Os sonhos dos filhos dos ferroviários e o passe social

Miguel Sousa Tavares, comentador de televisão, disse que os trabalhadores do transporte tinham muitas «regalias». Inaudito que tenhamos chegado a uma situação em que, sem contraditório, se possa referir ao salário como uma regalia.

O direito a usufruir de passe social, para si e a suas famílias, é considerado pelas normas de contabilidade Europeia (SEC95), obrigatoriamente seguidas pelo INE, como salário pago em espécie. De resto, esta decisão de pagar uma parte do salário em espécie visava diminuir os custos das empresas, nomeadamente diminuindo os custos para cálculo de descontos para a segurança social.

Os trabalhadores ao fim do dia recebem o salário necessário à sua manutenção – o resto, excedente, do salário fica sob a forma de capital, juro ou renda. Mesmo que não tenhamos opinião crítica sobre esta divisão não ignoramos que ele aparece sobre outras formas. Por exemplo, mesmo a contabilidade básica oficial distingue – e penaliza ou beneficia de forma distinta – ganhos do capital de ganhos do trabalho.

Ao questionar o salário dos trabalhadores do transporte desta forma – depois de ter cortado salários, aumentado taxas moderadoras, IVA, todos os outros impostos – o governo e as empresas estão a dizer que podem questionar o salário necessário à manutenção de quem trabalha, colocando-os paulatinamente abaixo do salário de subsistência. Foi na América Latina cunhado para isto o interessante conceito de super-exploração, ou seja, ao final do dia a força de trabalho não é reposta mais exaurida.

Percebe-se, creio assim, que os trabalhadores dos transportes não estão em processo reivindicativo – cortando as linhas de caminho-de-ferro – em nome de regalias, mas garantindo a sua sobrevivência, o que numa sociedade com a riqueza da nossa é, digamos, pouco.

Na verdade devíamos estar aqui a discutir não se as famílias vão deixar de ter passe social mas se os filhos dos trabalhadores dos transportes vão ter bons professores ou vão chumbar no exame da quarta classe e ser colocados no ensino «profissional», isto é, lavar escritórios às 5 da manhã pela modica quantia de 2 euros à hora. Devíamos estar aqui a discutir se serão fortes, altos e saudáveis ou fazem parte dos 50% de crianças em Portugal que têm falta de iodo, também por ausência de consumo de peixe fresco. Devíamos estar aqui a discutir se os filhos dos ferroviários vão aprender música ou tornar-se hiperactivos a ver um canal para crianças que tem uns desenhos japoneses feitos num computador que gritam 24 horas por dia; devíamos estar aqui a discutir se os sonhos dos filhos dos trabalhadores dos transportes se têm que resumir à «regalia» ter um passe social!?

Também publicado em http://raquelcardeiravarela.wordpress.com/

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