupção. Chavez teve 15 anos para resolver este que é o verdadeiro e principal problema do país, quanto a mim falhou completamente, porque ao invés de diminuir, a corrupção aumentou durante os seus governos.

    Além disto, agora que não há Chavez, a Venezuela está órfã de uma classe politica que seja capaz já seja de continuar as suas politicas ou de ser uma alternativa verdadeira e credível.

    Jorge Soares
    http://oqueeojantar.blogs.sapo.pt/472246.html

  4. De says:

    Um texto muito, muito justo.E muito belo

    “Ele desmentiu numa breve e luminosa trajectória a tese da excepcionalidade absoluta da Revolução Cubana. Demonstrou que, afinal, era possível, num país transformado em semi – colónia, conquistar a Presidência, enfrentar o imperialismo, e, num contexto histórico muito diferente, romper as engrenagens da dominação estrangeira e proclamar que a Venezuela Bolivariana se propunha a destruir o capitalismo e, com o apoio maciço classe trabalhadora e da maioria das Forças Armadas, lançar as bases de um partido revolucionário, inviabilizar o projecto recolonizador da ALCA, e iniciar as batalhas da construção do Socialismo e da Unidade Latino-americana.

    Mas independentemente do veredicto da Historia sobre o homem e a obra, uma certeza transparece. Se é indesmentível que são os povos que constroem o caminhar da humanidade, é também evidente que Hugo Chávez será lembrado como exemplo da importância decisiva que o factor subjectivo assume por vezes nas grandes viragens históricas”

    Tirado daqui: Chavez, o Bolivar do século XXI
    Nota dos Editores de Odiario.info
    http://www.odiario.info/?p=2792

  5. Miguel Botelho says:

    Aquilo que assistimos foi à perda física de Hugo Chavéz. O seu espírito já anda nas ruas e até em todo o Mundo. A revolução bolivariana ainda está no seu começo. Com o tempo, apanhará a Colômbia, o México e até os Estados Unidos da América.
    Quando Washington cair (e vai cair), os ventos da esperança e do socialismo também vão atingir a Europa.
    Viva Hugo Chavéz!

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