Se o governo não cai a bem é porque só cairá a mal?

Ontem aconteceu algo de extraordinário. Dos gabinetes do governo saem notícias alegadamente científicas sobre a impossibilidade de ter estado tanta gente nas ruas. Mais uma vez, a cientificidade de pacotilha, calcula áreas a partir do Google Earth, ignorando o factor tempo. Ou seja, por exemplo em Lisboa, a meia hora do início da manifestação, a Avenida da Liberdade já estava cheia o que fez com que a cabeça da manifestação (que verdadeiramente nunca o foi) tivesse de arrancar. A essa mesma hora já estava uns milhares de pessoas no Terreiro do Paço. As pessoas que se manifestaram foram as que estiveram pelas ruas entre as 15h e as 20h. Coloquem este dados nas vossas contas e verão uma manifestação extraordinária.
Contudo creio que, ninguém o nega, esta manifestação foi maior que a de 15 de Setembro, que já havia sido maior que a de 12 de Março. Mas o dado político mais importante não é apenas que foi maior. Esta manifestação foi muito mais combativa e dura. Depois do dia de ontem o poder está na rua e se o governo não apresenta a sua demissão nas próximas horas está a esticar a corda de um conflito que não sabemos onde poderá parar. Imagine o leitor que, na próxima semana, o governo anuncia os cortes dos quatro mil milhões de euros ou o orçamento rectificativo à derrapagem que já tem nas contas do Estado contabilizando apenas os números de Janeiro? A corda já partiu.
As pessoas perderam o medo. E mesmo o tradicional discurso dos distúrbios a que Asnes sempre se presta ou o ensaiado “partidarismo” dos organizadores, ensaiado pelo Correio da Manhã (usando como fonte um perfil do facebook aparentemente fabricado para spin) e muito repetido por Ricardo Costa na SIC – que em vários momentos Zandinga previa uma manifestação menor para ontem porque “partidária”, não teve qualquer efeito. Esta manifestação, aliás, contou com uma forte oposição mediática na sua divulgação, que só foi desbloqueada pelas Grandoladas (Obrigado Zeca, mais uma vez!).
Ontem ficámos mais fortes. O povo deste país saiu à rua. Mostrou que quer fazer parte da solução. Mostrou que se identifica com os valores de Abril e com a sua Constituição. Mostrou que está disponível para fazer frente à troika e ao seu governo.

P.S. – Foi absolutamente lamentável a tentativa de aproveitamento político da dirigente do PS Jamila Madeira. Todas as delegações dos partidos presentes terão feito as suas declarações com toda a tranquilidade. No meio do povo. No fim da manifestação ao lado do palco e na zona reservada, constatou-se que Jamila Madeira se preparava para entrar em directo para as televisões. Ainda em off, Foi-lhe solicitado que o fizesse fora da área reservada tendo em conta que não fazia parte da organização e tal como havia sucedido com todos os outros partidos. Jornalistas e a ex-deputada anuiram e começaram a sair. Passados 10 segundos, ainda dentro da zona reservada, acendem-se as luzes do directo e inicia a sua intervenção. Não conseguiu falar. Invocará certamente um atentado à liberdade de expressão.

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12 Responses to Se o governo não cai a bem é porque só cairá a mal?

  1. JNM says:

    Porque é que ela alguma vez chegou a entrar na área reservada?

  2. Bolota says:

    Tiago,

    Alimentar estes detorpadores de opinião é uma enormissima perda de tempo e dar-lhe a importancia que eles não merecem.
    Há uma forma de tirarem a limpo as suas teorias…façam uma maifestação de apoio ao governo e preencham os espaços que agora dizem terem estado vazios, depois façam as contas e a partir dai…uma coisa é certa, os MArcelos da nossa praça começam a não ter granes argumentos para continuarem a alimentar a quadrilha.

  3. JgMenos says:

    «Depois do dia de ontem o poder está na rua e se o governo não apresenta a sua demissão nas próximas horas está a esticar a corda de um conflito que não sabemos onde poderá parar.»

    Haverá um fenómeno chamado ‘multitude delirium’

    • De says:

      Haverá?

      A ver vamos onde haverá “multitude delirium” não se sabendo bem o significado de tal delírium.
      A ver vamos onde nos conduzirão as águas dos tempos em que vivemos.
      Citando uma nota de editores:
      “É hoje esmagadora a reivindicação da demissão do governo Passos/Portas e a rejeição da cega e brutal política de “austeridade” imposta pela troika estrangeira, subscrita e servilmente executada pela troika nacional. O povo está unido nesta rejeição, e é ao som das canções de Abril e das suas palavras de ordem que o afirma. Há ainda muito caminho a andar. Mas quando o povo estiver tão unido em relação ao que quer como hoje está em relação ao que não quer, terá de novo tomado nas mãos o seu próprio destino.”
      E aí sim,haverá.Mas não o disparatado delirium de Menos.

  4. Esta obsessão pelos números…. Foi uma multidão, espalhada pela praça, rua, país e mundo. O que interessa é o que os manifestantes expressaram, o que é que o governo respondeu. Mais do que contagem de cabeças, a política é confronto de razões. E este governo perdeu a razão. Perante 10 pessoas a cantar a grândola nas suas caras ou uma multidão a exprimir-se por todo o mundo.

  5. De says:

    O Publico continua os seus (in)sondáveis caminhos.
    Respondendo ao apelo governamental, um tal joão pedro pereira engalfinhava-se ontem em cálculos matemáticos paridos da cabeça do sr google.Não satisfeito com tais manobras contabilísticas, o publico virava-se depois para a repercussão mediática das manifestações na imprensa internacional.
    http://www.publico.pt/portugal/noticia/manifestacoes-de-sabado-nao-tiveram-grande-eco-nos-sites-da-imprensa-internacional-1586433.
    Teve ai mais azar já que os exemplos são por demais evidentes da não evidência encontrada pelo público.
    Eis que se volta para outra notícia bombástica,com direito a página inteira no site local:
    “Foto de Istambul torna-se viral como sendo da manifestação em Lisboa”
    Para enfim, cercado pelas múltiplas acusações de Relvismo boçal e primário,o Público resolver sair com mais uma notícia sobre a notícia do número de manifestantes onde continua a espelhar bem ao que vem e o que pretende.Assinada também por joão pedro pereira (e mais alguém chamado para não aparecer o serigaito sozinho?). e que revela bem as tácticas destes aldrabões de feira,candidatos aos lugares em disputa na feira dos jobs a atribuir

  6. Pingback: Porque os números e a verdade falam muito alto | cinco dias

  7. rms says:

    uma beatriz talejon??

  8. Zé Povinho says:

    A resposta é afirmativa, vai ter de cair a mal.

  9. Pingback: Ainda sobre as contabilidades do 2 de Março | O Insurgente

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