2 de Março no Rio de Janeiro

Ao longo da semana foram percebendo que não havia condições para fazer uma concentração no Rio de Janeiro. A maioria dos portugueses está ilegal no Brasil. Temem a extradição. Mas sempre disseram que não iriam deixar de assinalar o dia. Hoje, pela manhã, recebi este email. Publico-o com a sua autorização e com um nó na garganta.

Porque a Luta é mais importante do que tudo o resto…por nós, por vós, pelos outros…pelos que já partiram e pelos que hão-de vir….ontem não havia samba, nem bola, nem balada, nem peguete, nem jantar, nem nada neste mundo que fosse mais importante do que unir forças para que de alguma forma gritássemos bem alto que não esquecemos, que não aceitamos, que não temos MEDO!
E foi bonito…muito bonito! Saber que não estamos sós: tivemos os seguranças do Consulado (casa do Consul) de Portugal no Rio de Janeiro e dois polícias militares ao nosso lado enquanto pichavamos o chão em frente ao portão…Porquê? Porque falámos, porque contámos o que se está a passar no nosso país e porque estávamos a fazer aquilo..ilegais, bêbados e sós em vez de sermos presos e deportados a força da convicção do que fazíamos deu-nos palavras de solidariedade: “Tá assim ruim merrmo? Pô, protesto silencioso….”…
e isso deu-nos ainda mais força para correr essa cidade…no aterro tivemos por parceiro um neguinho que estava a dormir lá…começou por ficar feliz de lhe emprestarmos uma lata de tinta para tagar o skate park, acabou a achar que éramos dois gringos completamente loucos quando nos viu pintar uma das obras do Reidy…também aí a Grândola silenciosamente se fez ouvir…também aí tivemos o apoio e mais coragem para continuar a odisseia…
Como qualquer bom épico clássico, também nós tivemos direito ao nosso arauto: Pedro, velhote, longas barbas brancas, com demasiada vida literalmente ferrada no corpo…esteve connosco, teve junto, na praia e na lição de que o importante é continuar…
fez frio, fez calor,choveu, o cansaço era grande, mas adrenalina fazia esquecer o sono, a fome e as horas…Nada que um equipamento modo guna não resolvesse para continuar a jornada: camisola quente, capuz, sapatilhas uma garrafinha de água, mais umas jolas e siga!
Largo do Machado: tinha show, mas acho que não temos a menor noção do que cantavam…só a Grândola se fez ouvir…em silêncio…
São Salvador: a querida Dona Maria, lá nos vendeu mais duas cervejinhas, e preocupada nos aconselhou a irmos comer…mas não dava…veio a dor de cabeça que parecia que ia explodir, as entranhas começavam a querer sair… mas a vontade,o sentimento de que pelo menos do lado de lá do atlântico muitos nos estariam a dar força, deu-nos a certeza de que tínhamos continuar.
E queríamos mais: queríamos o Cristo e o Michael Jackson do nosso lado… uns minutos de olhos fechados no táxi que nos leva e pronto: de volta À Luta!
e tudo continuava a conspirar a nosso favor: o cartaz que dizia “Não saio daqui porque..” fez-nos logo sorrir e ter a certeza de que a jornada seguia o rumo certo.
Subimos o plano inclinado, com o receio de ser sábado de roda de samba…. qual a alegria quando chegamos e percebemos que a paz nos aguardava.
Começamos a colar os cartazes nas mãos do Michael: perfeito! Vêm uns tugas que estavam lá perguntar se eramos portugueses….não, somos chineses amigo e a Grândola é a nova música da Shakira…foi o que apeteceu responder, mas não o fizemos. Era dia de unir, não de separar.
Continuamos, o Cristo meio sumido nas nuvens lá decide juntar-se a nós…perfeito! felizes e a merecer umas valentes jolas com a cidade maravilhosa como cenário…deu um gostinho prazeroso…deixamos os cartazes ficar por ali, qual instalação revolucionária..todos os viram, ninguém lhes tocou! Vieram os mulekes cheios de perguntas próprias da idade…e explicamos, contamos tudo, o que era a Grândola, o que era a ditadura, a do Brasil, a de Portugal e o hoje e o porquÊ. E eles ouviram de olhinhos abertos…também estavam junto! Radiantes quando lhes pedimos se queriam tirar uma foto com os cartazes, mais uma vez:perfeito!
e como a bicharada não gosta de ficar de fora destas coisas, vieram duas cadelinhas, mãe e filha que conosco ficaram até ao final…entre lambidelas, colinhos e um cochilo em cima do “povo” e da “troika”, fizeram as horas e a conversa ajudar a esquecer a dor que os pés e as pernas sentiam….
Não havia mais plano inclinado: não importa, a luta continua pela comunidade abaixo…mais uma cervejinha, uns minutos de pausa e a sensação de que ainda faltava alguma coisa: Praia de Botagogo, Siga!
Passa uma Van, lotada mas que obviamente nos deu espaço para a luta, nós, os cartazes e as latas de tinta…vamo lá!
Chegamos ao túnel na segunda passarela…tinha um neguinho que dele fazia a sua casa…hesitamos, não queríamos incomodar: “Podem vir, não precisam de ter medo não!” Ao que respondemos: “Não temos medo de si não, temos medo é da polícia….”explicamos o que íamos fazer, mas o cheiro da tinta na “casa” dele era foda….sem problema: vai na rampa mesmo! Agora sim, canta a Grândola na Zona Sul….
Sensação boa de missão cumprida! Olhar para o lado e ver um camarada, um companheiro e saber que enquanto houver camaradas e companheiros por esse mundo fora, vale a pena acreditar! Vale a pena lutar e ter a certeza de que merecemos mais, merecemos melhor e que acomodar ou aceitar não é condição! E a única coisa inevitável nesta vida é não ter medo de lutarmos por ela.
Por tudo isso, pela viagem, pelos parceiros que que ao longo daquelas muuuiiitas horas nos foram acompanhando, faltava uma única coisa:um merecido e carinhoso bem haja um ao outro por sermos especiais o suficiente para saber o que realmente importa na vida!
Cansados mas felizes, poderíamos ser mais…não fomos… mas não se preocupem que continuaremos a depositar todas as nossas forças para lutar, por nós, por vós, pelos outros…pelos que já partiram e pelos que hão-de vir!
Esperemos que gostem do pequeno registo desta odisseia

beijos e abraços

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2 Responses to 2 de Março no Rio de Janeiro

  1. MARIA says:

    PARABÉNS!!! FORÇA PARA CONTINUAR!!!

  2. Mónica says:

    Por favor, como poderia contactar o pessoal que tomou essa iniciativa? Moro no Rio e hoje, ao passar no tunel em botafogo, vi o Grândola lá, silencioso. Arrepio na espinha, emoção demais. Estou junta nessa luta de todos, e quero muito contribuir com o grupo que conseguiu que hoje, me sentisse menos sozinha do lado de cá. Abraço

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