Portugal: 1,5 milhão contra a troika e o governo de direita

«Está na hora de o governo se ir embora» e «Quem deve aqui dinheiro é o banqueiro» gritou-se ontem nas ruas de 40 cidades de Portugal*.

As manifestações de ontem, 2 de Março, em 40 cidades de Portugal reuniram, segundo a imprensa, 1,5 milhão de pessoas contra a troika (FMI, BCE, UE) e o governo de coligação de direita que, a coberto do «pagamento da dívida», uma dívida que não é pública, mas privada, e «nacionalizada» ao serviço dos privados que a contraíram, opera uma gigantesca contra-reforma cujo objectivo é destruir o Estado social, cortar salários e subsídios, promover despedimentos, fazer uma transferência maciça de recursos do trabalho para o capital.

Em Lisboa, entre o início da manifestação, na Praça do Marquês de Pombal, e o local onde terminava, o Terreiro do Paço, fronteiro ao Tejo, distam 2,6 km que se encheram de gente ansiosa por ver-se livre do Governo de direita e da troika. Quando a cabeça da manifestação começou a andar, já os 1500 m da Av. da Liberdade, que se estende à sua frente, estavam cheias de uma maré humana que gritava palavras de ordem como «Está na hora de o governo se ir embora» ou «Quem deve aqui dinheiro é o banqueiro». Como em 25 de Abril de 1974, início da Revolução dos Cravos, voltou a ouvir-se «O povo unido jamais será vencido». A dimensão internacional dos problemas que os Portugueses e os povos do Sul da Europa enfrentam também não foi esquecida: «Espanha, Grécia, Irlanda, Portugal – a nossa luta é internacional», gritou-se.

No Porto, segunda cidade do País, estariam 400 mil pessoas – a maior manifestação de sempre na capital do Norte – que encheram completamente a Praça da Liberdade, a Praça do General Humberto Delgado e a Avenida dos Aliados.

«Gatunos», «corruptos», «ladrões» eram outras das palavras que surgiam nos cartazes de confecção caseira que eram levados pelas pessoas. «É melhor votar em Ali Babá, ao menos sabemos que são só 40 ladrões», dizia um deles.

As manifestações foram convocadas pelo colectivo Que se Lixe a Troika, uma constelação de grupos de activistas, e não pelos partidos de esquerda ou pelos sindicatos. BE e PCP anunciaram, no entanto, a sua adesão e estiveram presentes dirigentes e alguns deputados de BE, PCP e PS. Pela primeira vez, a maior central sindical, CGTP, dirigida pelo partido comunista, aderiu publicamente a uma iniciativa não promovida por ela própria. Porém, António José Seguro, secretário-geral do PS, principal partido da oposição, preferiu estar ausente numa pequena cidade do Alentejo onde não houve manifestação e foi ambíguo nas suas palavras, referindo-se à necessidade de mudar de política, mas não de governo.

Indicador de crise, quase 24 horas depois nem Governo nem Presidente se pronunciaram ainda sobre as manifestações.

Um outro sinal da associação das manifestações de ontem à revolução de 25 de Abril de 1974 foi o entoar de «Grândola, vila morena», a canção de José Afonso que serviu de sinal às tropas que saíam para derrubar a ditadura, por muitos milhares de gargantas, de Norte a Sul do País – e até no estrangeiro, como em Paris, onde uma centena de manifestantes se concentrou junto do Consulado de Portugal.

«O 25 de Abril que o meu pai fez vou ter de voltar a fazê-lo eu», disse uma mulher de 46 anos, Isabel Mora, que desfilava ao lado da filha de 16.

• A intenção deste artigo era divulgar as manifestações de ontem «lá fora». Por isso o publiquei em inglês e francês. «Mas e os brasileiros?», chamaram-me a atenção. Por isso, especialmente para eles e para os espanhóis (que sabem ler português – até sabem cantar a ‘Grândola’), aqui vai o texto também em português.

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2 Responses to Portugal: 1,5 milhão contra a troika e o governo de direita

  1. Jorge says:

    A maior manifestação de sempre no Porto encheu a Praça da Liberdade, a Praça do General Humberto Delgado e a Avenida dos Aliados. Praça dos Aliados, não.

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