Em defesa do Daniel Oliveira

daniel-oliveira-critica-o-ex-lider-do-be-1ca0O Daniel Oliveira saiu do Bloco de Esquerda, uma notícia que, confesso, me deixou surpreso. Sempre pensei que com a paulatina institucionalização do partido, a sua progressiva aproximação ao PS, a defesa obstinada da renegociação da dívida, da UE e do Euro, as diferenças programáticas entre a direcção e ele próprio estivessem tão esbatidas que qualquer cisão estaria longe do horizonte. Assim não foi e, os especialistas do costume, tratarão de dizer que tal se deve à radicalização do BE, à sua incapacidade de se aliar a um projecto de governo e, claro está, aqui em coro com o Daniel Oliveira, ao seu “sectarismo”. Não creio que seja assim.

Posto que as diferenças programáticas entre o que é hoje a direcção do BE e o Daniel Oliveira são praticamente nulas, as razões da sua cisão não podem ser as que anuncia. Do ponto de vista do regime, onde se destaca a crítica, justíssima diga-se, que escreve na sua carta de cisão, o BE é o que sempre foi. Não há nenhuma novidade aqui.

O BE nunca deixou de ser um arranjo de fracções, que por sua vez dirigiam comité centrais que nada mandam, de forma a manter as diferentes bases satisfeitas. Todas as correntes sem excepção assim se comportavam, e durante largos anos todas as correntes, e alguns militantes a nível individual, aceitavam as regras do jogo e negociavam, com as armas que tinham, uma posição no programa e na nomenclatura. Com o passar dos anos cada vez mais na nomenclatura e menos no programa, uma vez que é mais fácil ceder nas vírgulas do que abrir mão de profissionais.

Sob esse ponto de vista, esta cisão soma-se a todas as anteriores, expressando a claustrofobia democrática imposta por este negócio fraccional da qual as tendências dominantes nunca quiseram sair, e deixa o partido movimento em carne viva à esquerda e à direita. A política dissipou-se e, qual criança birrenta agarrada à sua bicicleta, bola de futebol ou bilhete de circo, a direcção de sempre larga um sorriso de quem sabe e gosta, que sobrem cada vez menos bocas ao regimento. É pobre. É triste. Mas é o que é.

Não sei que caminho fará o Daniel Oliveira mas sei que dificilmente nos colocaremos de acordo sobre uma parte importante do que deve ser o caminho da esquerda. Já não o estávamos quando éramos os dois do mesmo partido e não me parece que este seu movimento nos aproxime. Não creio também, como ironizava o RDA, que ele saiu “das estruturas arcaicas da política para se juntar ao partido invisível, à autonomia difusa, ao antagonismo desejante”, mas parece evidente que não sobra na direcção daquele partido ninguém com o mesmo desassombro que ele para discutir com quem discorda. O resultado disso é, inevitavelmente, mais uma vitória do monolitismo, do aparelho e dos que se habituaram a meter o partido à frente das suas convicções, uma vez que passou a ser o partido, e não as conviçcões, o grande força motriz do seu futuro.

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9 Responses to Em defesa do Daniel Oliveira

  1. JgMenos says:

    Tudo que é regalia deveria ser valorizado e figurar como valor global no rendimento do trabalhador, sendo em seguida produzido o cálculo de remuneração por hora de trabalho.
    Evitar-se-ia que viessem com histórias de falsos ‘coitadinhos’ e se produzissem comparações abusivas quando na realidade existem diferenças abissais!
    A treta é sempre a de desvalorizar o que não é salário líquido de impostos.

  2. Bento says:

    Ira fazer o seu caminho em direcção ao PS confirme se adivinhava .

  3. Graza says:

    Acabas em cheio com o último parágrafo, (…) “uma vez que passou a ser o partido, e não as conviçcões, a grande força motriz do seu futuro.” Vou reler para o conhecer mais um pouco, porque o Daniel é já incontornável. Como sabes, aquilo que mais me custa é andar a deixar cair gente à Esquerda. Continuo a achar que há sempre um ponto onde podemos estar todos, sabendo sempre que as nossas convicções nos devem impor o debate e a última coisa a alienar é a forma autónoma como pensamos.

  4. João. says:

    “O resultado disso é, inevitavelmente, mais uma vitória do monolitismo, do aparelho e dos que se habituaram a meter o partido à frente das suas convicções…”

    – que palhaçada. E se as convicções pessoais forem a de colocar o partido à frente das convicções pessoais: ou isto é assim tão difícil de entender para as “belas almas”* pós-modernazinhas?

    *http://www.uc.pt/fluc/dfci/publicacoes/hegel_e_as_patologias_da_ideia

    “Mas a propósito das figuras hegelianas da consciência, no que concerne às patologias filosóficas do sujeito, poderia ainda destacar-se a da chamada “bela alma”, que ocupa na obra o lugar conclusivo da secção sobre o “espírito”, e apresenta uma patologia associável à já referida hipocondria da carta de 1810. A doença da “bela alma” é a doença moral cujo sintoma é a incapacidade de agir por estar presa ao ideal numa forma abstracta. A bela alma, buscando a pureza da sua acção, e manter-se intocada de todo o mal, retira a si mesma as condições da acção, dado que esta, presa dos condicionalismos e particularidades do real nas condições efectivas da sua realização, envolve sempre bem e mal. O bem ideal visado é demasiado elevado para poder convir à realidade tal como se apresenta, e a bela alma não acede jamais à vida real. “

  5. João. says:

    “O resultado disso é, inevitavelmente, mais uma vitória do monolitismo, do aparelho e dos que se habituaram a meter o partido à frente das suas convicções, uma vez que passou a ser o partido, e não as conviçcões, o grande força motriz do seu futuro.”

    Não é de admirar que a esquerda esteja em crise. É que nem sequer se percebe que um militante coloque POR SUA PRÓPRIA CONVICÇÃO o Partido à frente das suas convicções. Enfim, é a esquerda cuja uma de suas grandes referências é um personagem de um filme de ficção – que aliás é bem próximo de um desenho animado.

    http://www.amazon.com/Rubies-Costume-Co-4418-Vendetta/dp/B000UVGLHU

  6. José Manuel Coelho Vieira Soares says:

    A saìda só peca por tardia……

  7. closer says:

    o texto de Renato Teixeira deve ler-se nas entrelinhas: Oliveira não passa de um burguesote que está a fazer o seu tirocínio para ser o novo Miguel Vale de Almeida. Mas como saíu do BE, inventa-se uma solidariedade confusa e mal amanhada. Sempre o mesmo complexo de édipo, uma espécie de arrependimento de sacristão que domina os textos que o impagável « rubro» escreve sobre o BE.

    Pessoalmente, sinto pena que Oliveira se tenha afastado, embora a achasse previsível. previsível também era a saída de Renato Teixeira e de todo o grupo FER, agora MAS. Mas dessa tenho pouca pena…

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